Ensaio Sobre a Loucura, novo livro de Evan do Carmo, será publicado este ano nos EUA

Trecho do Livro Ensaio sobre a Loucura

10433128_279414458895563_8911530728704001479_nOs loucos diferem apenas em periculosidade, cada um expressa uma forma de loucura distinta. Crentes que dizem ver a Deus, mas que ignoram os homens. Médicos que receitam o não uso do tabaco, mas que são usuários inveterados de fumo e de álcool. Juízes que defendem a justiça de punhos fechados, mas aceitam suborno de mãos bem abertas, delegados que torturam para colher provas de crimes sem solução, políticos que desviam a grana da merenda escolar, filhos que escondem o que são dos seus pais, mulheres que fingem prazer com seus maridos, mas com os seus amantes se desmancham em volúpias. São todos loucos. E quem discordar deste argumento é louco também, apenas por discordar.

Meu livro. Ensaio Sobre a Loucura, à venda emwww.evandocarmo.com e emwww.clubedeautores.com.br Está sendo traduzido e publicado nos EUA pela editora America Star Books Publishing minha editora americana, este é o segundo livro disponível.

Leia capítulo do livro, Ensaio Sobre a Loucura

Um homem pula do alto de um prédio comercial. Lá em baixo há um grande alvoroço, pessoas correndo para verificar se o homem morto ainda respira. Esta curiosidade mórbida dos seres humanos em si já é um tipo de insanidade, tudo isso acontece inconscientemente, as pessoas não se dão conta da lógica nem da razão, antes de serem como que empurradas, no meio da multidão para constatar o que já sabem. Como se fosse possível alguém sobreviver a uma queda de tamanha altura.

Ao constatar a morte do desconhecido, digo constatar, pois ao se depararem com a cena dantesca, diante de um corpo estraçalhado, logo em seguida, quando lhes volta a razão e algum sentido de lógica, em seguida os observadores anônimos comentam entre si. Que loucura! Este homem deve ser um destes loucos que andam por aí sem rumo na vida. Ninguém em seu estado normal comete suicídio, pelo menos é este o parecer científico do senso comum. Pensa uma senhora de idade média, que também tem filhos. Outro homem, este moreno claro, que não tem filho nem filhas, pois é eunuco por opção, faz somar sua voz ao coro trágico do absurdo e diz. É loucura, o que mais poderia ser? – Alguém ser capaz de tirar a própria vida. O mundo está mesmo louco. Não é lugar-comum todo este espanto das pessoas que aqui são observadas pelo narrador, mas diante da tragédia pública com a qual lidamos, com pessoas comuns em cena, pois se são comuns os são porque se encontram a esta hora a passar por um centro comercial, pessoas que não raro se deslocam em busca de garantir seu pão diário. Portanto, estas pessoas, sendo humanas e comuns não poderiam descrever o que sentem e enxergam, a não ser com palavras simples como estas. Loucura… Tragédia… Absurdo!

O mundo é o mesmo de sempre meus caros amigos, este absurdo de contradições humanas. Este comentário, um tanto desconexo, poderia muito bem ser do narrador, que também nos parece pessoa humana e comum como os demais. Contudo, quem o faz é um senhor bem vestido, que pelo traje e vocabulário podia ser um advogado, um professor, ou mesmo um doutor da área médica. Ele silencia, cala diante do que vêr, e mesmo sendo culto não tem cabedal retórico para continuar com seu argumento em defesa do trágico acaso, e para nós não importa saber seu nome ou sua origem, nem tampouco seu ofício. São as pessoas que estão loucas, sem objetivo. Diz outro senhor de barbas longas, que olhava o morto sem demonstrar nenhuma confusão mental ou interesse especial. A vida perdeu o sentido. Diz outra voz um pouco fora da multidão.

