SERGIO MORO DÁ FORMA A UM NOVO ESTADO POLICIAL NO BRASIL

SEM NENHUMA explicação, militares filmaram palestra de um cientista na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC. A palestra era sobre as ações do governo Bolsonaro na área de ciência e tecnologia.

Também sem nenhuma explicação, uma reunião do sindicato dos professores de Manaus foi invadida por policiais rodoviários, que sentaram à mesa portando metralhadoras e iniciaram um interrogatório. A ordem veio do Exército brasileiro, disseram os policiais. A reunião tratava dos preparos para as manifestações contra Bolsonaro durante sua visita à cidade.

Na quinta-feira, o ministro da Justiça baixou uma portaria que autoriza a deportação sumária de pessoas “perigosas para a segurança do Brasil”, violando a presunção de inocência para estrangeiros, o que é escancaradamente inconstitucional.

Na sexta-feira, um deputado federal do PSL protocolou junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido de prisão temporária contra o jornalista Glenn Greenwald. Ontem, sem nenhuma justificativa legal, o presidente da República fez uma ameaça velada ao insinuar que o jornalista pode ser preso.

Esses episódios ocorridos nesta semana têm se tornado cada vez mais frequentes. Aos poucos, o estado policialesco vai se consolidando no país, virando o novo normal. É a consequência natural de um governo autocrático, que rejeita as mediações democráticas, e cujo super ministro da Justiça viola as leis em defesa própria. E, ao que parece, estamos apenas no começo.

O ex-juiz, que foi pego corrompendo o sistema judicial, é hoje o chefe máximo da Polícia Federal. E, como já era de se esperar pelo histórico, não está tendo o mínimo pudor em usar a máquina para tentar colocar os seus esqueletos de volta para o armário. Ele segue infringindo leis e jogando areia nos olhos da opinião pública, sempre buscando consolidar a narrativa do mocinho perseguido por bandidos. A transparência é a kryptonita do nosso super herói.

A forma como Sergio Moro agiu nos dias seguintes à prisão dos hackers não foi diferente de como agia enquanto juiz. Dessa vez, as ilegalidades não foram tramadas no escurinho do Telegram, mas cometidas à luz do dia. É natural que, quando o estado policial vai se assentando, a preocupação das autoridades em cumprir as leis vá diminuindo. Na Operação Spoofing, Moro tem atuado como ministro da Justiça, chefe da operação, acusador, investigador e, vejam só, vítima. O homem bateu o escanteio, correu para a área para cabecear, fez gol de mão e confirmou a legalidade no VAR. Sergio Moro é mesmo um herói quântico.

Curiosamente, ele resolveu tirar férias justamente nos dias que antecederam a prisão dos hackers. Foi descansar nos EUA e, quando voltou, não escondeu que sabia mais sobre a Operação Spoofing do que a lei permite:

O ministro afirmou com todas as letras que os hackers presos foram a fonte do arquivo obtido pelo Intercept. Acontece que nem a Polícia Federal nem o juiz do caso haviam feito essa relação até então. Ou Moro estava blefando ou recebeu informações de uma ação que corre sob sigilo. As duas possibilidades são graves. Não foi a primeira vez que o ministro violaria um segredo de justiça. De acordo com o próprio presidente da República, Moro lhe enviou uma cópia do inquérito sobre os laranjas do PSL, que corre sob sigilo. Nada aconteceu.

No dia seguinte, a imprensa noticiou que um dos hackers confessou ter passado as informações para Glenn Greenwald. Aos poucos foi se construindo uma narrativa perfeita para quem deseja descredibilizar a Vaza Jato: um bando de estelionatários do interior de São Paulo hackearam autoridades, movimentaram uma grana preta sem justificativa e repassaram o fruto do crime para o Intercept. Pronto! Um prato cheio para quem, como o ministro Sergio Moro, tenta nos colocar o rótulo de “site aliado a hackers criminosos”.

Invasões virtuais são crimes e, claro, devem ser investigadas. O fato é que hackeamentos acontecem aos montes no mundo, são quase corriqueiros. Já a descoberta do conluio de um juiz com procuradores para influenciar o jogo político é rara e muito mais nociva para uma democracia. Sergio Moro inverteu essa lógica óbvia e desviou o foco para o espantalho dos hackers. O noticiário se virou para o grupo de barnabés estelionatários do interior de São Paulo e ofuscou o caso de escândalo de corrupção judicial do qual Moro é protagonista.

Quando foi dar explicações na Câmara sobre os diálogos vazados, Moro desafiou jornalistas a entregarem para as autoridades o arquivo para ser periciado. “Aqueles que têm as mensagens, hackers criminosos ou veículos da imprensa, que as apresentem. Apresentem a mensagem para uma autoridade independente. Apresentem lá, por exemplo, se não confiam na Polícia Federal, no Supremo Tribunal Federal. Aí tudo vai poder ser examinado e vai poder ser verificada a autenticidade. Agora, eu não posso demonstrar ou reconhecer a autenticidade de um material que eu não tenho.”

Agora, de posse do arquivo, o ministro não teceu um comentário sequer sobre a autenticidade dos diálogos publicados pela Vaza Jato. Nenhuma palavra sobre perícia. Nada. Pior ainda: ele ligou para autoridades que foram vítimas da invasão para alertá-las e tranquilizá-las. E disse que os arquivos serão destruídos.

Mais uma vez, o ministro atropelou a lei. Ele não poderia ter acesso à lista de hackeados, já que ação está sob sigilo. Não é tarefa de ministro decidir o destino de provas apreendidas no âmbito de um processo penal que está sob as ordens de um juiz. Mas o que é o cumprimento da lei para Sergio Moro senão uma mera alegoria do seu heroísmo fake?

Como é natural em um estado policial, o perfil institucional do STJ no Twitter tratou a ilegalidade com a maior naturalidade do mundo, como se fosse normal um ministro da Justiça, sem ordem judicial, ordenar a destruição das provas de um crime do qual ele é uma das vítimas:

Em um estado de direito, a ação de Moro deveria ser classificada como obstrução de justiça, prevaricação ou queima de arquivo. No Brasil 2019, o direito freestyle de Sergio Moro é endossado até por um tribunal superior.

A coisa ganhou contornos de ridículo depois que a própria Polícia Federal contestou o ministro da Justiça. A instituição emitiu nota dizendo que as provas não serão destruídas, ao contrário do que tem dito seu chefe. “Caberá à justiça, em momento oportuno, definir o destino do material”, tentou consertar a instituição. Chegamos a esse ponto bizarro em que temos que decidir entre escolher acreditar na Polícia Federal ou no chefe da Polícia Federal. A farra que Sergio Moro faz com as leis brasileiras parece mesmo não ter hora pra acabar.

Conhecendo todas essas violações, quem poderá garantir que uma cópia desses arquivos apreendidos não ficará nas mãos de Sergio Moro ou alguém envolvido na operação? Essa é a dúvida de um ex-integrante de um tribunal superior ouvido pelo jornalista Kennedy Alencar, “isso é complicado. Se alguém diz que destruirá oficialmente um arquivo sobre boa parte da República, mas mantém uma cópia em segredo, o Brasil poderá estar diante de um novo John Edgar Hoover”. Hoover foi um dos fundadores do FBI e comandou a instituição por 48 anos. Usou o poder para espionar, perseguir e chantagear adversários políticos, sempre atropelando a Constituição americana.

Esse empenho em descobrir como ocorreram os vazamentos é inédito na carreira de Sergio Moro. Durante a Lava Jato, o que não faltou foi vazamento ilegal, mas ele preferia evitar a fadiga. Simplesmente nenhum vazamento da operação foi investigado, e isso nunca pareceu ser uma preocupação. Em 2017, quando esteve em Harvard, ele explicou o desinteresse:

“Realmente ocorreram vazamentos e muitas vezes se tenta investigar isso, mas é quase como se fosse uma caça a fantasmas, porque normalmente o modo de se investigar isso de maneira eficaz seria, por exemplo, quebrando sigilos do jornalista que publicou a informação. E isso nós não faríamos, porque seria contrário à proteção de fontes, à liberdade de imprensa. E eu não estou reclamando destas proteções jurídicas, acho importante.”

Está claro que essa repentina obsessão por investigar vazamento é uma questão pessoal. E é curioso lembrar como ele achava importante proteger fontes e a liberdade de imprensa. Agora, como vítima de vazamento, ele trabalha em sentido contrário.

Na sexta-feira, um dos presos confessou ter pedido o contato de Glenn Greenwald para Manuela D’ávila (PCdoB). A ex-deputada admitiu ter feito a intermediação, o que é absolutamente legal. Até esse momento, muita gente suspeitava que essa história poderia ter sido plantada pela Polícia Federal. Tudo indica que não foi, mas, convenhamos, depois do que já se viu até aqui, é natural que se trate com ceticismo qualquer investigação que tenha Sergio Moro no comando.

Se tudo o que foi apurado — e vazado ilegalmente para a imprensa — pela Polícia Federal até aqui é verdade, então ninguém mais poderá ter dúvidas quanto à legalidade da publicação dos vazamentos. Os procedimentos jornalísticos do Intercept e veículos parceiros seguem em consonância com a lei. As reportagens continuarão sendo publicadas, amparadas pela Constituição. Esperamos que ministro da Justiça siga o exemplo e também trabalhe dentro da lei.

