minha vida, biografia por mim mesmo-escopo sem correção.

Minha origem

“Estas memórias ou lembranças são intermitentes e, por momentos, me escapam porque a vida é exatamente assim. A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho. Muitas de minhas lembranças se toldaram ao evocá-las, viraram pó como um cristal irremediavelmente ferido. As memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele viveu talvez menos, porém fotografou muito mais e nos diverte com a perfeição dos detalhes; este nos entrega uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e a sombra de sua época. Talvez não vivi em mim mesmo, talvez vivi a vida dos outros. Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado. Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.” Pablo Neruda

Minha origem

Nasci em Monteiro, no sertão da paraíba, cidade pequena, e fiquei por lá muito pouco tempo, apenas o suficiente para lembrar que não tenho amor por esta cidade, lugar onde nasci. Meu pai é o senhor Heleno Francisco do Carmo. Do Carmo, sobrenome que amo e que me deu algumas alegrias, provavelmente seja de origem portuguesa. Meu pai já é falecido, contudo, me refiro a ele como estando vivo, sua personalidade é tão presente em minha vida que não consigo falar dele como não mais existindo.

Mas deixe-me contar como passei a amar esse sobrenome, Do Carmo. Meu nome atual Evan do Carmo, segundo um poeta magnífico que também já faleceu ou se encantou, Fábio Renato Villela, sempre me dizia, quando trocávamos alguns poemas, ele sempre fazia questão de falar, que o poema tinha a minha grife, segundo ele meu nome é nome de celebridade.

Devo este nome à criatividade natural de minha querida Iranete, foi ela quem o inventou, de última hora. Foi nos idos dos anos 90, quando eu fui convidado para participar de um show, no antigo cinema do Gama, Cine Itapuã, hoje já desativado. Era só a abertura de um show de Belchior, eu seria apenas um dos músicos que se apresentariam antes do cantor, na época famoso, mas já entrando no ostracismo.

A produção do evento exigiu que todos deviam apresentar seus nomes artísticos, para constar no cartaz de divulgação do evento. Então Iranete foi iluminada para me batizar de Evan do Carmo. Aceitei seu conselho sábio, como sempre, e, a partir daquele dia passei a me chamar Evan do Carmo, hoje não me lembro que já tive outro nome, que não seja esse.

Sobre meu pai, hoje tenho 57 anos, mas de 30 dedicados à literatura, depois de escrever vários livros, mesmo assim, com toda facilidade que tem para escrever, eu nunca consegui escrever sobre meu pai, sem que não venham as lágrimas mais doloridas de saudade, de melancolia, de ausência, pois tive pouco tempo para conviver com este homem tão incrível.

Hoje consigo falar sobre ele, e tenho alguns exemplos de conduta dele que falam muito forte ao meu coração. Tenho irmãos que são muito parecidos com ele, às vezes me pego olhando para meus irmãos e imaginando meu pai. Mas perdi meu herói aos onze anos de idade, logo mais contarei mais detalhes dessa perda indescritível, jamais reparada ou preenchida. Meu pai foi o único modelo de homem que até hoje consegui admirar e reverenciar. Com onze anos, depois que perdi meu pai, logo tive que ir embora daquela cidade que tanto parecia com ele. Minha mãe Nanu, é uma mulher impressionante, como todas as mães são ou deviam ser. Mãe ficou com sete filhos e um na barriga, minha irmã Maria Helena, Helena em homenagem ao meu pai, Helena não conheceu o pai, minha mãe estava grávida de sete meses quando ele faleceu. Tudo era estranho não ter mais meu pai ali cuidando de todos nós, homem de coragem, um personagem que não consigo nem com meus dotes de escritor descrever seu caráter ilibado e incomum, mesmo para sua geração.

Tenho algumas vívidas lembranças dele, como era forte, trabalhador, rigoroso, sobretudo ao disciplinar os filhos, um pai à moda antiga. Nós éramos bons filhos, mas levamos algumas boas pisas, especialmente quando deixávamos de fazer as tarefas a nós designadas, para irmos jogar bola. Meu pai cuidava de tudo, e era o melhor marido do mundo para minha mãe, a ponto de mesmo depois de 46 anos de sua morte, minha mãe ainda chorar quando fala dele, de como ele era exemplar como marido.

Meu pai acordava muito cedo, fazia café, cozinhava mandioca, batatas ou fazia um belo cuscuz, quando minha mãe acordava ele já tinha ido pra sua lida de lavrador de terras, e nós mesmo com pouca idade, eu e meu irmão Jadeilson, cuidávamos da vazante, de um pequeno terreno à beira de um açude, dentro da cidade, onde minha mãe plantava todo tipo de verduras e alguns legumes como cenouras. Então a vida era dura, todos trabalhando não faltava nada, especialmente porque minha mãe ajudava meu pai, costurando roupas para o bairro inteiro onde morávamos.

