ENTREVISTA COM EVERTON MEDEIROS

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Everton Medeiros, escritor e poeta

Everton Medeiros da Silveira, brasileiro, natural de Porto Alegre/RS, casado com uma escritora amante da literatura, é engenheiro e Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Iniciou na escrita no ano de 2000, com a elaboração de roteiro cinematográfico (gênero ficção científica) voltado ao mercado norte-americano. Em 2001, participou de diversos concursos desse gênero nos Estados Unidos, onde registrou seu primeiro roteiro de longa-metragem. Conta com diversas participações em antologias de poesia e prosa, no Brasil e em Portugal. Em dezembro de 2017 publicará seu primeiro livro solo de contos. Além da escrita, tem como hobby a astronomia, suas observações e seus registros.

Quem é Everton Medeiros?

É muito mais fácil falar dos outros, ou do mundo, do que de nós mesmos, pois, normalmente, observamos ou percebemos o que está fora de nós e não o que está em nós. Mas, olhando para dentro, posso dizer que sou uma pessoa preocupada em não ser uma pedra no meio do caminho de ninguém (sem querer fazer alusão a Drummond, rs). Sou a favor da paz e da conversa. Primo pelo respeito ao próximo, e fico um tanto incomodado quando percebo que o próximo não tem a mesma preocupação.

Sou casado, e pai de dois meninos. Ocupo o cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil desde 2006. Por ser muito curioso, tenho um grande interesse em aprender coisas novas, principalmente relacionadas aos temas que mais me atraem, como a astronomia, pela qual tenho um grande fascínio, e os demais campos das ciências naturais. Mas gosto também das ciências humanas, em especial da História, e gosto muito de assistir a documentários relacionados a essas ciências. Acho instigante saber e entender como nossa sociedade chegou onde chegou. Valorizo plenamente o papel que os educadores têm em nossa sociedade, e tenho um profundo respeito por eles. Não vejo outro caminho para o crescimento humano e evolução do corpo social, a não ser pela leitura, pelo estudo e pela pesquisa.

Gosto muito de ler um bom livro, ouvir uma boa música e assistir a um bom filme, apesar de saber que o conceito de bom é um tanto quanto relativo. Adoro espetáculos de dança e peças teatrais. Não tenho educação nas artes, apesar de ter estudado piano por algum tempo, mas admiro todas as formas de expressão artística.

Em resumo, gosto de ver, ouvir e aprender. E falar um pouco também (rs).

Quais foram as suas primeiras influências para poesia?

Diferentemente da maioria dos poetas, o gosto e o interesse pela poesia chegaram tarde em minha vida. Posso dizer que iniciaram junto à escrita poética. A partir do momento em que comecei a escrever poesias é que passei a olhar de maneira diferente para tudo aquilo que tinha lido durante minha vida estudantil, e que até aquele momento ainda não havia despertado em mim a vontade, ou mesmo a necessidade, de poetizar. Num curto espaço de tempo, li mais poesias do que tinha lido em toda a minha vida passada.

Entre os poemas que fiz neste último ano, três deles foram inspirados em filmes do cinema norte-americano. Por gostar muito de cinema e também por ter iniciado no mundo da escrita com a elaboração de roteiro cinematográfico, decidi juntar a poesia à sétima arte. Dessa união, resultaram três poemas que contam, de forma poética e sintética, a história que se passa em cada um desses diferentes filmes. Para a realização desses trabalhos, fiz uso de versos de poetas consagrados na literatura brasileira e portuguesa, alternando, em cada poema, versos meus e versos famosos. Assim, para atingir o resultado desejado, mergulhei na obra poética de dezenas de poetas brasileiros e portugueses, clássicos, modernos e contemporâneos. Dentre todos os que li, chamaram a minha atenção os ricos poemas de Luís de Camões, Fernando Pessoa, Augusto do Anjos, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, entre tantos outros nomes importantes da literatura lusófona.

Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

 No início de 2016 eu comecei a escrever contos para antologias de prosa no Brasil e em Portugal. Participei em diversas antologias naquele ano e também em 2017. O início da escrita em prosa veio de um grande estímulo da minha esposa, a qual já escreve há algum tempo. De fato, a escrita estava adormecida em mim, pois no ano de 2000 eu já havia entrado neste universo, apesar de o foco ser outro, quando escrevi meu primeiro roteiro cinematográfico (gênero ficção científica). Naquele ano, um forte desejo de escrever caiu sobre mim. Sempre muito curioso, e apaixonado por cinema, decidi a aventurar-me nesta maravilhosa arte. Em 2001, eu concluí o meu primeiro roteiro, registrado posteriormente no Brasil e nos Estados Unidos, e passei a participar de concursos no mercado norte-americano. Comecei, então, a escrever um segundo roteiro, mas, por desvios que a vida eventualmente nos faz tomar, acabei interrompendo esse trabalho, e não mais voltei a escrever, até o início de 2016.