Os últimos sinais do governo Bolsonaro indicam que o país está caminhando em direção ao totalitarismo: reuniões de sindicatos vigiadas por policiais armados, palestra de cientista filmada por soldado do Exército, presidente da República ameaçando prender jornalista, e um ministro da Justiça que não tem medo de transgredir a lei para defender seus interesses e descredibilizar a imprensa. Em uma democracia, Sergio Moro já teria sido demitido por desvio de função e pelas sucessivas ilegalidades cometidas. Em um estado policial, ele faz o que quer.

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Pedaço de garrafa de plástico encontrado em Mothecombe Beach, na foz do Estuário do Erme, em South Devon, na Inglaterra, em 30 de maio.

SÓ LIXO

Como a indústria de plásticos luta para continuar poluindo o mundo

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Pedaço de garrafa de plástico encontrado em Mothecombe Beach, na foz do Estuário do Erme, em South Devon, na Inglaterra, em 30 de maio. Foto: Dan Kitwood/Getty Images

OS ALUNOS DA Westmeade Elementary School trabalharam duro em seu dragão. E valeu a pena. O saco de plástico que as crianças pintaram de verde e enfeitaram com dentes brancos triangulares e uma placa dizendo “me alimente” garantiu aos estudantes do subúrbio de Nashville, nos EUA, o primeiro lugar em um concurso de decoração de caixas de reciclagem. A ideia, como o orgulhoso diretor de Westmeade disse a um programa de TV local, era ajudar o meio ambiente. Mas a verdadeira história por trás do dragão – como acontece com grande parte da escalada da guerra pelo lixo plástico – é mais complicada.

O concurso foi patrocinado pela A Bag’s Life, um esforço de promoção e educação de reciclagem da American Progressive Bag Alliance, a APBA, um grupo de lobby que luta contra as restrições ao plástico. Essa organização faz parte da Plastics Industry Association, um grupo comercial que inclui a Shell Polymers, a LyondellBasell, a Exxon Mobil, a Chevron Phillips, a DowDuPont e a Novolex – todas as quais lucram com a produção contínua de plásticos. E mesmo quando a A Bag’s Life encorajava as crianças a espalhar a mensagem edificante de limpar o lixo plástico, a American Progressive Bag Alliance estava apoiando um projeto de lei que tiraria dos moradores do Tennessee a capacidade de lidar com a crise dos plásticos. A lei tornaria ilegal que os governos locais proibissem ou restringissem as sacolas e outros produtos plásticos de uso único – uma das poucas coisas que realmente reduzem o desperdício de plástico.

Uma semana depois do dragão de Westmeade vencer o concurso, a APBA recebeu sua própria recompensa: o projeto de lei passou pela legislatura estadual do Tennessee. Semanas depois, o governador assinou a lei, sabotando um esforço em andamento em Memphis para cobrar uma taxa pelas sacolas plásticas. Enquanto isso, A Bag’s Life dava às crianças da Westmeade que trabalhavam na caixa um cartão-presente de US$ 100 para usar “como bem entendessem”. E, com isso, uma minúscula fração de sua vasta riqueza, a indústria de plásticos aplicou um verniz verde à sua cada vez mais amarga e desesperada luta para continuar lucrando com um produto que está poluindo o mundo.

A Bag’s Life é apenas uma pequena parte de um esforço massivo liderado pela indústria que busca sufocar as tentativas de redução do desperdício de plástico, mantendo viva a ideia de reciclagem. A realidade da reciclagem de plásticos? Ela está praticamente morta. Em 2015, os Estados Unidos reciclaram cerca de 9% de seus resíduos plásticos e, desde então, o número caiu ainda mais. A grande maioria dos 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico já produzidas – 79% – acabou em aterros sanitários ou espalhados pelo mundo. E quanto àquelas sacolas plásticas que as crianças esperavam conter: menos de 1% das dezenas de bilhões de sacolas plásticas usadas nos EUA a cada ano são de fato recicladas.

Isso não quer dizer que não devamos tentar descartar adequadamente o conjunto de brinquedos, embalagens descartáveis, garrafas, sacos, recipientes para viagem, copos de café, canudos, sachês, potes de iogurte, sacolas, embalagens de barras de chocolate, utensílios, sacos de batatas fritas, tubos de produtos de higiene, eletrônicos e tampas para tudo o que passa diariamente em nossas vidas. Temos que fazer isso. Mas estamos bem além do ponto em que os esforços sinceros de crianças em idade escolar ou de qualquer outra pessoa do lado do consumidor possam resolver o problema dos plásticos. Não importa mais o quanto nos preocupemos. Já existe plástico demais que não se decompõe e, finalmente, não tem para onde ir, seja ele triturado em um recipiente de dragão ou não.

Um trabalhador chinês passa por pilhas de garrafas plásticas em uma estação de reciclagem na cidade de Ji'nan, na província de Shandong, no leste da China, em 4 de maio de 2017.

Um trabalhador chinês passa por pilhas de garrafas plásticas em uma estação de reciclagem na cidade de Ji’nan, na província de Shandong, no leste da China, em 4 de maio de 2017.

Foto: Imaginechina via AP Images

A política National Sword da China

A decisão da China, em 2017, de deixar de receber a grande maioria dos resíduos plásticos de outros países fez estourar o já frágil limite do nosso disfuncional sistema de reciclagem. Naquele ano, quando o governo chinês anunciou a política da National Sword, como é chamada, os Estados Unidos enviaram 931 milhões de quilos de rejeitos plásticos para a China e para Hong Kong. Os EUA têm se livrado de grandes quantidades de lixo dessa forma desde, pelo menos, 1994, quando a Agência de Proteção Ambiental, a EPA, começou a catalogar a exportação de plásticos. A prática serviu para mascarar a crescente crise e absolver os consumidores norte-americanos de culpa. Mas, de fato, grande parte do resíduo de plástico “reciclado” que os EUA enviaram para a China pareceter sido queimada ou enterrada em vez de ser transformada em novos produtos.

Embora a reviravolta da China tenha tornado a falha do sistema de reciclagem de plásticos repentina e inegavelmente óbvia, na verdade, o problema dos plásticos tem estado conosco desde que o plástico existe. Ao longo das décadas, à medida que a produção cresceu exponencialmente, nunca conseguimos reutilizar nem um décimo dos nossos resíduos plásticos. Desde que a EPA começou a catalogar a reciclagem de plásticos em 1994, quando os Estados Unidos reciclavam menos de 5% a taxa chegou a apenas 9,5% em 2014. Embora não haja nenhum dado anterior a 1994, a taxa certamente era ainda mais baixa na época. Consumidores descuidados podem ser os culpados por uma parte desta falha, mas muito dos resíduos que de fato são postos em latas e sacos de lixo reciclável também começaram a ser aterrados e queimados porque não havia um mercado para eles.

Grande parte do resíduo de plástico “reciclado” que os EUA enviaram para a China parece ter sido queimado ou enterrado em vez de ser transformado em novos produtos.

O problema do plástico tem crescido exponencialmente por décadas. Em 1967, quando o personagem de Dustin Hoffman estava sendo aconselhado a investir em plásticos em “A Primeira Noite de um Homem”, menos de 25 milhões de toneladas eram produzidas por ano. Mesmo naquela época, as empresas que fabricavam plástico já sabiam do crescente problema da coleção de resíduos. No entanto, em 1980, a produção havia dobrado. Dez anos depois, dobrou novamente para 100 milhões de toneladas, superando a quantidade de aço produzida globalmente. Hoje, a indústria de plásticos, estimada em mais de 4 trilhões de dólares, gera mais de 300 milhões de toneladas de plástico por ano, de acordo com os registros mais recentes – quase a metade é para itens de uso único, o que significa que se tornará lixo quase que instantaneamente.

Com a instituição da nova política da China em janeiro de 2018, a extensão da crise dos resíduos plásticos tornou-se dramaticamente mais visível. Em todo o mundo, fardos de plástico usado que apenas um ano antes teriam sido destinados à China começaram a se acumular. Nos EUA, algumas cidades pararam completamente seus programas de reciclagemde plásticos.

Sem boas alternativas, os Estados Unidos estão agora queimando seis vezes a quantidade de plástico que estão reciclando – ainda que o processo de incineração libere poluentes causadores de câncer no ar e crie cinzas tóxicas, que também precisam ser descartadas em algum lugar. E as pessoas pobres estão presas às piores conseqüências da crise dos plásticos. Oito em cada 10 incineradores nos EUA estão em comunidades que são mais pobres ou têm menos pessoas brancas do que o resto do país, e moradores que vivem perto deles estão expostos à poluição tóxica do ar que sua combustão produz.

Sem boas alternativas, os Estados Unidos estão agora queimando seis vezes a quantidade de plástico que estão reciclando – ainda que o processo de incineração libere poluentes causadores de câncer no ar e crie cinzas tóxicas, que também precisam ser descartadas em algum lugar. E as pessoas pobres estão presas às piores conseqüências da crise dos plásticos. Oito em cada 10 incineradores nos EUA estão em comunidades que são mais pobres ou têm menos pessoas brancas do que o resto do país, e moradores que vivem perto deles estão expostos à poluição tóxica do ar que sua combustão produz.