Quando meu pai faleceu, eu não fiquei muito bem da cabeça, fiquei mal psicologicamente, eu já era um pouco rebelde, talvez o que mais dava trabalho para minha mãe, tinha meu espírito aventureiro e sonhador, que graça a Deus ainda está comigo, então logo tratei de aprontar, claro que não tinha consciência das minhas atitudes de garoto com onze anos de idade, mas me achava já muito entendido dos assuntos dessa vida, então com auxilio de más companhias, influenciado por um garoto de minha idade, o Toinho da Zefinha, tratei de aprontar a primeira peripécia de menino rebelde. Fugi de casa, me danei no mundo com este colega, também sem juízo como eu. Fomos parar numa cidade que fica a 15 km de Monteiro, a cidade chama-se Sertânia, só que fomos a pé, pegando carona, isso quando algum filho de Deus resolvia parar pra dois pirralhos à beira da estrada. Só sei que conseguimos chegar nessa cidade desejada, e lá chegando não tínhamos noção do que havia vindo fazer nela.

Logo bateu a fome, como saída rápida fomos pedir trabalho em troca de comida. Conseguimos que nos dessem comida e uma garagem para dormir onde amargamos um frio desgraçado. Contudo, apareceu alguém mais esperto que nós, um senhor dono de fazenda que nos levou para trabalhar na roça, em outra cidade mais distante da minha cidade de origem. Lá fomos nós, ficamos nessa fazenda por uma semana apenas. Fomos na segunda e voltamos no sábado, foi para mim a pior experiencia já vivida, mesmo até hoje, foram as noites mais angustiantes que passei longe de casa, pareceram um ano ou mais, mas graça a Deus não sofremos nenhum mal por parte dessas pessoas com quem convivemos durante estes dias de fugitivos. No final de semana o homem nos pagou, não me lembro quanto foi em dinheiro, também me deu um queijo para eu levar pra minha mãe, só lembro que o dinheiro deu para pagar uma rural, um carro que fazia o trajeto de Sertânia para Monteiro, ainda sobrou cinco contos que dei para minha mãe, e apesar de tudo ainda tive orgulho do que fiz. Lembro como hoje, chegando no dia de sábado na feira, na banca de verduras onde minha mãezinha estava trabalhando sem a menor noção sobre o que teria acontecido com o filho fugitivo.

E qual foi a reação de dona Nanu? Foi muito choro, meu e dela, abraços tão quentes que nunca me esqueci do seu carinho ao me receber de volta, como se nada houvesse acontecido. Mãe, que coração imenso, e eu logo voltei à ativa, ali mesmo fiquei trabalhando com ela, e ouvindo toda hora alguém perguntar pra ela: “É este o fujão, o garoto danado?

Minha mãe só dizia: “Sim, é este, meu artista levado.”

Até hoje minha mãe me chama de menino, só que agora ela tem orgulho de mim, do homem que um dia foi “menino maluquinho.”

Meu pai Herói.

Meu pai se chamava Heleno Francisco do Carmo, não tenho dele muitas lembranças, ele morreu quando eu tinha onze anos, contudo, guardo algumas lembranças, sobretudo da época em que ficou doente. Meu pai era um homem muito forte, um trabalhador exemplar. Era um lavrador, homem que cuida da terra, ele próprio tinha um pequeno pedaço de terra, por onde passava um riacho, terra fértil, onde plantava cana e milho e melancia. É disso que me lembro bem, também plantava bananas.

Não sei dizer se meu pai era um homem triste, se tinha crises existenciais, talvez fosse muito feliz, pois tinha uma bela família e uma linda esposa, honesta e trabalhadeira. Lembro-me da sua relação com minha mãe, eram felizes, combinavam em quase tudo, ambos desejavam que seus filhos estudassem para não serem analfabetos como eles eram. Meu pai era alto e moreno, tinha ombros largos como eu, era um homem bonito, mas não me recordo que alimentasse alguma vaidade nem vícios. Trabalhava incansavelmente para sustentar sua família, grande para os padrões atuais.

De domingo a domingo ele sempre repetia sua rotina; acordar cedo e ir ao trabalho, além de suas próprias lavouras, milho e feijão, ele ainda trabalhava de meia ou para outros produtores rurais. Meu pai era homem temente a Deus, pelo menos é essa a impressão que tenho até hoje, pois sempre ia à missa aos domingos de manhã, com toda família, mas ao voltar pra casa, logo depois do almoço, ia ao trabalho, cuidar de um pequeno e produtivo roçado, que ficava perto de casa, meu pai só retornava à noite com um feixe de cana nos ombros.

Éramos oito filhos, cinco homens e três mulheres, minha mãe ficou grávida de uma menina quando meu pai faleceu. Foram seis meses longos, a duração da doença fatal de meu pai. Meu pai nunca ficava doente, era como touro, todos os homens o invejavam por seu físico e por sua moral. Mas todo herói fatalmente sucumbe no final da epopeia. Meu pai tinha chagas desde adolescência. Fora picado por um barbeiro, na região onde foi criado esse inseto fez muitas vítimas, e a medicina não tinha os meios para prolongar a vida dos seus pacientes. Meu pai só veio manifestar os sintomas da doença aos quarenta anos, foi avassaladora sua enfermidade, em seis meses apenas ele veio a óbito.

