Almas negras – Everton Meeiros

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foto: http://www.megacurioso.com.br

São 22h33.

            Sentado numa antiga poltrona em veludo verde-musgo, adornada com recortes em imbuia envernizada e capitonê no espaldar, Howard Koontz, fumando seu charuto cubano preferido, observa a chuva torrencial que se choca contra a ampla janela de sua sinistra sala de estar, no vigésimo e último andar do hotel King Edgar Palace. Sem trégua, relâmpagos e trovões alternam-se durante a caudalosa chuva que cai há dias. Não há ninguém naquele apartamento, exceto Howard.

De fato, não há outro ser humano na macabra cobertura.

            Dois grandes corvos pretos repousam nos braços da confortável poltrona verde, um de cada lado do inclemente senhorio. Devido à grande e antiga admiração por essas aves, e também por sentir-se ainda mais próximo da imortalidade, Howard nomeou seus companheiros alados de Hugin e Munin, em referência aos corvos mensageiros do mitológico e imortal deus nórdico Odin.

            Enquanto a mão direita do Sr. Koontz segura o fétido charuto, quase inteiramente consumido, a esquerda acaricia a cabeça do pacato Hugin. Munin, seu corvo mais fiel, crocita de ciúmes ao perceber seu mestre adulando o suposto rival. Instintivamente, Munin voa sobre Hugin, sendo de imediato contido por Howard, antes que consiga cravar suas garras no desprevenido companheiro, que, assustado, voa para longe da poltrona.

            – Não, não, não, não, não! Já avisei você, Munin, que não tolero mais esse tipo de comportamento. Essa foi a última vez – diz Howard em voz firme, enquanto olha diretamente nos olhos negros do corvo traiçoeiro, que, em desespero, debate-se pela asfixia provocada pelo punho de seu mestre.

            O Sr. Koontz precisa tomar uma difícil decisão. Sem dúvida, a mais árdua de toda a sua existência. E tal decisão deverá ser sinalizada às almas negras, que habitam sua cobertura, antes que chegue a meia-noite daquele dia. Caso contrário, a incessante busca pelo poder e pela imortalidade, conduzida por seus infindáveis experimentos ao longo de anos, terá sido totalmente em vão. A sinalização que as almas requerem é a vida de um ser humano, mas esta ainda não é a difícil decisão que Howard deverá tomar, pois tirar a vida de alguém há muito deixou de ser um peso em sua consciência.

            Howard não consegue ver diretamente as almas negras, percebidas por ele como oito entidades distintas, tampouco consegue ouvi-las ou senti-las, mas sabe da presença em seu apartamento, pois ele mesmo as invocou logo após a construção do hotel, tendo-as identificado nas semanas seguintes à mudança para a cobertura. Para comunicar-se com as almas humanoides, desprovidas de rosto, detentoras de corpo etéreo e de cor negra, Howard escreve em cartazes suas perguntas, que podem ser respondidas pelas entidades com um simples aceno de cabeça, positivo ou negativo, e os direciona aos inúmeros espelhos instalados por todo o seu apartamento. É no reflexo dos espelhos que Howard vê as almas negras, quando a luz ambiente é tênue, e é pelo reflexo que as almas leem os cartazes. Mas, para que as entidades possam comunicar-se com Howard, as perguntas devem ser escritas na forma especular, o que significa dizer escritas em espelho.

            Firme em seu sombrio projeto de poder, Howard não se importa com a presença funesta das almas, contanto que sirvam ao seu propósito. Ele não sabe quem são, ou melhor, quem eram antes de desencarnarem, mas acredita que vieram em seu auxílio.

            Sem perder mais do seu escasso tempo, Howard, resoluto em seu desígnio, levanta-se da poltrona, larga num cinzeiro o resto do charuto que ainda queima, vai em direção ao telefone prateado, localizado num dos cantos da escura sala de estar, e liga para a misteriosa Ingrid Peterson, gerente do King Edgar Palace. Enquanto o telefone chama, Howard olha para seu punho esquerdo e percebe que permanece segurando o pobre Munin, nesse momento desfalecido.