Globalmente, também, o problema está sendo despejado nos menos afortunados e menos poderosos. Como os Estados Unidos não podem mais enviar seus resíduos plásticos para a China, grande parte desse lixo está indo para a Turquia, Senegal e outros países que não estão bem equipados para lidar com isso. Em maio, o mês mais recente para o qual há dadosdisponíveis, os EUA enviaram 64,9 milhões de quilos de sucata para 58 países. Tailândia, Índia e Indonésia – onde mais de 80% dos resíduos são mal administrados, de acordo com dados publicados na Science – estão entre os países que agora estão cercados de plástico proveniente dos EUA que está sendo despejado e queimado ilegalmente.

Um reservatório contaminado com resíduos plásticos em Lhokseumawe, na Indonésia, em 22 de março.

Um reservatório contaminado com resíduos plásticos em Lhokseumawe, na Indonésia, em 22 de março.

Foto: Zikri Maulana/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Todo o plástico nos mares

As terríveis notícias sobre o plástico parecem ser tão inescapáveis quanto o próprio plástico, cujos pedaços minúsculos agora estão em quase toda parte. Um estudo descobriu esses “microplásticos” no ar da montanha dos Pirineus, a mais de 160 quilômetros de distância da cidade mais próxima. Outro descobriu que os microplásticos estão sendo transformados em lodo de esgoto e espalhados em campos que cultivam alimentos. E, como sabemos pelas baleias cheias de plástico que regularmente voltam à superfície mortas, os oceanos estão repletos de resíduos de plástico e agora contêm cerca de 150 milhões de toneladas do material – uma massa que em breve ultrapassaria o peso de todos os peixes nos mares.

Nós humanos também temos plástico alojado em nossos corpos. A substância frequentemente vendida para nós como proteção contra contaminação está tanto na comida quanto na água. A água engarrafada, cujas vendas estão aumentando em parte porque as pessoas vêm buscando alternativas para o abastecimento de água contaminado, agora também contém plástico. Um estudo de 2018 descobriu que 93% das amostras de água engarrafada continham microplásticos. Enquanto todas as grandes marcas testaram positivo para microplásticos, o pior foi a Nestlé Pure Life, que afirma que sua água “passa por um processo de qualidade de 12 etapas, para que você possa confiar em cada gota”.

Vale ressaltar que, tanto em 2017 quanto em 2018, a Nestlé classificou-se entre as três principais marcas cujo lixo plástico foi mais frequentemente coletado nos esforços globais de limpeza realizados pelo grupo ambiental Break Free From Plastic.

A confluência de notícias terríveis levou a indignação pública em relação ao plástico a um outro nível. Uma vez considerado principalmente como algo desagradável ou incômodo, os resíduos plásticos agora são amplamente compreendidos como sendo uma das causas de extinção de espéciesdestruição ecológica e problemas na saúde humana. E, como mais de 99% do plástico é derivado de petróleo, gás natural e carvão – e sua destruição também usa combustíveis fósseis – grupos ambientalistas agora reconhecem o plástico como um dos principais causadores das mudanças climáticas. O naturalista David Attenborough comparou a mudança na opinião pública sobre os plásticos ao processo pelo qual o público chegou a um consenso sobre os danos da escravidão.

Uma vez considerado principalmente como algo desagradável ou incômodo, os resíduos plásticos agora são amplamente compreendidos como sendo uma das causas de extinção de espécies, devastação ecológica e problemas na saúde humana.

Entre a extração, o refino e o gerenciamento de resíduos, a produção e a incineração de plásticos adicionará mais de 850 milhões de toneladas de gases de efeito estufa à atmosfera somente este ano – um montante igual às emissões de usinas a carvão de 189.500 megawatts, segundo um relatório do Center for International Environmental Law.

Os plásticos reciclados – antes vistos como um sinal de virtude ambiental – são cada vez mais reconhecidos como ameaças à nossa saúde. Os plásticos contêm aditivos que determinam suas propriedades, incluindo estabilidade, cor e flexibilidade. A maioria dos milhares desses produtos químicos não é regulada, mas é claro que alguns desses aditivos, que acabam em plásticos reciclados, são perigosos. Um estudo descobriu que metade dos plásticos reciclados na Índia continha um retardador de chama associado a danos neurológicos, reprodutivos e de desenvolvimento.

O plástico preto, usado em tudo, de brinquedos infantis a utensílios de cozinha, embalagens de alimentos, estojos de celulares e garrafas térmicas, parece ser particularmente perigoso. O plástico é muitas vezes proveniente de eletrônicos reciclados que contêm ftalatos, retardadores de chama e metais pesados, como cádmio, chumbo e mercúrio. Mesmo em níveis muito baixos, estes produtos químicos podem causar problemas reprodutivos e de desenvolvimento.

Mas a maioria dos aditivos não são rastreados ou bem estudados. “A indústria não tem ideia do que está colocando no plástico e de quem está colocando essas coisas”, disse Andrew Turner, um químico britânico que recentemente encontrou produtos químicos tóxicos em 40% dos brinquedos de plástico preto, garrafas térmicas, misturadores de coquetele utensílios testados. Em alguns plásticos, ele encontrou os produtos químicos presentes em 30 vezes os padrões de segurança estabelecidos pelos governos.

Mesmo os produtos químicos que são regulamentados geralmente têm limites definidos para eletrônicos, mas não para produtos reciclados. “Você tem algo que não seria compatível com os regulamentos como um item elétrico, porque seus níveis são muito altos, mas como se transformou em um garfo, não há nada que impeça que ele seja usado”, disse Turner. Antimônio, que Turner encontrou em recipientes de comida, brinquedos e material de escritório, “é restrito em água potável, mas não em lixo elétrico.” Turner e Zhanyun Wang, outro cientista com quem falei que estuda aditivos químicos em plásticos, me disseram que não usam mais utensílios de plástico preto. “Dada a opção, eu prefiro algo branco ou claro”, disse Turner, acrescentando que ele tenta evitar utensílios feitos de qualquer tipo de plástico.

A solução para essa confusão global claramente tem que ser muito maior do que as escolhas pessoais de cutelaria. Entre as organizações que pedem que superemos a ideia de reciclagem e exijamos que as empresas limitem a produção de plásticos estão o Greenpeace, a Surfrider FoundationAs You Sow, a Rainforest Alliance e a 5Gyres, uma organização iniciada por um casal que atravessou o Oceano Pacífico em uma jangada feita de garrafas descartadas. Alimentado por um aumento na frustração dos consumidores com produtos que os tornam cúmplices do problema, restaurantes e supermercados livres de plástico estão surgindo.

Impostos, proibições e taxas sobre produtos de plástico estão se espalhando pelo mundo. Em março, a União Europeia votou pela proibição de plásticos de uso único até 2021. Em junho, o Canadá fez o mesmo, com o primeiro-ministro Justin Trudeau prometendo não apenas proibir os plásticos de uso único, como sacos, canudos e talheres, mas também responsabilizar os fabricantes de plásticos por seus resíduos. Cento e quarenta e um países, incluindo a China, Bangladesh, Índia e 34 países africanos, implementaram impostos ou proibições parciais de plásticos.

Nos Estados Unidos, o governo Trump trabalhou contra os esforços internacionais para reduzir os resíduos de plástico, e as cidades e comunidades locais estão puxando a frente. Enquanto apenas oito estados decretaram restrições ao uso de plásticos, mais de 330 leis locais de sacolas plásticas foram aprovadas em 24 estados. Alguns legisladores federais também reconheceram que a ação federal é necessária para conter a crescente onda de plástico. “A reciclagem de plásticos não é uma solução realista para a crise da poluição plástica. A maioria dos plásticos de consumo é economicamente inviável de reciclar apenas com base nas condições do mercado “, escreveram em uma carta ao presidente Donald Trump em junho, o deputado Alan Lowenthal e o senador Tom Udall, observando que a” disseminação de produtos plásticos de uso único levou à extensa poluição por plásticos nos EUA e causou um crescente ônus financeiro às agências reguladoras estaduais, governos locais e contribuintes, para custear a remediação.”

Garrafas da Pepsi Max viajam ao longo da linha de produção na fábrica e armazém da Britvic PLC em Leeds, Reino Unido, em 23 de janeiro de 2017.

Garrafas da Pepsi Max viajam ao longo da linha de produção na fábrica e armazém da Britvic PLC em Leeds, Reino Unido, em 23 de janeiro de 2017.

Foto: Chris Ratcliffe/Bloomberg via Getty Images

A indústria do plástico contra-ataca

Até mesmo os executivos de uma recente conferência da indústria do plástico admitem como a crise é ruim – pelo menos entre eles. Tudo o que ouvimos é “você precisa se livrar dos plásticos”, disse Garry Kohl, da PepsiCo, a seus colegas da Associação da Indústria de Plásticos, em uma conferência em abril. Reunidos no dourado salão de festas de um hotel em Dallas, os representantes de grandes fabricantes de plásticos, recicladores, fornecedores de matérias-primas, extrusoras, donos de marcas e outros no setor de plásticos levantaram a voz sobre seu papel na crise. Especialmente difícil, disse Kohl, que dirige a inovação em embalagens dos salgadinhos e alimentos da PepsiCo, foi a imagem amplamente divulgada de um albatroz morto, cheio de plástico dentro do seu corpo. “Isso é muito comovente para nossos superiores”, disse Kohl, enquanto a imagem agora icônica do albatroz – na verdade, apenas algumas penas e um bico em decomposição organizado em torno de uma variedade de tampas de garrafas, partes mais leves e pedaços de plástico – aparecia acima dele. “Todos eles estão falando sobre o albatroz.”