Minha mãe foi uma guerreira e fez tudo que pôde e o que não pôde para salvar a vida do seu amado. Lembro-me com muita tristeza, de uma vez que eles voltaram de uma cidade próxima; aonde eles foram, em busca de uma nova forma de tratamento, mas não havia muito que fazer, meu pai estava com o coração muito comprometido, estava rejeitando os remédios, e não havia nenhuma esperança de cura ou de melhora, ele vivia muito cansado, e minha mãe passava longas noites ao seu lado. Nós éramos muito pequenos, mas já compreendíamos que nosso herói estava condenado à morte trágica. Logo se agravou seu quadro, minha mãe teve que o internar no hospital público de nossa cidade, onde foi bem cuidado, mas em poucos dias, ele já demonstrava fraqueza extrema, não se alimentava e as injeções que tomava não causavam mais nenhum efeito paliativo, então meu guerreiro pediu para morrer em casa, pedido que fora atendido pelos médicos dele, minha mãe o levou pra casa, mas meu velho não aguentou a pequena viagem de pouco menos de três quilômetros, faleceu nos braços de minha mãe dentro da ambulância.

Essa é mais uma das inúmeras tentativas que faço, para escrever sobre meu pai. Sei que daria um belo e humano romance, todavia nunca serei capaz de levar a cabo esse projeto, é doloroso demais para mim, pois a dor e o trauma da sua ausência em minha infância ainda são deveras penosos para mim.

Meu pai em versos

No sertão da Paraíba, num tempo não muito distante, viveu um homem distinto de caráter impressionante. Nascido de gente simples, mas de nobre proceder. Aprendeu fazer com as mãos a arte do sobreviver. Não era dono de terras, não tinha gado vacum, não era filho de nobres e não herdara nenhum. Não tocava um instrumento e nem era menestrel, trabalhava com esmero da terra tirava o mel. Desde tenro foi levado para a terra cultivar, os seus pais morreram cedo com uma prole pra criar. Ficando como maior, entre outros irmãozinhos, teve que apreender, bem cedo, a tristeza do caminho. 

Lá para as bandas do sertão, a escassez é comum, falta água todo tempo; muitos anos são como um, para trazer desesperança e a descrença do jejum. Perde-se a fé muito cedo, pois do céu não cai fartura, os homens fogem pra longe para viver uma aventura, em busca de uma porção, de um dia de serviço, sendo um vício ser peão; trabalhar de sol a sol, pra ser dono de um quinhão. Ter a honra dos vizinhos, pra família ter razão. Não comer o pão alheio, não usurpar profissão, cada um tem seu destino e o carrega pela mão.

Numa dessas fugas atrozes, em busca de condição, de trabalho e provimento fora longe atrás do pão. Em terra um tanto inóspita, um varão trabalha bem, acordava muito cedo para procurar um bem. Às noites tristes e sombrias um jovem agonizava, sobre a febre da saudade, da perda da sua gente, dos pais que o adoravam. Vivendo precariamente as intempéries do fim, distante ficou seu sangue e uma preocupação ruim. A fome grassava os fortes, quem dera os fracos sem mão, sem a proteção diária com zelo de um coração. Um irmão tem que ser pai, o pai tem que ser irmão, uma família nas horas da triste recordação, no âmago de sua alma, o jovem pedia a Deus, que lhe mostrasse uma porta para libertar de uma vez, a vida que persistia em vencer a aridez. Fora lhe dito que ao longe, em uma cidade boa, havia emprego à vontade para quem vivia à toa. Partiu com raça e com força que lhe deram os genitores. Foi trabalhar nas emergências sob a proteção do estado. Aceitou um prato feito de um destino contrariado.

Os dias áridos de sol que queimavam sua sina, ele sem perder a rota, sem descuidar da rotina, trabalhou, juntou dinheiro, pra voltar com mais vigor, trazendo aos que ficaram o afago e seu amor. Na noite véspera da volta, não dormiu, perdeu a calma, sua ansiedade era tanta queria ver muito cedo as flores que a vida planta. No abrigo onde brigava com toda sorte de inseto, viu nas costas uma marca, de uma picada, era certo, fora ofendido por vermes, ou por um barbeiro incerto.

Nesse tempo que ficou, longe dos seus bem-queridos, não pensou em coisa alguma só levou ao vento aflito, muitas preces para um santo, que era um dos protegidos. Acreditava na sorte, que teria o bom final, encontraria uma alma que lhe seria igual, poderia dividir as mágoas e um bom tesouro e, semeariam juntos as pérolas da cor do ouro, os filhos que Deus daria para o mundo conduzir, ensinar suas virtudes e a paz distribuir.