            – Ingrid?

            – Sim, Sr. Koontz!

            – Preciso de um hóspede!

            – Que hóspede, Sr. Koontz?

            – Qualquer um.

            – E para quando o senhor precisa?

            – Você tem uma hora, Ingrid, não mais!

            – Entendi… E o senhor quer que eu mande diretamente para seu apartamento, é isso?

            – Exato, Ingrid!

            – Já vou descer para o lobby. Estou desconfiada de que um dos funcionários da limpeza esteja desviando alguns de nossos hóspedes apropriados para o décimo sétimo andar, mas isto não vem ao caso agora.

            – Ok. Outra coisa, Ingrid.

            – Pode falar, Sr. Koontz.

            – Amanhã à noite eu preciso que você fique no hotel.

            – Sem problemas.

            – Você sabe como está nossa lotação?

            – Amanhã nós receberemos mais alguns hóspedes e ficaremos perto da lotação máxima.

            – Excelente!

            – Muito bom mesmo!

            – Então vá agora! Lembre-se, você tem menos de uma hora!

            – Já estou descendo.

            Howard desliga o telefone para, em seguida, ligar para seu amigo Alan Straub.

            – Alan?

            – Olá, Howard!

            – Fique fora do hotel amanhã!

            – Como assim?

            – Não quero que se machuque.

            – Howard, você sabe que não há nada que possa me ferir.

            – Amanhã será diferente.

            – Diferente como?

            – Amanhã à noite receberemos alguns hóspedes. Entre eles estará alguém que pode eliminar sua imortalidade.

            – Só há um jeito de isso acontecer.

            – Eu sei. E esse é meu medo.

            – E por que o hotel receberá esse hóspede? Quem é ele?

            – Alan, não tenho como impedir isso e não sei também quem é. Desculpe-me! Mas ele ficará apenas uma noite. Longe daqui, você e sua companheira estarão seguros.

            – Entendo, Howard. Agradeço sua preocupação!

            – Somos amigos, Alan.

            – Somos.

            – Então não esqueça! Amanhã deixe o hotel antes das 18h!

            – Mais uma vez, obrigado!

            – Estou muito próximo do meu objetivo, Alan.

            – Nunca duvidei que alcançaria.

            – Poder e glória eternos.

            – Você tem trabalhado muito para isso.

            – Tudo tem seu preço, meu amigo… E eu sei que pagarei caro por isso.

            – Valerá o sacrifício.

            – Espero que sim… Então é isso. Tenho afazeres que me chamam.

            – Boa noite, Howard!

            – Até breve!

            Howard desliga o telefone e olha seu relógio de pulso, que marca 23h11. Então, retorna à poltrona, senta-se, abaixa seu punho esquerdo e larga o lânguido Munin sobre o tapete ao lado. Após trinta longos minutos, ele ouve batidas na porta de entrada do seu apartamento. De imediato, levanta-se da poltrona e vai ao encontro do incógnito visitante. Ao abrir a porta, ele vê um homem alto e magro, de cabelos e olhos negros, e roupas inteiramente pretas. Um intenso arrepio percorre seu corpo. De imediato, ele pressente que algo não está como o planejado.

            – Boa noite, Sr. Koontz! – diz o misterioso homem.

            – Boa noite! – responde o desconfiado Howard.

            – A senhorita Ingrid pediu-me para vir aos seus aposentos.

            – Ah, sim… Entre, por favor! Sente-se naquela poltrona vermelha!

            – Com licença – diz o desconhecido enquanto entra no apartamento.

            Howard fecha a porta e discretamente retira um pequeno punhal escondido em sua calça. Em seguida, olha seu relógio e vê que marca 23h49. Então pensa: tenho pouco tempo. O desconhecido senta-se na poltrona indicada, e Howard, logo depois, acomoda-se em sua poltrona. Ao sentar-se, ele percebe que Munin não está mais onde o havia deixado, mas isso pouco importa para Howard.