Após quase um ano escrevendo prosa, no final de 2016 eu fui convidado por um amigo poeta a escrever uma poesia em conjunto. Até então, não tinha passado pela minha cabeça tentar algo nesta forma de expressão literária. Fiquei curioso com o que, aparentemente, seria um desafio para mim, pois meu foco era a prosa. Ainda assim, decidi poetizar. Desde então, o gosto e o interesse pela poesia só aumentaram. Percebi, com a escrita poética, uma maneira muito prazerosa de expressar minhas emoções, além de servir também como elemento de comunicação com o mundo fora de mim. Desde então, quando surge uma emoção, um sentimento mais intenso, ou um fato que julgo importante, eu tento poetizá-los.

Que tipo leitura é imprescindível para um poeta ou escritor?

 Em minha opinião, qualquer tipo de leitura é válido como fonte de inspiração e conhecimento, tanto para a prosa quanto para a poesia. Tenho formação acadêmica em engenharia e especialização na área de engenharia econômica. Leio variados tipos de conteúdo, sobretudo científicos, e tenho como hobby a astronomia. Adoro as ciências, de maneira geral. Em diversos textos em prosa que escrevi adicionei elementos de vários ramos do conhecimento humano, como física, psicologia, filosofia, botânica, astronomia, matemática, química, entre outros. Alguns dos meus poemas também contém referências a alguns dessas áreas do conhecimento.

No entanto, penso que isso não basta. Usar o conhecimento humano na poesia ou prosa é importante e enriquece sobremaneira a escrita, mas o contato com a literatura, seja ela clássica, moderna ou contemporânea, nacional ou internacional, é elemento fundamental para o desenvolvimento da escrita e do poeta/escritor.

Em resumo, creio que todos e quaisquer ramos do conhecimento humano são capazes de inspirar e enriquecer a produção literária, e devemos sempre fazer uso dessa bagagem cultural. Mas o contato com a literatura é o que verdadeiramente nos mostra e nos ensina o que é o belo escrever.

Em que hora do dia você gosta de escrever?

 A inspiração nunca avisa quando baterá à porta. Ela já me visitou no início das manhãs, no meio das tardes, durante a noite e no início de algumas madrugadas, em diferentes locais e situações.

Pelo fato de não ter dedicação exclusiva à escrita, pois trabalho durante o horário comercial como servidor público federal, geralmente eu direciono parte das minhas poucas horas livres do período noturno, e dos finais de semana, à poesia e à prosa, no aconchego do meu lar. Mas posso dizer que o horário diurno é aquele que mais me agrada. Trata-se do período em que minha mente está mais leve, pois estou mais descansado. Consequentemente, meus pensamentos fluem com mais facilidade, favorecendo a criatividade.

Qual é a temática da sua poesia?

 Eu já escrevi poesias com temas românticos, eróticos, melancólicos, cômicos, filosóficos, de crítica social, etc. Dentro de cada tema, gosto de escrever com mais, ou menos profundidade, dependendo do momento em que me encontro e da inspiração que recebo.

Apesar de escrever poesias “superficiais”, minha preferência é, sem dúvida, pela poesia mais densa, filosófica, com bastante ambiguidade, figuras de linguagem e, quando adequado, alguma crítica social.

Como acontece seu processo criativo?

 Eu, basicamente, percebo dois processos bem definidos e distintos na minha escrita:

No primeiro processo, sem nenhum aviso, vem à minha mente uma ideia, um verso, um pensamento, ou algo do gênero. É um momento de súbita inspiração, que surge do nada ao observar, por exemplo, uma pessoa, um pássaro, a lua, ao olhar para uma flor, após sentir uma forte emoção, etc. Então, para não perder a ideia, tento registrá-la, assim que possível. Num momento posterior, volto àquele registro e tento extrair algo proveitoso dele

O segundo processo ocorre quando eu penso: vou escrever. É um momento em que sinto uma grande vontade de pôr algo no papel (de fato, na tela do computador. rs). Neste caso, eu sento e ponho-me a pensar em muitas coisas, pulando rapidamente de uma para outra, para ver se algo de bom surge. Trata-se de um brainstorm individual tentando estimular a criatividade.