Chegando à casa, achou seus irmãos despercebidos dos perigos desta vida de um quinhão que era perdido. O mais novo enveredou num mau costume aguerrido, passava os dias nos bares, com o pouco adquirido. Heleno não compreendeu a visão que vislumbrou para quem não tinha posse, pouca coisa de valor, tudo que seus pais deixaram fora a honra e um bom nome, só que isso no Nordeste não garante o passar fome. Ele, um tanto contristado, tinha que tomar atento, uma posição de garra para suprir o sustento. Foi então para cidade, em seus bolsos um forte alento, possuía um bem possível para comprar alimento. 

Mesmo com idade certa não pensava em casamento. Queria só seu destino coroado de sucesso, criar seus irmãos queridos, suprir como um pai o devido aos desejos inocentes. Na cidade, ainda estranho, pouco sabia dizer aos que lhe perguntasse sobre um bom proceder. Apenas pensava reto que o pão a que tinha fome ele sim traria certo. Com o pouco que tinha em mãos fez mais do que se esperava de um jovem muito moço que a tragédia criara.

Na feira era o costume das pessoas se encontrar. Todos que morassem longe no sábado iam comprar as provisões necessárias para a vida sustentar. Este moço, Heleno nobre, filho de família pobre, sabia se comportar.  Na banca do seu João, um senhor comerciante, ele comprava farinha como fora diamante.  Quem lhe atendia agora era uma moça apaixonante. Era Nanu. Filha esperta, que cedo se libertou da posição feminina. Seu pai lhe dava valor.

Ela sempre ia com o pai a quem devia favor. Nesse dia, embora tarde, ele enfim pode comprar uma carga de alimentos para os seus alimentar. Perguntara à Nanu se ela tinha um tempinho, para lhe falar presente. Não se sabe com que força ele então a perguntou, se ela tinha um pretendente, pois por ela se encantou. Nanu mal lhe respondeu, corada com seu pudor… “Não tenho nenhum compromisso, espero que entenda isso, que não será com o senhor…”.

Heleno contrariado da moça se desculpou, saiu dali cabisbaixo pensando naquela flor… Era um doce, um encanto, a filha do vendedor. Mas amor é coisa errada para quem nasce sem o dom da conquista, da fortuna de um sonho vencedor. Ele apenas sabia que a sorte tardaria para lhe dar algum valor. Voltara ao seu rancho-casa, onde a prole encontrou. Os pequenos esfomeados e o mais velho embriagado reclamando um protetor… Heleno se desdobrava para ser pai e mãe daqueles que não plantou.  Mas o tempo passa rápido. Heleno cresceu, um belo homem se tornou. Apenas em alguns anos seu destino enfim mudou.

Meus pais se casaram como deu pra ver, neste início de romance, depois vou pedir ajuda de minha mãe para trazer mais detalhes sobre a união dos dois, retornarei à minha própria história, que só existe graças ao casamento dos dois.

Então com onze anos, pois fazia muito pouco tempo da morte do meu pai, apareceu por lá em Monteiro um tio meu, meu querido  tio, também já falecido tio Sebastião, todo mundo tem um tio especial, este foi o meu, este foi pra minha cidade passear, e logo me conquistou, meu espírito de aventureiro se agarrou a ele, e depois de rebocar a casa de minha mãe, meu tio que era pedreiro, me ensinou ainda em Monteiro o ofício, coisa que assimilei em quinze dias, fui com ele para morar na Bahia, lá começa de fato minha saga de filho longe de casa, longe de pai e mãe. Onde me tornei o homem que sou hoje, pelo menos em parte.

Minha professora

Não vou deixar vocês sem saberem alguns detalhes da minha infância. Fui pra escola com sete anos, com meu irmão, o Jadeilson, este será sempre meu companheiro em muitas aventuras, vocês vão perceber isso logo mais.

Primeiro dia de aula, me colocaram lá no fundão, sala cheia, do grupo escolar municipal, aquele que tem em toda cidade do interior. Minha professora chamava-se Rosimeire, uma morena muita bonita, me lembro disso não porque com sete anos eu já tivesse interesse por beleza feminina, mas é pelo fato dessa bela professora ter sido nossa mestra por alguns anos, até os dez anos se não estou enganado. Tivemos alguma convivência fora da escola. Ela ia em minha casa, lembro de uma vez em especial. Meu pai era muito generoso com aquilo que tinha, especialmente com os frutos do seu trabalho árduo, então em tempo de safra, (Colheita) ele fazia questão de convidar a professora para ir à minha casa, para buscar milho, melancia e outras coisas da roça do meu pai.