Patty Long, presidente interina e diretora executiva da Associação da Indústria de Plásticos, o grupo que convocou a reunião no Texas, também reconheceu a dor de ser a face pública de uma indústria responsabilizada pela devastação da natureza. Long admitiu que ela sofreu com outro fenômeno de mídia social que, junto com o albatroz, mudou o curso da guerra sobre os plásticos: o vídeo da tartaruga marinha com um canudo plástico preso em sua narina. Long não é a única. Desde que foi postado em 2015, excruciantes oito minutos em que os biólogos marinhos puxam o canudo plástico com alicates enquanto a criatura se contorce e sangra, o vídeo foi visualizado 36 milhões de vezes.

Um albatroz com plástico em seu estômago é mostrado morto no Atol Midway, nas Ilhas de Sotavento no Havaí em 2 de novembro de 2014.

Um albatroz com plástico em seu estômago é mostrado morto no Atol Midway, nas Ilhas de Sotavento no Havaí em 2 de novembro de 2014.

Foto: Dan Clark/USFWS via AP

No fim das contas, Long admitiu, foi um ano difícil, no qual foram apresentados cerca de 376 projetos de lei anti-plásticos, e a opinião pública sobre a indústria de plásticos continuou a “piorar exponencialmente”. A Associação da Indústria de Plásticos está levando sua imagem negativa a sério, trabalhando para compensar isso com apresentações de produtos plásticos para alunos do ensino fundamental e médio, um programa de embaixadores plásticos e, para que os jovens possam “se sentir bem” trabalhando na indústria, disse Long, formou ainda um grupo de “futuros líderes em plásticos”.

Mas apesar do desconforto sobre o albatroz morto, a maldita tartaruga e a imagem pública da indústria, as empresas que fazem bilhões de plásticos não têm intenção de desacelerar. Em vez disso, a indústria está se preparando para a luta de sua vida, o que explica porque um especialista em conflitos armados deu a palestra de abertura na conferência de plásticos.

A indústria está se preparando para a luta de sua vida, o que explica porque um especialista em conflitos armados deu a palestra de abertura na conferência de plásticos.

Em 2000, o Comandante Kirk Lippold da Marinha dos EUA guiou sua tripulação durante um ataque terrorista ao USS Cole, no qual 17 marinheiros foram mortos e 39 ficaram feridos. Hoje consultor de gerenciamento de crises, Lippold contou à platéia da Associação da Indústria de Plásticos uma história extenuante de vítimas em massa, experiências de quase morte e uma embarcação cheia de estilhaços fazendo água. Sua história, que terminou com Lippold pilotando seu navio estropiado de volta a mar aberto e com o hino nacional a todo volume, sugeriu que, com determinação feroz o suficiente, os executivos de plásticos também poderiam ser capazes de ultrapassar as ameaças que enfrentam.

O que está em jogo para eles não é apenas o atual mercado de plásticos que vale centenas de bilhões de dólares por ano, mas sua provável expansão. A queda dos preços do petróleo e do gás significa que o custo de fabricar plástico novo, já muito baixo, será menor ainda. A queda de preço levou a mais de 700 projetos da indústria de plásticos agora em progresso, incluindo expansões de usinas antigas e a construção de novas da Chevron, Shell, Dow, Exxon, Formosa Plastics, Nova Chemicals e Bayport Polymers, entre outras empresas, de acordo com uma apresentação do diretor de assuntos regulatórios da BASF Corporation na conferência da indústria de plásticos.

A crescente produção de novos plásticos baratos enfraquece ainda mais o argumento da indústria de que a reciclagem pode resolver a crise dos resíduos. Já é impossível para a maioria dos plásticos reciclados competir com plástico “virgem” no mercado. Com exceção das garrafas feitas de PET (No. 1) e HDPE (No. 2), o resto dos resíduos é essencialmente sem valor. Cerca de 30% dos dois tipos de garrafas de plástico foram vendidos para reciclagem em 2017, embora alguns deles possam ter sido depositados em aterro ou incinerados. O recente boom de combustíveis fósseis torna ainda mais barato fabricar plásticos novos e, portanto, é ainda mais difícil vender o produto reciclado. Isso, por sua vez, torna o esforço das empresas de plásticos pela reciclagem ainda mais implausível – e torna ainda mais desesperadora a sua batalha para eliminar os esforços por limitar a produção de plásticos.

Enquanto apenas oito estados decretaram restrições ao plástico, mais de 330 decretos locais sobre o uso de sacolas plásticas foram aprovadas em 24 estados.

Enquanto apenas oito estados decretaram restrições ao plástico, mais de 330 decretos locais sobre o uso de sacolas plásticas foram aprovadas em 24 estados.

Foto: Getty Images

Proibindo as proibições ao plástico

Matt Seaholm, diretor executivo da American Progressive Bag Alliance, pareceu apreciar sua participação na luta. Enquanto outros participantes da conferência da indústria do plástico tendiam a lamentar excessivamente e reconhecer em algum nível o problema do plástico, Seaholm mostrou-se sem remorsos em seu antagonismo com grupos ambientalistas que têm chamado a atenção para a questão. No Texas, Seaholm, o ex-diretor nacional dos Americans for Prosperity, liderado pelos irmãos Koch, posicionou-se como inimigo dos ambientalistas.

“Eles odeiam o que estamos fazendo”, Seaholm disse a seus colegas da indústria de plásticos na conferência, com um sorriso provocador. “Nós usamos isso como uma prova de valor”. O fato de grupos ambientalistas se oporem às táticas da APBA, acrescentou Seaholm, é evidência de que seu grupo de lobby “deve estar fazendo algo certo”.

A APBA começou a pressionar contra as restrições de plásticos em todo o país em 2011. Por volta de 2015, o grupo da indústria levou suas táticas a outro nível. Em vez de apenas se opor às proibições individuais, a APBA começou a fazer lobby por leis preventivas. A abordagem, que outro grupo afiliado aos irmãos Koch, o American Legislative Exchange Council, o ALEC, usou para combater a ação local em outras questões, incluindo restrições a pesticidas e leis salariais, impediu que cidades e cidades aprovassem proibições locais ao plástico. Nos últimos oito anos, o Conselho Americano de Química ajudou a aprovar, em 13 estados, projetos preventivos baseados no modelo da ALEC. De acordo com Seaholm, que se juntou ao grupo em 2016, 42% dos norte-americanos vivem em estados onde não se consegue aprovar proibições locais aos plásticos.

Outros grupos de lobby da indústria de plásticos, incluindo o American City County Exchange da ALEC e a National Federation of Independent Business, também defenderam a preempção, ou “uniformidade” como eles chamam, sob a alegação de que as proibições prejudicam empresas que usam plástico. Embora apresentem proibições como sendo ruins tanto para as empresas quanto para as pessoas de baixa renda, que eles afirmam ser afetadas de maneira desproporcional, a indústria também usou doações de campanha para defender sua posição. No ano passado, a Flexible Packaging Association, cujos membros incluem a Dow, a Exxon Mobil Chemical, a SABIC, a Chevron Phillips Chemical e a LyondellBasell, mais que dobraram seus gastos em todo o país. O grupo elevou significativamente suas doações para os legisladores do Tennessee, por exemplo, no ano que antecedeu a aprovação do projeto de lei sobre o uso de sacolas plásticas naquele estado.

Embora a APBA esteja lutando arduamente para impulsionar a invalidação do projeto de lei contra os plásticos, os gastos nacionais do grupo não são claros, pois, como uma entidade de propriedade integral da Associação da Indústria de Plásticos, não há exigência federal para tornar seus gastos públicos. Mas as divulgações de lobby do estado mostram que gastou milhões lutando contra as proibições de sacolas plásticas. Essa defesa das proibições de plásticos coloca os membros da Plastics Industry Association, incluindo PepsiCo, Walmart e o Carlyle Group, em uma situação desconfortável. Todas essas marcas fizeram promessas públicas de sustentabilidade que parecem estar em desacordo com as lutas do grupo contra as leis locais que limitam o plástico.

Questionada sobre a aparente dissonância entre seu compromisso de sustentabilidade e a participação na Associação da Indústria de Plásticos, a Walmart forneceu uma declaração por e-mail dizendo que “a aspiração da Walmart é conseguir zero desperdício de plástico. Estamos tomando ações em nossos negócios para usar menos plástico, reciclar mais e apoiar inovações para melhorar os sistemas de redução de resíduos plásticos.” O comunicado também dizia que a Walmart “pediu aos nossos fornecedores para reduzir a utilização de embalagens plásticas desnecessárias, aumentar a reciclabilidade das embalagens, aumentar o conteúdo reciclado e nos ajudar a educar os clientes sobre redução, reutilização e reciclagem de plástico.”

A PepsiCo e o Carlyle Group não responderam aos pedidos de comentários.