Eu não saberia precisar qual dos dois processos criativos eu utilizo mais, mas acredito que a maior parte dos meus textos nasceram pelo segundo processo.

 Um escritor especial para você?

 Há tantos nomes especiais na literatura, o que torna árdua a tarefa de citar apenas um escritor. Mas, considerando-se o tipo de leitura que sempre me atraiu, eu citaria o escritor britânico Herbert George Wells (H. G. Wells), por suas fantásticas e criativas histórias de ficção.

 Como concilia sua profissão com a literatura?

 Trabalhar oito horas diárias como Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, no horário comercial, faz com que o tempo disponível para a literatura seja bastante reduzido. O tempo que sobra em cada dia é dividido com minha família e com as diversas obrigações diárias, o que deixa pouquíssimo tempo livre para a escrita ou mesmo a leitura. Como dito anteriormente, a literatura, normalmente, fica concentrada no período noturno e nos finais de semana.

De fato, é difícil conciliar, num breve período de 24h, a vida de um profissional com a vida de um pai, de um marido, de um amigo e de um escritor louco para escrever. São muitos papéis a serem desempenhados num curto intervalo de tempo.

Um livro inesquecível?

 Na fase adulta de nossas vidas, lemos muitos livros ótimos que, de alguma forma, nos marcam. Mas é na infância que, pela inocência e capacidade de viver num mundo de fantasias, mergulhamos de corpo e alma nas histórias que lemos, quando essas nos atraem. E muitas dessas histórias acabam por se tornar inesquecíveis.

Um dos livros que mais marcou a minha infância foi a triste história O Meu Pé de Laranja Lima, lançado no ano de 1968, mesmo ano do meu nascimento, do autor José Mauro de Vasconcelos. Uma história muito bonita, mas igualmente triste.

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

Gosto muito das ciências naturais, em especial da física, química, matemática, astronomia e biologia. Nessas áreas do conhecimento humano, tenho uma enorme admiração por cientistas que, com suas inestimáveis descobertas e/ou invenções, possibilitaram à humanidade compreender um pouco mais sobre o que está ao nosso redor, assim como sobre nós mesmos. Dentre tantos cientistas, talvez eu gostasse de ter sido o físico alemão Albert Einstein, por sua visão filosófica do homem, sua sensibilidade humana, sua grande humildade, além do brilhantismo na física teórica. Einstein foi um dos raros homens neste planeta capaz de ver e entender o que parecia irracional para a mente humana do início do século XX, e que ainda parece difícil de compreender nos dias atuais. Em minha opinião, um dos homens mais brilhantes que a humanidade já viu e verá.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

Tenho uma excessiva preocupação com o correto uso do português. Quando percebo algum erro na minha escrita, após o texto ter sido colocado no mundo, e, portanto, lido, eu fico chateado por não ter visto antes. Escrever poesia ou prosa com erros é inaceitável para mim, mesmo sabendo que errar é humano e que é esperado eventuais deslizes por parte de quem escreve.

Vejo muitos escritores despreocupados com a gramática, ou mesmo a ortografia, ao dizerem que o revisor tem esse papel, ou seja, o papel de corrigir os erros da escrita do autor. Não posso, de forma alguma, concordar com esse entendimento. A língua portuguesa é nosso instrumento para expressar o que vemos, ouvimos e sentimos. Devemos usá-la da melhor forma, e da maneira mais correta possível.

Escrever errado, supondo-se que o texto passará por um revisor, é pedir para que alguém altere aquilo que você criou, é dar o aval para o revisor mudar o sentido de um verso, de uma estrofe, ou mesmo de um poema inteiro que você pôs no mundo. Quanto menos erros um texto tiver, menos correções precisará e, portanto, mais fiel ao seu criador ele será.

Por certo, a escrita escorreita não é a minha única preocupação. Acho fundamental colocar conteúdo naquilo que escrevo. Penso que poetizar não é simplesmente escrever palavras que rimem e que apenas transmitam informação. Quero, seja na prosa ou na poesia, mostrar algo belo e proveitoso a quem lê.

Fale-nos um pouco dos seus livros.

Em janeiro de 2018 será publicado pela Editora Scortecci meu primeiro livro solo de contos, de nome DEZOITO. É um livro com 18 contos em 160 páginas, de variados gêneros, cujas histórias foram escritas nos anos de 2016 e 2017, tendo a maior parte delas sido publicadas em antologias brasileiras ou portuguesas. Dos dezoito contos do livro, cinco são originais.

Para o final de 2018, eu pretendo lançar meu primeiro livro solo de poesias, o qual se encontra no início da gestação.