Voltemos ao primeiro dia de aula, a professora fazia perguntas orais, para testar o nível de sua nova classe, pois tinha crianças de várias idades, não só de sete anos como eu. Eu, lá no fundo da sala me arrisquei a responder uma pergunta sobre quantos dias tinha um ano. Eu não poderia saber disso, e não sabia mesmo, contudo abri a boca, como que movido por um espírito anarquista e, por troça, gritei alto: “365 dias” A professos me deu parabéns, e me considerou, por isso, um garoto inteligente. Que tolice, eu não sabia de nada sobre o tema, só fui induzido por meu espírito de competição a dizer, como se soubesse. Acertei, não sei porque razão, mas acertei e ganhei um certo olhar especial da bela professora, doravante fiquei muito à vontade para falar com ela como se eu fosse pra ela também especial, como ela era para mim. Eu de fato me apaixonei pela professora, nunca perguntei para meus filhos se isso é comum, se aconteceu também com eles, só sei que eu sonhava com ela, ela era minha musa platônica. Só depois de me tornar poeta pude compreender o que é amor platônico. Eu não sabia o que era aquilo que eu sentia, mas sentia paixão por ela, um amor incondicional, inexplicável até hoje.

Minha infância poderia ter sido mágica, mas durou pouco tempo. Sem pai, louco para ganhar o mundo, não tinha os pés presos na terra, como muitos da minha geração tinham, presos na cidade materna, eu queria sair, ir embora, a perspectiva de vir morar longe de tudo, com o meu tio, para quem transferi de alguma forma minha necessidade paterna, era um sonho com o qual eu me agarrei para sair de casa. Fui ingrato, hoje eu sei, talvez se tivesse ficado com mãe e me tornando homem para ajudar ela a criar meus irmãos, com certeza minha história seria outra. Hoje não creio em destino, mas é o desatino não pensar nele, como que as coisas são manejadas como dados jogados ao chão, e nós escolhemos as opções que são para nós mais viáveis, ou mais fácies. De qualquer forma fui embora morar com meu tio, fui ser pedreiro, estudar que é bom não tive como, apenas quarta série, que fiz ainda em casa, junto com meu irmão, na mesma escola, com a mesma professora.

Na Bahia

Meu tio não tinha preocupação em me por pra estudar, ele gostava mesmo era de trabalhar, fazer obra e ganhar dinheiro, nessa época ele era recém-casado, mas eu pensava como seria ele como pai, será que daria valor ao estudo, colocaria seus filhos pra estudar, ou faria o mesmo que fez comigo? Não me lembro dele em algum momento falando sobre a possibilidade de eu estudar, não quero ser ingrato com ele, devo tudo a ele, dos onze aos vinte anos fiquei com ele e aprendi muito da vida, de como ser honesto e trabalhador além de toda sorte de arte em obra que domino, arte que muito me serviu por toda vida até hoje.

Meu tio Sebastião faleceu há pouco tempo, mas eu pude revê-lo por duas vezes em que fui à Bahia só pra visitá-lo, uma vez antes de meu filho Evan Henrique completar dois anos, isso há 26 anos, há uns 6 anos tive lá, ele já estava muito doente, depois veio a faleceu, como já era esperado por todos, dado ao quadro complicado de saúde dele. Enfim, da Bahia tem muito mais para dizer, logo à frente falarei das minhas aventuras amorosas na Bahia, onde acabei deixando dois filhos.

Quando cheguei na Bahia, meu tio foi morar em uma cidade perto da barragem de Sobradinho, a cidade tinha o mesmo nome, Sobradinho, ficava na verdade muito perto da grande barragem famosa pela sua importância para produção de energia. Ele trabalhou na construção da barragem, mas quando fui morar com ele a barragem já estava pronta, ficava perto de juazeiro da Bahia, logo depois, Juazeiro foi a cidade para onde fomos morar, e lá fiquei até os 10 anos. Em juazeiro foi melhor, já era uma cidade grande, vizinha de Petrolina outra grande cidade que fica em Pernambuco, do outro lado do Rio são Francisco, lá sim eu puder me desenvolver, abrir horizontes, mesmo trabalhando em obras, nos finais de semana eu saía com um amigo querido, o Nidinho que me levou para conhecer todos os pontos de diversão da cidade, especialmente para os bailes de sábado à noite, discoteca, estas coisa dos anos 70 e 80, depois conheci outro amigo que era músico, tocava na noite, mais cantava que tocava, eu já havia aprendido tocar violão sozinho, tomando violão de amigos emprestado, então me associei com este amigo, o Welington Morais, e ganhamos as noites e o coração de muitas meninas carentes, dessas que não podiam ver um garoto com o violão nas mãos. Foi uma época fascinante, de muitas aventuras amorosas.

Conhecia algumas moças com quem me enrolei de fato, com várias ao mesmo tempo. É feio gaba-se, mas houve época em que eu podia contar nos dedos das mãos, o número de namoradas que tinha, nessa confusão não podia aconteceu nada menos do que o que aconteceu, ao mesmo tempo engravidei duas dessas garotas com quem eu, irresponsavelmente namorava. Elas eram loucas por mim, mas eu nada tinha para oferecer para elas, nem mesmo o violão que eu tocava era meu, contudo andávamos de carro, pois este amigo tinha carro, usava na verdade o carro do pai que era rico, dono de supermercado. Não sei se foi por isso, ou pelo canto e o violão que elas se interessavam.

