Hamlet e Dom Quixote

Este ensaio poderia levar o nome de Cervantes e Shakespeare, se suas obras não fossem maiores que seus autores. Shakespeare e Cervantes habitam o ponto mais alto da literatura ocidental. Qualquer ser ficcional que tenha surgido nos últimos quatrocentos anos é uma mescla dos dois espíritos, ou é cervantesco ou shakespeariano.
Todavia como encontrar acertadamente um equilíbrio entre a importância dos dois? A meu ver, podemos nos aproximar de um entendimento sobre os dois autores por fazer uma comparação da alma de Hamlet com a alma de Dom Quixote.
Este ensaio pretende tratar os dois autores como mestres de sabedoria da literatura moderna, comparáveis apenas com o livro de Eclesiastes e ao livro de Jó, a Homero, e talvez com Platão.


O príncipe atormentado e o cavaleiro doidivanas. Ambos se apresentam como heróis, todavia sem objetivos claros, embora seus discursos afirmem o contrário. Qual é, por exemplo, o objetivo da busca ensandecida de dom Quixote? Acredito que não possa ser respondida esta pergunta. Não temos, por mais que nos esforcemos para compreender seus desígnios, competência para arriscar um adjetivo próprio para seu caráter incomum.
Quais são os pretextos legítimos de Hamlet? Poderíamos arriscar em vão, pois seu espírito é confuso. Já a busca magnífica do cavaleiro extremamente viril criado por Cervantes possui ecos de intenções para desvendar as leis do universo, como se tudo lhe fosse possível para alcançar um objetivo que não nos é transparente. Observamos isso na loucura que lhe é parceira por uma interminável viagem. O insucesso de Hamlet é o fato de ele residir entre dois mundos: o dos fantasmas e o da tragédia vingativa. No poema de Shakespeare apenas seu protagonista usufrui uma liberdade ilimitada, também por fazer uso da loucura para justificar seus atos.
Dom Quixote é uma bela efígie, ― a aproximação mais visível de um santo cristão ― ao contrário de Hamlet que é a própria imagem da parcimônia espiritual, um oco horroroso de carência de crença em Deus e em si próprio. Há críticos que afirmam que Dom Quixote seja a bíblia espanhola, como se tivesse fundado uma religião: o Quixotismo.
Hamlet é o embaixador da morte, enquanto Dom Quixote afirma que sua missão maior é derrotar a injustiça. A injustiça final para ele é a servidão extrema. Libertar os cativos é o modo pragmático com que o cavaleiro andante luta contra a morte.
Shakespeare não pode ser achado completamente em sua obra, nem mesmo em seus ensaios poéticos. É esta invisibilidade que faz com que alguns alucinados reclamem dele a autoria de sua obra, especialmente por sua complexidade de estilos. No que tange a direitos autorais, nenhum crítico ou fanático contestou até hoje se foi mesmo Cervantes quem escreveu o maior de todos os romances produzidos no ocidente. Já Cervantes habita em sua obra de modo prolixo e cumpre notar que ela possui três personalidades extremamente particulares: O cavaleiro, Sancho e o próprio Cervantes.
Discordo de alguns críticos que dizem que sua presença seja furtiva e sutil. Para refutar esta idéia, basta observar a vida do autor, o quanto sofreu antes e durante sua criação maior. A crueldade que esbanja em seu poema revela uma idiossincrasia autoral. Penso que não podia ser diferente, para quem perdeu a mão direita por conta de um ferimento de guerra ainda aos vinte e quatro anos. Cervantes foi preso e escreveu em ritmo acelerado a primeira parte do seu romance, depois foi acusado de roubo, também lhe roubaram as honras da primeira parte de sua obra e morreu em flagrante miséria.
Cervantes é ilimitadamente nebuloso. Shakespeare é análogo e esclarecedor: mesmo nos momentos mais melancólicos não para de jogar com palavras nem abre mão de um humor doentio. Sem contar com o fato de ser um assassino frio que mata oito pessoas incluindo ele próprio. Hamlet não precisa nem deseja nossa admiração e nosso afeto, mas Dom Quixote, sim, recebe ambos. Cervantes se apega à necessidade de ser humano, de suportar o sofrimento, por isso o cavaleiro conquista nossa admiração.

Hamlet tem em demasia a tragédia. A morte seria para Hamlet uma filosofia de confirmação do caos humano, de que a tragedia é uma boa saída para minimizar a consciência absurda da razão sobre o fim de todo ser vivo. Ao passo que a loucura seve para que a dor não seja tão dilaceradora.

“Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligiram, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos?”
“Ó morte orgulhosa, que festim está sendo preparado em teu eterno antro, para que assim de um golpe hajas derrubado tão ferozmente tantos príncipes?”
“Pois, quanto àquele que está unido a todos os viventes, há confiança, porque melhor está o cão vivo do que o leão morto. Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol.
Vai, come o teu alimento com alegria e bebe o teu vinho com um bom coração, porque o [verdadeiro] Deus já achou prazer nos teus trabalhos. Em toda ocasião, mostrem ser brancas as tuas vestes e não falte óleo sobre a tua cabeça. Vê a vida com a esposa que amas, todos os dias da tua vida vã que Ele te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade, pois este é o teu quinhão na vida e na tua labuta em que trabalhas arduamente debaixo do sol. Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com o próprio poder que tens, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria no Seol, o lugar para onde vais.”
Eis aí superioridade do livro de Eclesiastes. Aqui não há retórica. O autor é direto, não há mais alegria e prazer para o homem senão nas coisas matérias.
Assim como Shakespeare não se restringiu a um estilo especifico e por isso criou muitas obras fracas, Cervantes foi um dramaturgo fracassado em mais de vinte peças que não sobreviveram. Entanto, cumpre lembrar, que Cervantes em sua obra dá vida a muitas de suas almas literárias. Dom Quixote é tragédia e comédia, embora descanse em berço eterno como o maior romance ocidental.
Nenhuma obra que eu tenha estudado, que me lembre, mostra uma relação tão ambígua entre atos e palavras quanto em Dom Quixote. (Exceto em Hamlet.) O modo de criar é idêntico nos dois autores, embora fique bem evidente em Dom Quixote o preço da realidade, enquanto que em Shakespeare é o fantástico que se ressalta ― porque toda ação é teatral. Mesmo assim consegue‐se ironizar a eloqüência que é também característica dos discursos, tanto de Dom Quixote quanto de Hamlet.  À primeira vista, talvez pensemos que Hamlet esteja mais cônscio do peso do seu discurso que o cavaleiro, todavia a segunda parte do livro sombrio de Cervantes revela a consciência de Dom Quixote com relação a sua infâmia retórica.
Falemos não de comparações das duas obras, e sim de influências sobre os autores. São idênticas muitas fontes antigas para o texto de Hamlet. A primeira trata-se de Hrólfs saga kraka, uma saga legendária da Escandinávia. Nela, o rei assassinado tem dois filhos—Hroar e Helgi—que passam a maior parte da história disfarçados sob nomes falsos, ao invés de fingirem estarem numa condição de loucura—e é nisso que o texto difere-se do Hamlet de Shakespeare, onde o príncipe finge-se louco. O segundo é a lenda romana de Brutus, registrada em dois trabalhos latinos diferentes. O herói, Lúcio (“iluminado, luz”), muda seu nome para Brutus (“estúpido”, “bravo”), mudando também sua personalidade, passando a ser “idiota” para evitar o destino de seu pai e irmãos, acabando por degolar o assassino de sua família, o Rei Tarquinius. Para mim, o que  deve ter influenciado Shakespeare com relação à demência de Hamlet foi a personagem bíblica de David. Quanto a Dom Quixote, ficaremos sempre devendo uma comparação. Acredito-o mesmo como estilo único, e, que continuará sendo uma obra eternamente singular.
Fiquemos, pois, satisfeitos. Não importa fazer comparações entre dois grandes nomes da literatura, pais da cultura ocidental. Todos nós temos na alma um Hamlet e um cavaleiro frustrado, justiceiro niilista como Dom Quixote. Se suas obras não são assim tão impecáveis é porque além de magníficas são humanas. Mesmo que já tenhamos feito nossas escolhas, os dois espíritos geniais ficcionistas continuarão nos influenciando de qualquer maneira.

Evan do Carmo

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Um comentário em “Hamlet e Dom Quixote”

  1. Saramago é um dos meus escritores prediletos, só ´não ocupada este lugar, porque o Fernando Pessoa conquistou anteriormente.
    Caro autor, acredito que fica muito preso a preconceitos e não consegue ver a beleza da obra. a própria obra do Saramago na sua plenitude pertence ao divino.
    Seja mais generoso e altruísta, deixe o nosso Saramago descansar em Paz.Um homem que sofreu tantas injustiças por não compactuar c/ elas.
    Será que o Edir Macedo, os padres que praticam pedofilia,etc….Estão c/o divino.Eles falam do divino o tempo todo!
    Gostaria que refletisse sobre isso!

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