O SUICÍDIO, LIVRO NOVO DO ESCRITOR EVAN DO CARMO

CAPA LIVRO EVAN
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Um homem pula do alto de um prédio comercial. Lá em baixo há um grande alvoroço, pessoas correndo para verificar se o homem morto ainda respira. Essa curiosidade mórbida dos seres humanos em si já é um tipo de insanidade, tudo isso acontece inconscientemente, as pessoas não se dão conta da lógica nem da razão, antes de serem como que empurradas, no meio da multidão para constatar o que já sabem. Como se fosse possível alguém sobreviver a uma queda de tamanha altura.

Ao constatar a morte do desconhecido, digo constatar, pois ao se depararem com a cena dantesca, diante de um corpo estraçalhado, logo em seguida, quando lhes volta a razão e algum sentido de lógica, em seguida os observadores anônimos comentam entre si. Que loucura! Esse homem deve ser um desses loucos que andam por aí sem rumo na vida. Ninguém em seu estado normal comete suicídio, pelo menos é esse o parecer nada científico do senso comum. Pensa uma senhora de idade mediana, que também tem filhos. Outro homem, esse moreno claro, que não tem filhos nem filhas, pois é eunuco por opção, faz somar sua voz ao coro trágico do absurdo e diz. É loucura, o que mais poderia ser? – Alguém ser capaz de tirar a própria vida. O mundo está mesmo louco.

Não é lugar-comum todo esse espanto das pessoas que aqui são observadas pelo narrador, mas diante da tragédia pública com a qual lidamos, com pessoas comuns em cena, pois se são comuns, são porque se encontram a esta hora a passar por um centro comercial, pessoas que não raro se deslocam em busca de garantir seu pão diário. Portanto, essas pessoas, sendo humanas e comuns não poderiam descrever o que sentem e enxergam, a não ser com palavras simples como estas: Loucura… Tragédia… Absurdo!

O mundo é o mesmo de sempre, meus caros amigos, esse absurdo de contradições humanas. Esse comentário, um tanto desconexo e de cunho filosófico, poderia muito bem ser do narrador, que também nos parece pessoa humana e comum como os demais. Contudo, quem o faz é um senhor bem vestido, que pelo traje e vocabulário podia ser um advogado, um professor, ou mesmo um doutor da área médica. No entanto ele silencia. Cala diante do que vê, e mesmo sendo culto não tem cabedal retórico para continuar com seu argumento em defesa do trágico acaso, e para nós não importa saber seu nome ou sua origem, nem tampouco seu ofício.

São as pessoas que estão loucas, sem objetivo. Diz outro senhor de barbas longas, que olhava o morto sem demonstrar nenhuma confusão mental ou interesse especial. A vida perdeu o sentido. Diz outra voz um pouco fora da multidão.

Todavia, não podemos nos esquecer de um fato estranhíssimo, que ocorrera neste nosso cenário fúnebre.  Ao lado do corpo, entre tanta confusão e alvoroço, há um cão, que depois de um uivo alucinante e assustador silencia e baixa a cabeça, como quem lamenta a perda de um ente querido, enquanto tudo se encaminha para o desfecho da nossa história trágico-urbana. Esse cão, que mesmo sendo incomum nas suas atitudes e gestos, além de uivar podia chorar, levando em conta que o contexto nos daria razão para supor ser normal, um cão que chora, todavia não é esse cão o cão das lágrimas de outros tantos romances famosos e incomuns, como se apresenta este nosso Ensaio Sobre a Loucura. Esse cão preferiu uivar, depois silenciosamente se comportou como um ser humano em profunda contrição, mas não podemos negar que a sua melhor e mais atraente proeza seria o riso. Pois bem, esse é o cão do riso, não o cão das lágrimas. Contudo, devemos também aventar que aquele que é capaz de rir também pode ser capaz de chorar.