Deu ruim, tive que fugir, logo conto os detalhes da minha segunda fuga, só que dessa vez fora para salvar minha vida. Era isso que eu pensava que estava fazendo, fugindo de duas mulheres, ambas com filhos, uma na barriga, a outra nos braços, filhos que diziam ser meus, e eu só tinha na verdade dezoito anos.

Mas vamos entender como me enrolei com essas mulheres. Uma era vizinha, morava na minha rua, Joana Darc, a mãe de Luana do Carmo, hoje com 36 anos. Bem, foi talvez a primeira namorada, sim foi a primeira de fato. Era coisa de menino, mas que durou bastante, anos na verdade, mas quando já tinha meus dezessete anos eu já estava em outras paragens, conheci muita gente fora do meu bairro, a música me levou para descobrir outros horizontes, outras paisagens, percebi que havia mundo fora da minha rua, e consequentemente outras belezas a serem contempladas. Creio que o poeta em mim sempre esteve presente, desde de muito criança, contudo acredito que tenha aflorado nesta época fascinante de tantas descobertas, sobretudo neste campo amoroso. Mesmo tendo tantas namoradas, este caso ficou mal resolvido. Então Joana que pareci cabeça feita, muito inteligente, era isso o que eu pensava, foi não foi aparecia onde eu estava, nas obras e, num belo dia ela me aparece enquanto eu levantava umas paredes. Era um pedreiro com a cabeça no mundo, sonhando ser artista, como todo garoto que não tem boa orientação nesse campo sexual. Portanto eu não imaginava que alguém pudesse engravidar tendo relação ou quase relação sexual em pé, de qualquer jeito, mas penso que a moça sabia disso, pois nunca tinha feito com tanto interesse como dessa vez. Ela foi lá mexeu comigo, eu mexia com ela, claro, eu que não sou machista, assumo minha culpa neste quase crime, e do nada ela sumiu. Pensei, que alívio, a Joana me esqueceu. Hum, que nada, depois que me envolvi com outras, e especialmente com a Mônica, mãe do outro filho, agora já grávida, olha quem me aparece. Joana, com um filho nos braços, teve a criança sozinha, só soube quando nasceu, então foi que ela disse que era eu o pai.

Fiquei apavorado, ela sabia da outra moça, sabia que ela estava grávida, então fui lá na casa de Joana, assumi a paternidade, e do nada ela me puxa uma arma e diz que vai me mata, claro, se eu não ficasse com ela. Uau, fiquei louco, enquanto a Mônica estava com apenas dois meses de gravidez. Estava perto da minha farra terminar, pois como eu poderia administrar sozinho esta confusão de sentimentos. Fui covarde, claro, com uma boa desculpa, como já dito desta vez eu fugiria para não levar um tiro. Mas sou eu meu próprio biógrafo, e como escritor vou guardar este desfecho, se levei um tiro ou não, se fiquei com quem, esperem um pouco, logo voltarei a este assunto.

Meu trabalho como pedreiro com meu tio Sebastião, com onze anos fazia trabalho de pedreiro, fui aprendendo tudo que ele sabia fazer, encanação, era muito bom ver meu tio fazendo encanação das casa que nós construímos, sempre era eu seu fiel escudeiro, seu ajudante nestas etapas de fino acabamento. Fazíamos pintura, colocávamos vidros, tudo isso ele fazia, e eu ali do lado, ajudando aprendia tudo, aprendi tanto, tão bem a ponto de ele me deixar fazendo muitas vezes o trabalho dele. Meu tio de fato confiava em mim, quando o assunto era trabalho, dizia que ele ou eu, quando tinha algum pepino, algo difícil de realizar, que só um de nós faríamos. Fui muitas vezes fui designado por ele como seu braço direito, aquilo que ele não podia fazer, ele não confiava em mais ninguém, ainda brincava dizendo para quem duvidava. “Isso é café pequeno, Nenê faz isso rápido e bem feito.”

Naquela época se fazia grandes obras, galpões grandes, imensos, para funcionar como supermercado, o piso era de cimento queimado, quer dizer, alisado por colher de pedreiro, como eram muito grandes, às vezes mais de mil metros quadrados de área, era impossível terminar tudo apenas em um dia. Era necessário fazer emendas, e para emendar piso de um dia para o outro, era muito difícil fazer esta emenda de forma que não ficasse muito grosseira a emenda. Então este tipo de serviço, apenas eu, entre todos os pedreiros era capaz de fazer de forma que parecesse que não ouve emenda. Meu tio me escalava para este trabalho, eu ficava muito orgulhoso de receber dele o reconhecimento, coisa de garoto, esta função me deu impulso para desenvolver interesse por arte visual. Eu poderia ter me tornado um pintor, pois tenho habilidades com as mãos, penso que direcionei isso para a música. Enfim, história da minha vida junto ao meu tio, mestre de obras.

Eu tinha muito prazer em saber o quanto meu amado tio confiava em mim.

