Agricultor que recebeu coração de fora do DF já pensa em voltar a trabalho

Noé das Dores Silva acena com os polegares: menos de 24 horas depois da cirurgia, ele foi desentubado e, até amanhã, deve deixar a UTI do Instituto de Cardiologia (Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
Agricultor de 45 anos submetido ao primeiro transplante do Distrito Federal com um órgão vindo de outro estado fala com exclusividade ao Correio. Aposentado por invalidez, o homem, acometido pela doença de Chagas, quer voltar a trabalhar

O agricultor Noé das Dores Silva, 45 anos, não acreditou quando recebeu a notícia de que teria um novo coração. Acometido pela doença de Chagas (veja Para saber mais) há cerca de seis anos, ele pensou que se tratava de mais um alarme falso. No ano passado, Noé saiu em disparada duas vezes para o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (IC-DF) com a esperança de que passaria pela cirurgia. Nada feito. Mas, na terceira tentativa, foi diferente. Na madrugada de quinta-feira, o mineiro de Bonfinópolis participou do primeiro transplante do DF feito com um órgão vindo de outro estado. O Correio acompanhou a chegada do órgão e todo o procedimento cirúrgico.

Noé ganhou vida nova a partir do coração que veio de Goiânia. O morador do Vale do Amanhecer guarda no peito um marco na saúde pública da capital federal e o suspiro de que as coisas voltarão a ser como eram antes. Em entrevista exclusiva ao Correio, o agricultor mostrou que a cirurgia é o começo de um novo caminho. Aposentado por invalidez e com a renda de “pouco mais de um salário mínimo”, ele mantém desejos modestos. “Vou continuar meu serviço. Não coisa pesada, igual ao que eu fazia. Mas, quem sabe, um serviço em mercado, na área de limpeza”, planeja.

Guerreiro, o agricultor largou a enxada, a contragosto, depois de receber o diagnóstico do estágio avançado da doença de Chagas. Noé teve um infarto e se recuperou no Hospital Regional de Planaltina. O susto o levou a fazer um acompanhamento detalhado dos problemas cardíacos. Durante a bateria de exames, descobriu que o mal tinha comprometido de uma vez por todas o coração. Foi um choque. A rotina mudou. Ele, a mulher e os cinco filhos saíram da chácara onde moravam na área rural de Planaltina. Mudaram-se para a casa de um familiar no Vale do Amanhecer.

Todos os dias, Noé levantava cedinho e ia para o portão de casa. Recostado nas grades, olhava os vizinhos que iam para o trabalho. O jeito foi se acostumar a uma vida pacata. Em vez de plantar arroz, milho e feijão, passou a se dedicar a tarefas que exigem menos esforço físico. Cozinhava o almoço, lavava a louça. Às vezes, fazia caminhadas a passos leves nas redondezas. Quando a inquietação não cabia mais dentro de um homem que sempre viveu para produzir, Noé ousava um pouco mais. Pegava a caixa de ferramentas e consertava um móvel quebrado.

O funcionamento do corpo mudou com a colocação de um marca-passos. De vez em quando, sentia choques no lado esquerdo do tórax. A descarga elétrica ocorria sempre que os batimentos saíam do ritmo e precisavam voltar ao normal. Apesar de sutis, os movimentos davam a sensação de que o transplante precisava ser feito com urgência. Mas a vez não chegava. A fila de espera parecia ter parado no tempo.

Coragem
A doença de Chagas matou três irmãos de Noé. “O pai dele ficou abalado. Não acreditava que fosse dar certo, que o transplante fosse mesmo acontecer”, conta a mulher do agricultor, a empregada doméstica Celina de Sousa Macedo, 34 anos. Apesar de tantos casos trágicos na família, Noé sabia que nada daria errado. Nem hesitou na hora de entrar na sala de cirurgia. “Um sobrinho dele nos trouxe de carro para o hospital. Viemos correndo. Ele é muito corajoso, não teve medo. Ele preferia correr os riscos de se submeter ao procedimento do que continuar como estava”, emociona-se Celina.

Na primeira vez que viu o marido renovado, na manhã de quinta-feira, Celina desabou em lágrimas. Não acreditava no que via. Com um tubo respiratório na boca, Noé não conseguia falar. Só acenava com os polegares. Diante de tamanha incredulidade, mostrou que realmente não havia mais o que temer. Balançou os braços para cima e para baixo. “Ele se mexeu todo. Aí vi que realmente estava tudo bem. Ele pegou na minha mão e disse que estava contente, feliz. Chorei como nunca tinha chorado”, lembra.

Recuperação
O paciente respondeu bem ao procedimento. Foi desentubado antes das primeiras 24 horas que sucederam a intervenção e, pelas previsões do IC-DF, deve deixar a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) até amanhã. Depois disso, a previsão é de que o agricultor passe 10 dias no quarto do hospital até receber alta médica. Até o fim da tarde de ontem, só usava o soro fisiológico nas veias e os aparelhos de monitoramento das funções vitais. Noé dava preferência a alimentos líquidos, como suco e sopa. A comida sólida doía ao passar pela garganta.

Por três meses, ele vai tomar antibióticos para inibir infecções. Daqui para a frente, o mineiro também terá de tomar medicamentos para evitar rejeições ao novo coração. Mudanças de rotina à parte, Noé só pensa em ter um dia a dia como o que tinha antes da doença de Chagas. Encontrar a mulher, o restante da família e os filhos: Larissa, 16 anos, Bianca, 13, Taciana, 10, e os gêmeos Jhony e Jhonatas, 15. Somente a mais nova é biológica, mas todos eles estão no novo coração.

Fonte.Correio.

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