Comecei também a escrever um romance de ficção científica no final de 2016, mas esse ainda não tem previsão para término.

 Como você classifica a poesia atual brasileira?

Classificar é um verbo complicado. De maneira geral, nós, seres humanos, gostamos de rotular tudo o que existe neste mundo. E é certo que há muito subjetivismo em boa parte das classificações, sobretudo quando não seguem alguma técnica rígida. Classificar poesia não é algo tão simples de se fazer, quando se busca uma separação entre diferentes escolas ou movimentos literários, ainda mais para identificar um novo movimento literário que possa estar surgindo no momento em que se analisa determinada escrita ou determinada época.

Em linhas gerais, pelo que percebo nos dias de hoje, tomando as redes sociais como objeto de estudo, que fácil e rapidamente difundem informações, todo mundo que escreve um par de linhas sente-se um poeta. Vemos os mais variados tipos de poesia, nos mais diversos temas. E, por vezes, sinto alguma dificuldade em identificar se aquilo que estou lendo é um poema ou não, se tem poesia ou não. Penso que poetizar é escrever sentimentos nas linhas e entrelinhas, é usar figuras de linguagem para conduzir o pensamento do leitor aos mais diversos lugares, é colocar musicalidade na escrita, ainda que os versos não contenham rimas explícitas, é dizer muita coisa com poucas palavras.

Em oposição ao Parnasianismo, que apresentava regras rígidas para a escrita poética, a poesia contemporânea mostra-se completamente livre de amarras. Vemos uma abundância de poemas construídos com versos livres, para onde quer que olhemos, e que parecem representar a preferência dos poetas contemporâneos para a escrita atual. Pelo que percebo, a escrita poética metrificada e rígida, como a dos sonetos, ainda vive, mas de forma tímida na escrita atual brasileira. É certo que os versos livres dão mais liberdade ao poeta e, talvez por isso, escolham essa forma para poetizar.

Fale das suas frustrações com relação ao Brasil, sobretudo com respeito à política.

Nos últimos anos, por tudo de ruim e abominável que tenho visto nos mais variados meios de comunicação, o sentimento que sobressai em relação a nosso país, mormente no âmbito político, é o de desesperança. As falcatruas que vejo dia após dia parecem não ter fim. Fica uma triste impressão de que não existem mais políticos honestos e honrados, como no passado, e que mereçam ocupar os cargos públicos para os quais foram eleitos.

Parece fazer parte da cultura brasileira a corrupção e a desonestidade. E estas não demonstram estar presentes apenas nos Poderes Executivo e Legislativo, sejam eles federal, estadual e municipal, mas também no Judiciário.

Há mais de vinte anos, eu faço parte de um importante órgão do Poder Executivo Federal. Tenho orgulho de trabalhar na Secretaria da Receita Federal do Brasil, pois é uma das instituições brasileiras mais sérias que já vi em nosso país. Felizmente, há inúmeras outras instituições públicas constituídas por servidores honestos e honrados. Mas nos dias de hoje, quando olhamos para o país como um todo, a desonestidade e a corrupção parecem ser a regra, e não a exceção.

É muito triste e desanimador ver um país tão rico como o nosso ser roubado dia após dia, mês após mês, ano após ano. Tenho a impressão de que essa situação perdurará por muito tempo, até que haja um pesado e constante investimento em educação, e que nasça uma forte vontade nos governantes em mudar a cultura do povo brasileiro e os rumos da nação.

Se não houver uma mudança na mentalidade do povo brasileiro, nosso país ficará sempre nesta situação, ou mesmo pior. E ainda que haja vontade de mudança e investimento nesta transformação cultural, acredito que levará algumas gerações para que o povo venha a ser honesto, desde o mais pobre até o mais rico. Quero acreditar que esse dia chegará.

Família, o que representa para você?

Vejo a família como um porto seguro. É o que me impulsiona a lutar, a crescer, a viver. É onde aprendo verdadeiramente o que é amar e ser amado.

Família não é somente aquela que se forma pelo matrimônio e laços de sangue. Acredito que é muito mais do que isso. Famílias surgem a cada instante e apenas pelos fortes laços de amor. Muitas vezes, recebemos (ou damos) mais carinho e atenção de um amigo, onde não existe relação sanguínea, do que de um parente próximo. Por isso mesmo, eu entendo que laços de sangue, por si só, não garantem o amor entre as pessoas.