Nenê, sim em toda família tem um Nenê, geralmente quem nasce depois, ou como eu, o segundo filho. Nem sempre fui Evan, já contei como surgiu o Evan do Carmo. Na obra era muito estranho ser chamado de Nenê, entre os trabalhadores de meu tio, mas aos poucos fui aceitando meu nome de infância, foi na verdade uma namoradinha, outra, uma moreninha vizinha de uma obra no centro da cidade que aparecia lá nas horas de folga, para se deitar em minha rede, sim, muitas vezes eu ficava na obra, dormia nestas obras para adiantar o serviço, então esta namoradinha me disse: “Por que você não gosta do nome de Nenê?” 

Eu disse que não achava muito bom ser Nenê, mas dito por uma namorada até que não era muito ruim, era na verdade muito meigo, carinhoso. Então acabei deixando de lado esta minha irritação ao ser chamado de Nenê

Nesta época eu tinha uma calça amarela, de bocas largas, boca de sino, como era chamada. Eu achava linda esta calça amarela, nesta época tinha verdadeiro fascínio por amarelo. Acredito que esta calça ajudou a atrair esta namorada, especialmente. Meu tio outros trabalhadores dele tiravam onda de minha cara, porque esta menina era negra. Era linda, de cabelos enrolados, eu nunca tive preconceito, sempre gostei mais de morenas mesmo, na verdade não me lembro se tive alguma namorada loira. Nada contra as loiras, aliás, me lembro agora, tive uma namorada loira sim, uma linda mulher, mas foi nos idos dos anos 90, acho que foi em 91, mas esta história eu conto depois, foi um romance muito curto, mas intenso. Na verdade, eu já era casado com minha primeira mulher. Isso pode causar polêmica, mas como biógrafo tenho que ser o mais honesto possível. Contudo, será que vou conseguir dizer tudo que vivi, acho que não serei capaz de contar tudo, mas vou me esforçar para contar quase tudo.

Dizem que as boas biografias são aquelas que revelam coisas ocultas da vida de uma personalidade, todavia, todos nós temos segredos, coisas que não gostaríamos que viessem a público. Tenho lido muitas biografias e, de fato, o que me inspira são as belas histórias de vida, de superação, aquelas que mais nos passam verdades humanas. É claro que as fraquezas morais são também grandes ensinamentos para quem lê. Mas não esperem que um poeta lhe revele coisas grosseiras, ou atos ilícitos que não condiz com sua verdade atual. Somos assim, como diz certo poeta, uma ilha, uma ilha que no meu caso não tem livre a acesso para todas as pessoas. Minha mulher, minha querida Iranete, só ela talvez, caso eu morra antes dela, quem sabe ela poderá contar as coisas que omiti neste rascunho, neste escopo da minha história de vida.

Memória Musical

Lá na minha infância, digo lá entre os meus sete a onze anos, as lembranças são fragmentadas, recordo de algumas importantes. Como por exemplo as lembranças musicais, lembro vividamente de ver e ouvir os meus vizinhos, uns rapazes que tinham uma vazante ao lado da nossa, tocando violão. A música que mais me recordo é a canção: Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, música de Robertos Carlos, esta canção foi feita para Caetano Veloso, lógico que eu não tinha ideia do que se tratava, em que contexto fora escrita e com que objetivo, sei apenas que esta canção me causava profunda melancolia; o engraçado é perceber que ainda hoje, depois de saber tudo sobre esta canção, sua melodia ainda me causa a mesma melancolia, não é a letra. É  uma coisa intrigante, a linguagem secreta que contêm as melodias, são as melodias que nos causam profundos sentimentos, hoje entendo, sei porque a nona sinfonia por exemplo, me é tão cara, antes de saber as circunstâncias em que fora composta já sentia sua vibração criativa, escrevo como lunático quando escuto esta obra incomparável.

Como me tornei um admirador de músicas boas, embora minha formação tenha sido totalmente informal, autodidata, isto se deu com muitos gêneros. Na Bahia eu ouvia de tudo, mas antes de ir morar com meu tio, eu tive um encantamento absurdo pelo rádio. Meu tio Sebastião vivia nesta época trabalhando pelo mundo, e eu com nove anos, me lembro dele chegar de Paulo Afonso, segundo sei, também veio fugido, tinha se envolvido numa briga por causa de mulher. Chegou ele com um rádio de marca Moto rádio, era bege, mas a canção que me lembro que rádio tocava foi outra do Roberto Carlos: (Quando as crianças saírem de férias.) Outra vez o que me encantou nessa canção não foi a letra, como na outra, foi a melodia simples que me encantou. Não sabia que seria músico, e que um dia iria compor e produzir melodias iguais àquelas que ouvia. Quando somos crianças temos sonhos, contudo os artistas nascem e crescem e não mudam. Vivemos sonhando, eu posso afirmar que o sonho é minha matéria-prima para criar e impulsionar os sonhos dos outros. Penso que a missão do artista é mostrar para pessoas que não são artistas ainda, a sua capacidade de sonhar e criar sua própria história de vida, como uma obra de arte. Toda vida merece um romance, todo amor merece um poema, uma canção.