Seaholm parecia não se importar com a terrível imagem da luta do setor contra os esforços para proteger o meio ambiente com proibições plásticas, que ele ridicularizou como “impulsionadas principalmente pela emoção”. “Eles estão fazendo isso porque parece bom”, disse Seaholm aos executivos do plástico em Dallas. “Eles podem se cumprimentar uns aos outros.”

À esquerda, Kathy Kent com sua filha, Suzette Head, coletando lixo na praia. À direita está o discurso manuscrito de Suzette, que ela entregou em frente ao conselho municipal de Isle of Palms, na Carolina do Sul, em 26 de maio de 2015.

À esquerda, Kathy Kent com sua filha, Suzette Head, coletando lixo na praia. À direita está o discurso manuscrito de Suzette, que ela entregou em frente ao conselho municipal de Isle of Palms, na Carolina do Sul, em 26 de maio de 2015.

Foto: Cortesia de Kathy Kent

A indústria de plásticos contra Duas meninas

Em Isle of Palms, na Carolina do Sul, as pessoas que lideraram a primeira proibição de sacolas plásticas do estado em 2015 não discordariam de que seu esforço foi motivado pela emoção. Suzette Head e Mila Kosmos, que moram na pequena cidade litorânea perto de Charleston, gritaram de alegria quando sua regulamentação local passou. “Eu fiquei feliz que as sacolas iriam desaparecer”, recordou Mila, agora com nove anos.

O esforço começou com outra emoção, quando as duas meninas estavam no jardim de infância: tristeza. Suzette estava em seu aquário local quando um naturalista segurou um frasco com um espiral cinzento dentro e perguntou o que as crianças achavam que era. Suzette pensou que era uma água-viva e disse isso. Quando soube que era, na verdade, uma sacola plástica e que uma tartaruga poderia morrer se cometesse o mesmo erro e comece a sacola, a menina ficou perturbada.

“Suzette ama animais”, explicou sua mãe, Kathy Kent. Em sua caminhada para casa do aquário após a demonstração, as duas começaram a falar sobre como impedir que as pessoas joguem fora as sacolas plásticas. “No começo eu disse a ela: Bem, você simplesmente não pode mudar as pessoas”, disse Kent. “Mas então eu me escutei e pensei, ‘meu Deus, o que estou dizendo’ e rapidamente voltei atrás.” Sem ter ideia do que exatamente estava prometendo, Kent disse à filha que elas fariam algo para evitar que as sacolas plásticas acabassem no oceano. Logo depois, elas se juntaram a Mila e sua mãe e vários outros moradores de Isle of Palms que também estavam chateados com o uso de plástico. Elas andavam pela praia à tarde pegando sacolas e trocando ideias. Com o tempo,decidiram redigir uma petição para banir as sacolas e caminharam de porta em porta para obter o apoio de vários donos de lojas locais.

“Foi fácil pedir às empresas para nos apoiar”, disse Kent. “Todo mundo sabe que ter uma praia limpa e livre de lixo é bom para todos e para todos os negócios.” Pouco mais de um ano depois da desagradável visita de Suzette ao aquário, a lei foi aprovada pelo conselho municipal em sua primeira votação. No entanto, quase quatro anos depois, a Carolina do Sul está considerando uma legislação apoiada pela APBA que não apenas proibiria futuras proibições de sacolas, mas também desfará a lei em Isle of Palms e outras 17 leis locais que restringiram o plástico na Carolina do Sul.

O índio que chora

Se a imagem de corporações multinacionais gigantescas destruindo os esforços de meninas para proteger criaturas marinhas é menos que lisonjeira, a indústria de plásticos pode se consolar com o fato de ter derrotado com sucesso as tentativas dos ambientalistas de responsabilizar as empresas pela poluição plástica utilizando táticas similares. O truque tem sido abraçar publicamente a preocupação de seus oponentes pelo meio ambiente, enquanto combate em privado as tentativas de regulamentação.

A estratégia de dois gumes data de pelo menos 1969, quando um editorial da revista Modern Plastics alertou sobre a iminente crise dos resíduos. Os grandes fabricantes de plásticos já estavam cientes do problema. Naquele ano, a DuPont, a Chevron, a Dow e a Sociedade pela Indústria de Plásticos estavam entre os grupos representados em uma conferência sobre resíduos de embalagens. E, quando o primeiro Dia da Terra foi lançado em 1970, em parte para enfrentar essa crise, a indústria estava pronta.

Naquela semana, os manifestantes realizaram uma “jornada ecológica” na qual despejaram suas garrafas não retornáveis na sede da Coca-Cola. Os ativistas tinham uma solução para a crescente crise dos resíduos: projetos de lei sobre garrafas que colocariam nos fabricantes o ônus de limpar o lixo. A Coca-Cola, que havia sido avisada sobre os protestos pela Associação Nacional de Refrigerantes, recebeu os manifestantes com refrigerante de graça e latas de lixo. As grandes empresas de bebidas e embalagens lutaram contra o projeto sobre as garrafas e criaram um truque inteligente que até hoje demonstra resultados. Eles não só apelidaram os defensores dos projetos sobre as garrafas de radicais, mas também lançaram uma massiva campanha de relações públicas que parecia incorporar parte da raiva sobre o lixo crescente que alimentou os protestos do Dia da Terra enquanto transferia a responsabilidade das empresas para os consumidores.

Em 1971, a Keep America Beautiful, uma organização anti-lixo formada por empresas de bebidas e embalagens, incluindo a PepsiCo, Coca-Cola e Phillip Morris, associou-se ao Ad Council para criar o agora infame anúncio “Crying Indian” (“O índio que chora”, em tradução livre). Embora o “índio” que chora quando vê um saco de lixo jogado no chão fosse na verdade um ator ítalo-americano com uma pluma presa no cabelo, a decepção do anúncio foi que sua expressão de preocupação com a poluição foi trazida ao ar por muitas das mesmas empresas que produziram a poluição. Mesmo que o anúncio estivesse induzindo a culpa nos espectadores por espalhar lixo, os membros da Keep America Beautiful estavam lutando contra a legislação que poderia ter feito muito para resolver o problema.

“O que torna isso ainda mais traiçoeiro é que esses comerciais de TV e outros anúncios foram apresentados como anúncios de serviço público – e, portanto, pareciam ser politicamente neutros – mas, na verdade, serviram à agenda do setor”, disse o historiador Finis Dunaway, que conta a história dos esforços de relações públicas da Keep America Beautiful em “Seeing Green: The Use and Abuse of Environmental Images” (“Vendo verde: O uso e abuso de imagens ambientais”, sem edição em português). “Foi uma propaganda que não apareceu propagandística. Ela também protegeu os poluidores corporativos de qualquer culpa, transferindo a responsabilidade para os indivíduos.”

”Esses comerciais de TV e outros anúncios foram apresentados como anúncios de serviço público – e, portanto, pareciam ser politicamente neutros – mas, na verdade, serviram à agenda do setor.”

Os futuros Dias da Terra continuariam a enfatizar a responsabilidade pessoal dos consumidores em reciclar, incluindo a comemoração nacional do 10º Dia da Terra, em 1980, que foi organizado por Michael McCabe, um ex-assistente legislativo que viria a ser diretor de comunicações e projetos especiais de Joe Biden antes de liderar a defesa da DuPont sobre um perigoso produto químico utilizado em diversos plásticos, o PFOA. Em 1990, a celebração do 20º aniversário foi marcada por um especial de TV repleto de celebridades que enfatizava a importância das ações dos indivíduos, incluindo o plantio de árvores e a reciclagem, na proteção do meio ambiente.

Até hoje, o Keep America Beautiful – que ainda é liderado por executivos de empresas de bebidas e plásticos, incluindo Dr Pepper, Dow e o Conselho Americano de Química – continua focando sua propaganda naqueles que jogam lixo no chão, estimulando cidadãos errantes a descartarem melhor seus resíduos plásticos enquanto muitos de seus membros evitam a regulamentação de sua produção desses resíduos. Vários parceiros corporativos do grupo – incluindo as empresas fundadoras Coca-Cola e PepsiCo e seu grupo de comércio, a American Beverage Association – se opuseram aos projetos de lei sobre o uso de garrafas plásticas que ajudariam a resolver o problema dos resíduos plásticos.

Noah Ullman, diretor de marketing da Keep America Beautiful, contesta a ideia de que a organização foi fundada “como um artifício. A intenção não estava lá,” disse em entrevista por telefone. Em vez disso, Ullman escreveu em um email para o Intercept, “o primeiro objetivo da Keep America Beautiful era, e continua sendo, encorajar as pessoas a ‘colocar o lixo no lixo’. Prevenir que lixo seja jogado na rua é a base para todo o resto – ajuda a manter as comunidades bonitas (o que tem uma longa lista de benefícios sociais e econômicos) e ajuda a proteger os animais e nosso meio ambiente de resíduos sólidos que acabam em lugares não planejados.” Ullman disse que a organização não tem uma posição sobre os projetos de lei que lidam com o uso de garrafas plásticas, mas observou que, enquanto os projetos melhoram as taxas de coleta de materiais reembolsados, a “consequência não intencional é que desvaloriza o restante do fluxo de resíduos para reciclagem (por exemplo, vidro, caixas de papelão, etc.) e esses itens se tornam menos propensos a serem reciclados.”