Falando de mim, tenho a felicidade de fazer parte de uma bela e unida família. Sou casado com uma mulher admirável, também escritora, que ama escrever e dançar. Um ser humano cheio de qualidades e com muita bondade no coração, e que me apoia muito em tudo que faço. Tenho dois filhos homens fantásticos, um adolescente e um pré-adolescente, que também me enchem de orgulho. Vejo os três como fonte de felicidade e energia para viver e crescer. Minha família é tudo para mim, e a eles eu tento me dedicar ao máximo.

Não posso deixar de falar da minha primeira família: os meus pais. Pessoas maravilhosas que sempre me apoiaram em minhas decisões, e de quem recebi muito carinho e atenção. O que sou, como ser humano, reflete a educação que deles recebi e por quem tenho um profundo respeito.

 NÁUFRAGO

(Poema a 44 mãos)

Itinerante, percorro o mundo.

Mundo mundo vasto mundo.     (Carlos Drummond)

Absorvido, dou-me ao trabalho,

contam comigo, não falho.     (Millôr Fernandes)

Em breve, vou partir. Mas, neste momento,

de tudo ao meu amor serei atento.     (Vinícius de Moraes)

A próxima e longa jornada está para acontecer.

Uma ânsia de estar e de temer.     (José Saramago)

O avião decola. No Pacífico, cai de repente.

Inteiro se desata à minha frente.     (Carlos Drummond)

Único sobrevivente, chego à praia de claras areias.

Com suas poucas palmeiras,     (Castro Alves)

percebo-me só nesta falsa miragem.

Meu Deus, me dê a coragem.     (Clarice Lispector)

Não sei o que faço, se fico,

se desmorono ou se edifico.     (Cecília Meireles)

Tudo parece um sonho, em demasia.

Passou-me essa fantasia.     (Machado de Assis)

Tenho, ainda, na vida que mareia,

perguntas que insistiam na areia.     (Paulo Neruda)

Sem ninguém para aqui amar,

tomarei banhos de mar.     (Manuel Bandeira)

Quando tento o fogo, vem o corte, a dor.

Eu sou apenas um pobre amador.     (Tom Jobim)

Na ira e na dor, enlouqueço e tudo sai voando.

Almas estão no peito trespassando.     (Luís de Camões)

Agora calmo, pego a bola e penso: que assim seja,

a mão que afaga é a mesma que apedreja.     (Augusto dos Anjos)

Preciso de um amigo a meu lado.

Não me basta saber que sou amado.     (Olavo Bilac)

Penso na minha vida, na minha história,

porque a minha pátria é a minha memória.     (Guimarães Rosa)

Escrevo em Wilson o que quero transcrito,

ou aquilo que quer ser escrito?     (Sandra Boveto)

Perceba, meu amigo resiliente,

é solitário andar por entre a gente!     (Luís de Camões)

Entre tantas dores, traz um sofrido dente

a dor que deveras sente.     (Fernando Pessoa)

O tempo passa, e aprendo com muita sobra:

sofrer vai ser a minha última obra.     (Paulo Leminski)

O presente é aqui, agora ao meu lado.

Nunca o presente é passado.     (Machado de Assis)

Sozinho por anos, vivi bem, vivi são.

Tudo é vaidade neste mundo vão.     (Florbela Espanca)

Mas chega. Quero voltar à minha vida

numa fuga para o ponto de partida.     (José Saramago)

Pego a frágil jangada e sigo sem norte.

Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte.     (Alphonsus de Guimaraens)

Nas águas, Wilson cai e se vai na incerteza.

Uma névoa de sentimentos de tristeza.     (Fernando Pessoa)

E penso: essa bola foi amiga inestimável,

foi tua companheira inseparável.     (Augusto dos Anjos)

Ainda que não viva, o que não quero, deixei a masmorra.

Não permita Deus que eu morra,     (Gonçalves Dias)

sem que volte para casa.

IN JUSTICE

Que alma viva

morrerá sem ver justiça?

Que alma morta

viveu sem tal mestiça?

O conceito é ilusório,

é um vício redibitório,

quase sempre procrastinatório,

quase nunca peremptório.

O resultado… um tanto irrisório.

Tentamos,

tentamos e

tentamos.

Mas nunca alcançamos,

por isso naufragamos.

A nau decaída não aporta.

Não há porto para essa morta,

nem porta de saída.

Nós debatemos,

afundamos,

e assim morremos.

A justiça, sempre tardia, é sempre falha.

Ela é postiça, vadia e pirralha.

MULHER

Em recônditos pensamentos,

tu, mulher, ocultas teu pranto.

Expressão sublime e perene,

teu ser esvai-se em momentos.

Encerrada no mais belo manto,

tu és única, tu és encanto.

 

 

 

Por Evan do Carmo

 

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