            – Algum problema, Sr. Koontz? – pergunta o desconhecido.

            – Nada importante – responde Howard em tom de desprezo.

            – Entendo.

            – Qual é o seu nome? – pergunta o anfitrião.

            – Deixemos isso de lado, Sr. Koontz. Diga-me por que me chamou ao seu apartamento!

            – Para isso.

            Howard imediatamente avança em direção ao misterioso homem e crava o punhal direto em seu coração. Ele deixa o instrumento enterrado no peito do desconhecido e volta para sua poltrona, encarando-o nos olhos. O homem, imóvel, não demonstra nenhuma reação após ser perfurado. Howard, igualmente estático, parece confuso. Então, o desconhecido retira suavemente o punhal do seu peito, sem sangue aparente, e diz:

            – Sr. Koontz, eu já estou morto. Sinto decepcioná-lo!

            – Mas…. Como assim? – retruca Howard, em visível espanto.

            – Sr. Koontz, apesar de tudo que já passei com o senhor, eu vim aqui para ajudá-lo, pois sempre fui um servo fiel.

            – Servo??? Não estou entendendo nada. Foi a Ingrid que mandou você aqui?

            – Não. Eu interceptei o hóspede que o senhor requisitara e o dispensei.

            – E por que você fez isso? Você é o tal funcionário do décimo sétimo que ela falou?

            – Não sou esse, seja ele quem for. Fiz isso para ajudá-lo, Sr. Koontz!

            – Ajudar-me? Você não me ajudou, só atrapalhou meus planos – em tom tenso.

            – O senhor realmente não sabe de nada.

            – O que eu não sei? – diz Howard em tom agressivo.

            – O senhor está sendo usado por aqueles que buscam vingança.

            – De quem você está falando?

            – As almas negras não estão aqui para ajudá-lo, Sr. Koontz. Elas querem o seu fim, assim como o fim deste hotel.

            – Como você sabe disso?

            – O plano de destruir o hotel, quando estiver em lotação máxima, não trará poder ou imortalidade ao senhor. A vingança que as almas desejam é justamente matar todos aqueles que contribuíram para a construção desse prédio, e também destruí-lo.

            – Como você sabe disso?

            – Eu sei muita coisa deste hotel, Sr. Koontz. Vi e ouvi muito durante o tempo em que estive aqui em minha vida passada.

            – As almas negras vieram porque eu as invoquei. Vieram em meu auxílio.

            – Sim, vieram a seu pedido, mas não para auxiliá-lo.

            – Quem é você?

            – O senhor não conhece o passado das almas negras, e ainda assim confia cegamente nelas?

            – Tanto quanto em meus corvos.

            – E onde estão seus corvos, Sr. Koontz?

            – Isso não me interessa.

            – O que o faz acreditar que, destruindo tudo, inclusive a vida de seus amigos, hóspedes e empregados, alcançará seu objetivo?

            – Quem são as almas negras?

            – Quantos pilares este hotel possui, Sr. Koontz?

            – O quê?

            – Quantos pilares este hotel possui?

            – Dezenas, eu acho.

            – Pergunto dos grandes pilares estruturais.

            – São… oito pilares.

            – Sim, oito… E quantas almas negras habitam seu apartamento?

            – Oito.

            Neste instante, Howard faz a associação das oito almas negras com as oito inscrições hitobashira nas grandes colunas estruturais do subsolo do hotel.

            – Você está me dizendo que essas almas são das oito pessoas que enterramos nas colunas? – indaga Howard em tom apreensivo.

            – O senhor tem alguma dúvida?

            Após ouvir as ponderações do desconhecido, Howard se convence de que estava sendo usado pelas almas.

            – Obrigado por me ajudar – diz Howard.

            O misterioso homem levanta-se e vai em direção à porta de entrada do apartamento. Após abrir a porta, ele se vira para Howard, ainda sentado em sua poltrona, e diz:

            – A propósito, meu nome é Munin.

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