A Associação Americana de Bebidas, que se opôs aos projetos de lei sobre o uso de garrafas plásticas no passado, forneceu ao Intercept uma declaração dizendo: “Não nos opomos a quaisquer ideias que possam nos levar a melhores taxas de reciclagem no futuro, se essas não prejudicarem os abrangentes sistemas de reciclagem que os consumidores preferem.”
Em e-mail, um representante da Coca-Cola escreveu que a Associação Americana de Bebidas representa a opinião da empresa sobre os projetos sobre o uso de garrafas. O e-mail também dizia que “na Coca-Cola, nosso foco é ajudar a coletar e reutilizar o equivalente a 100% das garrafas e latas que colocamos no mercado. Isso inclui garantir que todas as nossas embalagens sejam 100% recicláveis e que utilizemos pelo menos 50% de conteúdo reciclado em nossas embalagens até 2030.”

Com foco na reciclagem e no status de organização sem fins lucrativos, a Keep America Beautiful e outras organizações anti-lixo financiadas pela indústria de plásticos e bebidas, incluindo a Recycling Partnership, oferecem às empresas a oportunidade de demonstrar preocupação com poluição plástica e redução de impostos. A Fundação Coca-Cola doou 640 mil dólares para a Recycling Partnership para melhorar a reciclagem em 2017, por exemplo. A organização “trabalha com milhares de comunidades em todo o país para fornecer acesso à reciclagem e educação para ajudar os moradores a entender como reciclar materiais cada vez melhores, incluindo papel, alumínio e latas de aço, papelão, papelão, vidro e, sim, plásticos “, de acordo com uma declaração da organização enviada por email.

Enquanto trabalha para melhorar a reciclagem e criar mercados finais para o plástico reciclado, a Recycling Partnership também apresenta uma visão particularmente otimista sobre a reciclagem. Em maio, o grupo enviou um e-mail que anunciava que “87% das pessoas acham que a reciclagem é importante”, sem mencionar a realidade dos números de apenas um dígito de reciclagem. Os outros parceiros de financiamento do grupo incluem a ExxonMobil, a Keurig, a Dr. Pepper, a Dow, a Associação Internacional de Água Engarrafada, a Associação Americana de Bebidas e o Conselho Americano de Química.

“Eles estão tentando criar a percepção de que existe uma maneira viável de reciclar a maior parte dos resíduos plásticos em novos produtos, e isso simplesmente não é verdade.”

Em seu comunicado, a Recycling Partnership observou que apenas metade dos americanos que têm acesso a reciclagem conveniente fazem tudo o que podem. A declaração também dizia que o grupo está trabalhando para criar e apoiar os mercados finais de plástico reciclado.

Mas de acordo com Jan Dell, engenheiro que trabalhou como consultor de sustentabilidade corporativa antes de criar o The Last Beach Cleanup, uma organização que enfrenta poluição por plásticos, a Recycling Partnership e outras organizações sem fins lucrativos apoiadas pela indústria de plásticos estão usando informações enganosas para amenizar as preocupações que, de outra forma, levariam os consumidores a não mais comprarem plástico. “Eles estão tentando criar a percepção de que existe uma maneira viável de reciclar a maior parte dos resíduos plásticos em novos produtos, e isso simplesmente não é verdade.”

Uma sacola plástica em rua de Manhattan em 5 de maio de 2016.

Uma sacola plástica em rua de Manhattan em 5 de maio de 2016.

Foto: Spencer Platt/Getty Images

O golpe ‘reciclável’

Grande parte do lixo plástico acumulado nos oceanos, enterrado em aterros sanitários e espalhado pela natureza, é “reciclável”, o que equivale a dizer que ele poderia, em teoria, ser transformado em novos produtos. As empresas aderiram ao termo esperançoso para tornar seus mais recentes produtos de plástico mais aceitáveis. A Starbucks, por exemplo, elogiou a si mesma por sua “tampa reciclável”, lançada em seis cidades neste verão, que a empresa previu que eliminaria o uso de um bilhão de canudos. Mas como as tampas são feitas de polipropileno (também conhecido como plástico nº 5) e há muito pouco mercado para o polipropileno reciclado, esse número não tem base na realidade. Apenas 5% do polipropileno foi reciclado em 2015 – e isso foi antes de a China decidir parar de receber o lixo. Desde então, a porcentagem reciclada é provavelmente muito menor ainda, o que significa que a grande maioria das 1 bilhão de novas tampas Starbucks “recicláveis” terminará no mesmo lugar que as antigas – em aterros sanitários, montes de lixo, incineradores e oceanos.

Em janeiro, a Taco Bell também se gabou de suas próprias tampas de plástico, como se criar mais plástico pudesse de alguma forma resolver a crise dos plásticos. “Ama a Terra? Sim, nós também”, anunciou o site da empresa, “e é por isso que recentemente começamos a usar copos e tampas recicláveis em todos os nossos restaurantes”.

Outra empresa, a Tempo Plastics, anuncia explicitamente suas bolsas de plástico como “livres de culpa”. Embora sejam feitas de polietileno de alta densidade ou de plástico nº 2 – apenas 5,5% delas são recicladas nos Estados Unidos – o novo “Harmony Pack” contará com setas verdes reconfortantes e a aprovação do How2Recycle.

Um projeto da Sustainable Packaging Coalition e da organização sem fins lucrativos chamada GreenBlue – cuja diretoria inclui executivos da Dow Chemical, Mars, Target, Amazon e Delfort Group – How2Recycle faz com que alguns produtos plásticos pareçam muito mais fáceis de reciclar do que são. O Guia Verde da Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês) deixa claro que “deturpar, direta ou implicitamente, que um produto ou pacote é reciclável” é enganoso. Para fazer afirmações não qualificadas de que um produto é reciclável, as instalações de reciclagem devem estar disponíveis para pelo menos 60% dos consumidores a quem este é vendido. Mas o símbolo How2Recycle está agora afixado em vários produtos que serão quase impossíveis para muitos consumidores reciclarem, incluindo copos, pratos e recipientes feitos de plásticos nºs 3 a 7, todos agora com taxas de reciclagem próximas de zero.

Quando perguntada sobre a bolsa “livre de culpa”, Kelly Cramer, diretora do How2Recycle da GreenBlue, escreveu em e-mail que o produto não estava “qualificado apropriadamente” para o selo e disse que a organização “procuraria essa empresa imediatamente para corrigir”. Em relação às fotos de copos e placas de plástico que não são aceitas pelos recicladores na maior parte do país, mas cuja embalagem tinha o rótulo How2Recycle, Cramer disse que o rótulo se referia aos sacos que continham os copos e as placas, que é reciclável se trouxe de volta a um programa de reciclagem na loja, mas reconheceu que as placas e copos dentro deles não eram recicláveis.

Embora a How2Recycle forneça rótulos “não recicláveis” e “recicláveis”, é a escolha das empresas-membro aplicá-las, disse ela. “Aquele membro optou por não rotular o produto”, disse Cramer. “Esta é uma área onde nós damos ao membro a escolha de rotular o produto ou não. Se fôssemos muito rigorosos em nossos requisitos, não teríamos tantos membros no programa.”

Cramer argumentou que outro produto, copos de polipropileno ou plástico nº5, podem ou não se qualificar como recicláveis – uma questão que agora está sendo julgada em um tribunal federal na Califórnia. Cramer disse que a GreenBlue está realizando pesquisas sobre as taxas de reciclagem de polipropileno e defendeu o programa How2Recycle como uma maneira de minimizar o desperdício que é um fato da vida moderna.

“Não queremos que as pessoas pensem que a reciclagem alivia toda a sua culpa pelo consumo. Mas a verdade é que todos nós consumimos e a embalagem protege os produtos que precisam ser movidos para serem vendidos “, disse ela. “No futuro, seria bonito se tivéssemos reutilização robusta ou novos sistemas de entrega para repensar todo o sistema de embalagem do produto. Mas ainda não estamos lá.”

Embora a reciclagem faça pouco para aliviar a crise dos plásticos de suporte, a promoção da mesma provou ser extremamente útil para a indústria quando propostas proibições locais foram proibidas. O American Chemistry Council recentemente lançou campanhas locais para o WRAP, ou o Wrap Recycling Action Program, em vários lugares onde proibições de plástico foram propostas.

A parceria público-privada dirigida pelo ACC, que incentiva a reciclagem de sacos de plástico através de 18 mil locais de coleção de película plástica em todo o país e promove a ideia de que os sacos plásticos podem ser reciclados, lançou uma nova iniciativa em Connecticut em 2017 que coincidiu com a consideração por parte do estado de um imposto sobre sacolas plásticas. Quando Chicago considerou uma taxa sobre sacolas plásticas em 2016, a ACC também divulgou o WRAP lá, anunciando que os moradores locais podem reciclar sacolas plásticas “em quase 400 supermercados e lojas locais”. Este ano, na Flórida, a ACC criou outra iniciativa local da WRAP assim que um projeto de lei estadual para banir canudos de plástico foi apresentado.