            É preciso coragem para seguir um caminho incerto como o suicídio, por exemplo, talvez só mesmo os loucos sejam capazes de trilhá-lo. Ser humano e normal deveria ser temer a morte, só se pode temer o desconhecido, e neste contexto fúnebre quem não respeita esse gigante invisível não respira no mundo da razão. Embora existam aqueles que apregoam que a razão deve nos conduzir a um estado natural de aceitação, e que a decadência física deve ser encarada como algo normal – a morte sendo um fim para dar à luz a outra realidade menos dolorosa. Contudo, isso pode ser uma bestial ideia, mas cada um crê no que lhe convém. Viver é sofrer, e é sofrendo que se aprende a dar valor ao gozo. Lógica simples, meu caro leitor, sem escuridão não haveria luz. Todavia, mesmo esse conceito de escuridão e luz, de bem e de mal, de dor e de prazer não suportaria o crivo da relatividade.

Os humanos, perdidos em seus labirintos, buscando entender e explicar o caos, inventaram nomes, vocábulos para explicar tudo em sua volta. Nomes que são apenas símbolos daquilo que antes desconheciam. Mesmo depois da evolução da linguagem, ainda continuamos a viver como que em uma espécie de Torre de Babel, continuamos, portanto, sem entender as mesmas coisas, coisas às quais damos nomes, por isso temos quase sempre na ponta da língua uma resposta para tudo ou quase tudo.

Portanto, nomes como compaixão, amor, loucura, medo, salvação, condenação, justiça, perdão, bondade, luxúria, desejo, maldade, sorte, felicidade. Enfim, é uma profusão de confusões produzida por sentimentos que não dominamos – isso é o ser humano, um universo desgovernado em expansão.

            Deixemos este divagar filosófico inútil para outro momento, pois não é justo desviar a atenção do leitor para este universo que é ainda mais caótico do que o estado físico e mental por onde perambulam as almas encarnadas deste Ensaio Sobre a Loucura.

Do outro lado da rua em que pessoas procuram razões para um suicídio inesperado, a menos de duzentos metros dali, enquanto uma multidão de transeuntes se ajunta para ver o corpo que caíra de uma altura de trinta andares, um carro desgovernado sobe a calçada e atropela uma família que esperava o ônibus para voltar para casa.

A família vinha de um passeio no parque da cidade, lugar para onde ia uma vez por mês. Os filhos, pobrezinhos, esperavam ansiosos o fim do mês para irem ao centro da cidade, onde também passeavam no zoológico de mãos dadas. As crianças adoravam jogar pipoca aos macacos. O pai das crianças, um senhor de 35 anos, tinha a pele escura, não era negro, mas queimado pelo sol. O homem era pedreiro, a mãe dona de casa, e os filhos eram crianças pobres que não sabiam ainda dos perigos das ruas, nem conheciam a tragédia de perto, só sabiam da pobreza honesta que viviam com os seus pais, num subúrbio qualquer de uma grande cidade, de algum lugar sem importância geográfica para nossa história, onde as pessoas não terão nomes nem rostos, nem endereço, com alguma exceção, é claro, quando for imprescindível descrever a beleza abstrata de algumas imagens que só a loucura é capaz de reproduzir, então é que veremos o rosto e algumas características de pessoas comuns, que nos subjugarão e, de algumas não tão comuns nos tornaremos cúmplices ou prisioneiros.

O fato é que há um corpo estirado sobre o asfalto, ninguém reconhece a vítima em grau de parentesco, pessoa anônima como são todos os excluídos. É um homem, é só o que sabem os curiosos, assim como sabe o leitor que me escuta.

O suicida é relativamente jovem, pelo estado em que se encontram as suas roupas, sujas e esfarrapadas, dá para imaginar que se trata de algum moribundo andarilho, pessoa sem lar, sem amor nem pátria, que se despedaça ao cair no chão de uma rua larga, no centro de uma grande cidade, palco de muitas tragédias como esta, coisa natural para nossa época em que a loucura se tornou fato comum, banal, corriqueiro.

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