Todavia, não podemos nos esquecer de um fato estranhíssimo, que ocorrera neste nosso cenário fúnebre.  Ao lado do corpo, entre tanta confusão e alvoroço, há um cão, que depois de um uivo silencioso, enquanto tudo se encaminha para o desfecho da nossa história trágico urbana, este cão, que mesmo sendo incomum nas suas atitudes e gestos, que além de uivar podia chorar, levando em conta que o contexto nos daria razão para supor ser normal, um cão que chora, todavia não é este cão, o cão das lágrimas de outros tantos romances famosos e incomuns, como se apresenta este nosso ensaio. Este cão preferiu uivar, embora que silenciosamente, pois sua melhor e mais atraente proeza é o riso. Pois bem, este é o cão do riso, não o cão das lágrimas.

É preciso coragem para seguir um caminho incerto como o suicídio, por exemplo, talvez só mesmo os loucos sejam capazes de trilhá-lo. Ser humano e normal deveria ser temer a morte, só se pode temer o desconhecido, e neste contexto fúnebre, quem não respeita este gigante invisível não respira no mundo da razão. Embora existam aqueles que apregoam que a razão deve nos conduzir a um estado natural de aceitação, e que a decadência física deve ser encarada como algo normal – a morte sendo um fim para dar à luz a outra realidade menos dolorosa. Contudo, isto pode ser uma bestial ideia, mas cada um crê no que lhe convém. Viver é sofrer, e é sofrendo que se aprende a dar valor ao gozo. Lógica simples meu caro leitor, sem escuridão não haveria luz. Todavia, mesmo este conceito de escuridão e luz, de bem e de mal, de dor e de prazer não suportaria o crivo da relatividade. Os humanos, perdidos em seus labirintos, buscando entender e explicar o caos inventaram nomes, vocábulos para explicar tudo em sua volta. Nomes que são apenas símbolos representativos daquilo que antes desconheciam. Mesmo depois da evolução da linguagem, ainda continuamos a viver como que em uma espécie de Torre de Babel, continuamos, portanto, sem entender as mesmas coisas, coisas às quais damos nomes, por isso temos quase sempre na ponta da língua uma resposta para tudo ou quase tudo. Portanto, nomes como compaixão, amor, loucura, medo, salvação, condenação, justiça, perdão, bondade, luxúria, desejo, maldade, sorte, felicidade, enfim, é uma profusão de confusões produzida por sentimentos que não dominamos – isto é o ser humano, um universo desgovernado em expansão.

Deixemos este divagar filosófico inútil para outro momento, pois não é justo desviar a atenção do leitor para este universo, que é ainda mais caótico do que o estado físico e mental onde perambulam as almas encarnadas deste Ensaio Sobre a Loucura.

Do outro lado da rua em que pessoas procuram razões para um suicídio inesperado, a menos de duzentos metros dali, enquanto uma multidão de transeuntes se ajunta para ver o corpo que caíra de uma altura de trinta andares, um carro desgovernado sobe à calçada e atropela uma família que esperava o ônibus para voltar para casa.

A família vinha de um passeio no parque da cidade, lugar para onde ia uma vez por mês. Os filhos, pobrezinhos, esperavam ansiosos o fim do mês para irem ao centro da cidade, onde também passeavam no zoológico de mãos dadas. As crianças adoravam jogar pipoca aos macacos. O pai das crianças, um senhor de 35 anos, tinha a pele escura, não era negro, mas queimada pelo sol. O homem era pedreiro, a mãe dona-de-casa, e os filhos eram crianças pobres que não sabiam ainda dos perigos das ruas nem conheciam a tragédia de perto, só sabiam da pobreza honesta que viviam com os seus pais, num subúrbio qualquer de uma grande cidade, de algum lugar sem importância geográfica para nossa história, onde as pessoas não terão nome nem rosto, nem endereço, com alguma exceção, é claro, quando for imprescindível descrever a beleza abstrata de algumas imagens, que só a loucura é capaz de reproduzir, então é que veremos o rosto e algumas características de pessoas comuns, que nos subjugarão, e, de algumas não tão comuns nos tornaremos cúmplices ou prisioneiros.

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