O grupo ensina ao público como reciclar películas de plástico – qualquer plástico com menos de 10 mm de espessura – um processo que se torna complicado o suficiente para exigir sua própria organização educacional. A maioria dos programas municipais de reciclagem não aceita sacolas de compras e outros plásticos flexíveis, que podem enroscar nas máquinas. Então o WRAP orienta os consumidores a trazê-las para centros locais de devolução, que coletam as películas de plástico e mandam aos recicladores. O plástico primeiro tem que ser lavado e seco, de acordo com o WRAP, e mesmo assim apenas alguns deles podem ser reciclados. O programa pode reciclar o envoltório claro que se utiliza para conservar alimentos em casa, bem como sacos que contenham a maioria dos produtos, mantimentos e pães, mas não embalagens de doces e sacos plásticos que contenham chips ou comida congelada.

Mas, mesmo que o WRAP promova a mensagem de que as películas de plástico possam e devam ser recicladas e repreenda as pessoas que não colocam sacolas plásticas em latas de lixo, muitos dos sacos usados e outros resíduos plásticos são queimados ou enviados para aterros sanitários. De acordo com o mais recente relatório sobre reciclagem de plásticos filme publicado em julho pelo ACC, a quantidade coletada nos EUA e vendida para reciclagem caiu de cerca de 590 mil toneladas para pouco mais de 450 mil toneladas entre 2016 e 2017 – e isso antes da restrição da China às importações de plástico ter sido totalmente implementada. O relatório da ACC admitiu que algumas das sacolas acabaram onde acabaram se antes não fizessem uma breve parada em uma lata de lixo reciclável. “Devido à falta de compradores – pela qualidade e quantidade de material disponível – no final de 2017, o material de aterro começou a ser mais econômico (apesar do desvio ou outros objetivos ambientais) do que cobrir os custos de manuseio e transporte de material para o mercado.”

Não está claro o que aconteceu com as 136 mil toneladas de películas de plástico que foram vendidas para reciclagem em 2016, mas não em 2017. Como o ACC não relata a quantidade total de películas de plástico coletadas, a proporção coletada destas também é algo obscuro. Tampouco está claro por que o ACC ainda não informou os números de 2018. Mas, mesmo dentro das 450 mil toneladas de películas de plástico que o ACC categorizou como “recicladas”, grande parte provavelmente é queimada ou aterrada. De acordo com o relatório, 171 mil toneladas de películas de plástico foram exportadas, e o ACC afirmou, em declaração por email ao Intercept, que não sabe o que aconteceu com o lixo depois desse ponto.

Embora o ACC não coloque um número exato na quantidade total de sacos que foram queimados ou aterrados, uma recente chamada à ação de um grupo de recicladores de plásticos chamado Recycle More Bags o faz. O documento, que saiu em maio e cobrou por uma legislação que exigiria que os sacos plásticos contenham material reciclado, observou que mais de “600 milhões de libras (cerca de 272 mil toneladas) de sacolas plásticas coletadas para reciclagem na América do Norte em 2018 foram aterradas ou incineradas devido à falta de mercado”. Uma versão posterior do documento mudou o valor para “centenas de milhões de libras”.

“Com base nos dois relatórios da indústria, parece que podemos ter incinerado e descartado a mesma quantidade de películas de plástico e sacolas que foram reprocessados”, disse Dell.

Trabalhadores classificam o material de reciclagem na Instalação de Recuperação de Materiais de Gerenciamento de Resíduos em Elkridge, Maryland, em 28 de junho de 2018.

Trabalhadores classificam o material de reciclagem na Instalação de Recuperação de Materiais de Gerenciamento de Resíduos em Elkridge, Maryland, em 28 de junho de 2018.

Foto: Saul Loeb/AFP/Getty Images

Reciclar ou queimar?

Uma das últimas soluções que a indústria oferece à crise do plástico não é exatamente a reciclagem. Embora ainda haja muitas questões sobre o que, de fato, é o programa Hefty EnergyBag, ele está deixando claro quão caro e difícil é encontrar um uso para os resíduos plásticos.

Em abril, 49 anos depois de um grupo de manifestantes inaugurarem o Dia da Terra jogando materiais descartáveis na sede da Coca-Cola, a Dow Chemical foi um “patrocinador floresta verde” no Dia da Terra da cidade de Omaha, mesmo sendo a maior produtora de plásticos no mundo. Com uma doação de 5 mil dólares, o programa Hefty EnergyBag da Dow, uma parceria da Dow com a Reynolds Consumer Products, foi um dos dois maiores doadores do evento. Realizado no exuberante Parque Elmwood de Omaha, as festividades do dia foram tão verdes e saudáveis quanto qualquer patrocinador poderia querer. Músicas folclóricas de nativos americanos eram tocadas enquanto a população local passeava pelo gramado, de mesa em mesa, aprendendo sobre apicultura urbana, reutilização da água da chuva, micro galinhas, e plantio de árvores. Crianças acariciavam um coelhinho cinza. E dezenas de moradores do Nebraska, preocupados com o ambiente, participavam em uma aula de yoga ao ar livre, dobrando o corpo e se alongando ao sol, junto com seus vizinhos.

A Dow e a Hefty iniciaram o programa no Dia da Terra de 2016 como uma forma para os moradores de Omaha descartarem talheres plásticos, embalagens de salgadinhos e outros plásticos de uso único que a cidade não era capaz de processar. Tudo o que eles precisavam fazer era colocar o lixo em sacolas Hefty especiais, na cor laranja, deixá-las na esquina, e a cidade recolheria e reciclaria o plástico. “Eles estavam, definitivamente, chamando aquilo de reciclagem”, recorda Richard Yoder, um consultor de sustentabilidade local. Mas Yoder e outros moradores de Omaha logo souberam que, em vez de serem derretidos e transformados em plástico reutilizável, os conteúdos de suas sacolas estavam sendo queimados em um incinerador no estado do Missouri, que tinha um histórico de violações à Lei do Ar Limpo.

No ano passado, após Yoder afirmar em um debate que chamar o programa EnergyBag de reciclagem era enganoso, a Hefty parou de usar o termo. Ainda assim, com uma linguagem difícil, o site da empresa ainda vende o programa como algo bom para o ambiente, ou “uma iniciativa revolucionária que coleta plásticos difíceis de reciclar”. O programa Hefty EnergyBag “complementa os programas de reciclagem existentes”, de acordo com Ashley Mendoza, um porta-voz da Dow. “Nossa visão de longo prazo é manter cada vez mais plásticos fora dos aterros sanitários, coletando-os para reciclagem ou recuperação, se eles não puderem ser reutilizados”.

Após a Aliança Global por Alternativas a Incineradores revelar que o programa de Omaha de criava mais poluição, a iniciativa da Dow e da Hefty também parou de mandar as sacolas laranjas ao incinerador. Desde então, os rejeitos plásticos têm sido utilizados para diferentes propósitos, incluindo a compressão em pilares de cercas e dormentes para trilhos de trem e indo “para uma empresa canadense que fazia um tipo de deck”, segundo Dale Gubbels, CEO da FirstStar Recycling, empresa de Omaha parceira da Dow e Hefty no projeto.

Como ninguém sabe remover aditivos do plástico, produtos feitos de rejeitos reciclados podem liberar produtos químicos tóxicos conforme se degradam.

Embora a Dow e a Hefty promovam o programa como uma forma de converter plástico em “fontes valiosas de energia”, isso não é barato, de acordo com Gubbels. O custo parece ter desapontado alguns dos primeiros defensores do programa, que esperavam que ele se pagasse sozinho. “Eu tenho que convencê-los que, se você quer reciclar, é preciso reconhecer que você tem que pagar por isso”, diz. No fim das contas, acrescenta Gubbels, o programa vendido como uma solução energeticamente eficiente para os rejeitos plásticos acabou se provando “muito mais desafiador do que qualquer um havia imaginado quando tudo começou”. Segundo um email de Mendoza, “o preço das sacolas laranjas Hefty® EnergyBag® cobre o custo do programa”.

Cientistas destacam outro obstáculo no plano das sacolas de energia: como ninguém sabe remover aditivos do plástico, produtos feitos de rejeitos reciclados, como dormentes, cercas e decks feitos com o plástico de Omaha, podem liberar produtos químicos tóxicos conforme se degradam. “Até que nós façamos um trabalho melhor para eliminar os perigos no primeiro uso, haverá problemas para administrar a toxicidade nos usos seguintes”, diz Pete Myers, biólogo, fundador e cientista-chefe da Environmental Health Sciences. “Alguns tipos de plásticos que eles propõem reciclar contêm produtos químicos relacionados a um declínio de 50 anos na contagem de espermatozoides, ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, e câncer de mama e próstata. Esses são problemas sérios e nós não sabemos o suficiente a respeito do nível de exposição para garantir a segurança da criança que se senta em um deck desses”.

Questionado sobre essa possibilidade, Gubbels disse que não a havia considerado, e não era perito em produtos químicos tóxicos. De qualquer forma, Gubbels vem espalhando os rejeitos plásticos de Omaha pelos EUA. Ele mandou uma carga recente para Renewlogy, uma usina em Salt Lake City, no estado de Utah, que aquece o plástico e extrai energia dele, e diz planejar mandar uma carga a uma planta semelhante no Texas, chamada New Hope Energy.

O mito da ‘reciclagem química’

Renewlogy e New Hope são duas das empresas que oferecem o que a indústria do plástico tem anunciado como a mais nova solução aos resíduos plásticos: a chamada reciclagem química. De acordo com o Conselho Americano de Química, expandir a recuperação de plásticos a esse âmbito poderia “resultar em bilhões de dólares para a economia”. Ainda assim, até mesmo os maiores defensores da tecnologia reconhecem que ninguém ainda sabe como converter, de maneira eficiente e econômica, o plástico em suas várias partes constituintes e, depois, em combustível. Se todos os plásticos não reciclados dos Estados Unidos fossem convertidos em petróleo, “poderíamos criar combustível suficiente para abastecer 9 milhões de automóveis por ano”, disse o diretor de sustentabilidade da Chevron Phillips, Rick Wagner, em um artigo recente na revista Plastics Recycling Update. Essa transformação também permitiria que a Chevron, a segunda maior produtora de plástico no mundo, desse de ombros diante de sua responsabilidade pelas enormes quantidades de poluição que agora afogam o mundo. Mas mesmo Wagner admite que ainda estamos longe de saber como fazer uma reciclagem química. É como ir a Marte, escreve Wagner. “Ainda não chegamos lá. Não amanhã, mas algum dia. Espera-se que seja logo”. Mendoza descreveu a pirólise, o método usado na fábrica da Renewlogy para onde os resíduos da Hefty EnergyBag já foram enviados, como “um possível passo na direção de uma reciclagem avançada”.

A ideia de que o plástico pode ser quebrado em seus elementos constituintes, que então podem ser transformados em combustível, ceras e lubrificantes, circula há décadas. Mas essas usinas que convertem resíduos em combustível nunca se provaram econômica ou ambientalmente viáveis. Segundo um informe de 2017 da Aliança Global por Alternativas a Incineradores, a maioria dos projetos desse tipo nos EUA, Canadá, e Europa, que usam pirólise ou uma tecnologia relacionada chamada gasificação, foram fechados ou cancelados antes mesmo de se iniciarem. Entre os impedimentos citados no informe estava a inabilidade de cumprir com as metas de eficiência energética e controle de poluição. “Em geral, os custos são mais altos e mais incertos do que os defensores do projeto preveem, e as receitas são menores e mais incertas”, aponta o documento.

Usinas que convertem resíduos em combustível nunca se provaram econômica ou ambientalmente viáveis.

A viabilidade ambiental e financeira das mais recentes usinas do tipo também não está clara. Perguntado sobre a eficiência da estrutura utilizada pelo programa Hefty EnergyBag, Mendoza disse, por email, que “a eficiência material de uma unidade de processamento por pirólise é dependente da tecnologia usada e dos tipos de materiais consumidos na instalação”. Mendoza também escreveu que “a Dow tem um interesse vital e a responsabilidade de tornar os materiais plásticos benéficos durante todo o seu ciclo de vida. Estamos trabalhando para melhorar todo o sistema onde nossos produtos são usados, para maximizar a eficiência dos recursos e os benefícios derivados do uso dos nossos produtos”.

Nem a New Hope ou a Renewlogy, duas das nove empresas na aliança industrial em prol da reciclagem química dentro do Conselho Americano de Química, revelaram qual o volume de plásticos suas instalações precisam para produzir combustível. A Renewlogy não respondeu a vários pedidos de entrevista por email. Mas o site da empresa diz que, entre os rejeitos de Omaha e aqueles coletados através de um programa similar da Hefty EnergyBag na cidade de Boise, mais de 450 toneladas foram retiradas do lixo em 2018. Um vídeo no site também descreve o processo da Renewlogy como rentável e “comprovadamente limpo”. A usina New Hope, no Texas, publicou um comunicado de imprensa anunciando que terá a capacidade de processar 150 toneladas de plástico por dia, mas a companhia não comentou sobre a eficiência das suas instalações. “É uma indústria muito nova e há coisas sobre as quais ainda não podemos informar”, diz Lee Royal, que atendeu o telefone. “A forma como nós fazemos negócios é algo que, provavelmente, não gostaríamos de compartilhar neste momento”.

Em uma declaração enviada por email, o Conselho Americano de Química defendeu o valor da reciclagem química, assinalando que “essas tecnologias podem produzir uma ampla gama de produtos além do combustível, incluindo químicos mais valiosos e outras matérias-primas”, e que esses produtos “têm um valor muito maior no mercado do que em um aterro”.
As grandes questões ainda abertas quanto à eficiência, segurança, e viabilidade econômica do processo de reciclagem química — e as admissões de seus defensores de que eles ainda não descobriram como fazê-la funcionar — não impediram que a indústria química passasse leis facilitando o financiamento do esquema. O Texas recentemente se tornou o sexto estado a aprovar uma legislação (apoiada por Chevron Phillips Chemical, Exxon Mobil e o Conselho Americano de Química) que abriria caminho para novas usinas de reciclagem química.

Algumas dessas leis foram elaboradas de modo a garantir que as instalações estarão sujeitas a uma regulamentação mínima. Ao classificá-las como usinas de manufatura em vez de locais de descarte de rejeitos, operações de reciclagem química podem ficar imunes aos limites impostos sobre estes lugares em relação a óxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, monóxido de carbono, materiais particulados, metais pesados e gases do efeito estufa.

Ainda assim, usinas de reciclagem química já estão sendo promovidas — e, em alguns casos, financiadas — como uma forma sustentável de resolver o problema dos plásticos. No estado do Oregon, uma empresa de administração de rejeitos está pressionando para ter sua usina queimadora de plástico como sendo de energia renovável. E na cidade de Ashley, em Indiana, uma nova usina de reciclagem química recebeu 185 milhões de dólares do estado em “títulos verdes”, fundos destinados a projetos que beneficiam o ambiente. A Brightmark Energy, empresa por trás disso, diz que sua missão é “levantar-se para preencher as necessidades do nosso planeta”.

Algumas pessoas manifestaram contrariedade ao uso de dinheiro público para financiar um processo que falhou repetidamente em termos financeiros quando foi tentado no passado. “Cada uma dessas instalações de pirólise dependeu da grandiosidade do governo para simplesmente tentar sair do chão”, diz Andrew Dobbs, diretor na Campanha do Texas pelo Ambiente, um grupo que se opôs ao projeto de lei texano. “A chamada reciclagem química não faz sentido econômico. É um processo muito caro e que demanda um uso intenso de energia, que compete com o ato de simplesmente enterrar coisas em um buraco. Por outro lado, estão produzindo combustível, que compete com o gás natural em um momento em que o gás natural é muito barato. A única forma que eles encontram para fazer isso funcionar economicamente é se os custos forem pagos por outra pessoa”.

De acordo com o email enviado pelo Conselho Americano de Química, usinas de reciclagem química “estão sendo desenvolvidas por firmas de capital de risco e de investimentos, um voto de confiança na promessa dessas tecnologias e modelos de negócios”. O email também destaca que “tecnologias de reciclagem química estão se desenvolvendo muito rapidamente e — como outras tecnologias incluindo a eólica e solar — vão se tornar mais eficientes conforme atingirem uma escala comercial”.

Se conseguir cumprir seu objetivo de transformar 288 toneladas de plástico por dia em 778 barris de diesel, 418 barris de nafta e 360 barris de cera industrial, a última palavra em reciclagem de plástico vai, como todas as usinas de reciclagem, utilizar combustíveis fósseis para transformar produtos feitos com combustíveis fósseis em mais combustíveis fósseis. Elas também vão, quase certamente, facilitar uma produção continuada de ainda mais plástico.

“Tudo isso é uma distração enorme e incrivelmente cara”, diz Denise Patel, a diretora de programa dos Estados Unidos na Aliança Global por Alternativas a Incineradores. Embora a decisão da China de parar de receber o plástico dos EUA finalmente tenha revelado o problema dos plásticos no país, a ideia de reciclagem química — por mais original que pareça — poderia enfraquecer a urgência do tema, segundo Patel. “A decisão da China é uma oportunidade para as cidades examinarem seus resíduos e aumentarem os esforços para reduzir o uso”, diz. “Mas, em vez disso, esses projetos estão exacerbando o problema ao dar às pessoas a ideia de que há uma solução e que tudo vai ficar bem se continuarem a comprar plásticos”.

Na conferência da indústria no Texas, ninguém perguntou se não havia problemas em seguir produzindo mais plástico. Após as imagens de criaturas marinhas feridas terem passado e um contador ter explicado aos executivos sobre como aproveitar os cortes de impostos aos mais ricos feito por Trump, o público presente ouviu sobre as perspectivas de futuro brilhante que a indústria tem. As exportações do plástico mais popular do mundo, o polietileno, não só vão continuar, como passarão por um “saudável crescimento” nos próximos anos, como explicou uma apresentação da firma de pesquisas de investimentos IHS Markit. Também não houve muita dúvida sobre se todo esse plástico será vendido. Uma parcela cada vez maior deve ir a outros países asiáticos além da China, já que a crescente consciência sobre a poluição plástica na Europa e na América do Norte pode enfraquecer levemente estes mercados. A única dúvida quanto à proliferação de um produto que nós sabemos estar aquecendo o planeta, acumulando-se ao nosso redor e envenenando o ar e a água no mundo inteiro, é quais serão as novas técnicas adotadas pelos fabricantes para fazer com que tudo isso pareça OK.

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