Minha memória música é muito rica, na casa do meu tio eu escutava muita MPB, e muito forró, meu tio era apaixonado pelo Trio Nordestino, um grupo que tocava forro, bem famoso na época. Todo suingue de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, eu ia assimilando, ouvindo estes artistas. Neste tempo eu já estava tentando aprendera  tocar violão, quando era possível não ir trabalhar, não raro eu pedia emprestado um violão de uns amigos para aprender sozinho, com a ajuda de revistas de cifras, e desta maneira aprendia a me acompanha ao violão, e a cantar algumas canções do Fagner, Fernando Mendes e outros.

Já com meus amigos da cidade eu aprendia o fino da bossa nova, pois a cidade era muito influenciada pelo João Gilberto, que é filho de Juazeiro, então tinha uma turma de jovens que se reunia para tocar só o melhor da MPB e da bossa nova. eu ia aprendendo, sobretudo por observar meus colegas virtuosos. Nessa época eu aprendi algumas canções do Djavan e Gilberto Gil, Milton Nascimento e, é claro, do Caetano Veloso. Foi de fato uma boa escola, a melhor possível, esta bagagem me deu suporte para quando eu chegasse em Brasília me arriscasse a viver de música, tocando nos bares da capital federal. Além de tudo isso, eu tinha um rádio, e aonde eu fosse o levava comigo, trabalhava nas obras ouvindo rádio o tempo todo, na verdade eu dormia ouvindo música no meu velho rádio de pilhas. Este costume eu carreguei por muito anos. Também tive grande influência do clássico, na casa de uma das namoradas, de uma das que teve um filho meu, eu ficava dias inteiros ouvindo vinil de muitos compositores clássicos, mas o mais importante foi Beethoven, como já disse, sobre meu encanto por Beethoven. Eu sabia de cor a melodia de suas sinfonias mais populares. Não só isso, eu era louco por Janis Joplin, ouvi tudo dela, esta namorada tinha recursos, então tinha uma grande discoteca com muita música boa.

A Mônica era filha de gente rica, ele tinha à disposição um carro, um Passat novo, era da família, mas como os pais viviam viajando, ela me dava a chave do carro e nós andávamos por todo a cidade. Eu sem carteira, mas já era muito habilidoso no volante. Mesmo habilidoso, segundo a minha própria concepção, mas um dia bati o carro voltando de uma festa, às 7 horas da manhã.

Meu tio também me deixava dirigir seu carro, algumas vezes. Ele tinha um belo chevette novinho, na verdade este carro não era dele, era de um chinês com quem ele fez uma sociedade em um restaurante, um chinês ladrão que não demorou lhe passou a perna, então este carro ficava com meu tio muitas vezes.

Um dia já era costume, eu pegar o carro pra dar uma volta, quase sempre com a desculpa de ir lavar,  até que um dia, voltando das minhas escapadas com o carro novo do chinês, em uma estrada de chão batido, por trás de uma arvores surgiu uns meninos em minha frente, o que fiz foi puxar o freio de mão e dei várias rodas com o carro, até parar na arvore. Não atropelei as crianças, mas acabei com a lateral do carro. O que fiz? Fugi de casa, fiquei fora por 15 dias, até passar a raiva do meu tio, quando voltei ele não fez nada comigo, só me chamou de descarado, era o adjetivo preferido dele para designar gente atoa como eu era. Para ele eu não tinha muito futuro, especialmente quando comecei a faltar no trabalho para aprender violão. Eu trabalhava quando me dava na telha, neste tempo eu passava dias fora de casa, meu tio de vez em quando me dizia, arrumei um trabalho pra você se ocupar por uma semana, então eu perguntava o que era que tinha pra fazer. Ele dizia.  “Tem dois mil tijolos para assentar, levantar paredes de um apartamento.” Eu ia, conforme ele mandava, só que em dois dias eu fazia o trabalho de uma semana, tudo isso para ficar livre o resto da semana para me dedicar ao violão e às namoradas.

Como meu irmão em Pernambuco.

Não há outra forma de escrever esta história, são fragmentos da minha vida, este capitulo é especial, embora não esteja em ordem cronológica, algumas lembranças são muito importantes.

Meu querido irmão Jadeilson sempre estava comigo, enquanto eu morava com meu tio, com uns dezessete pra dezoito anos fomos para Pernambuco, para construir casas para um senhor, de quem não lembro o nome. Sua fazenda ficava à beira do rio São Francisco, lugar com nome de Tamaquiu. Lá era só nós dois, na obra, alguns serviços de reforma, ficamos por lá por uns dois meses. Tínhamos uma vitrola, alguns discos de vinil, Fernando Mendes, Roberto Carlos, José Augusto, Fagner, foi muito divertido, todos os dias nós tomávamos banho rio, sempre subíamos pelo rio em um barco a remo. Havia sempre uma boa disputa para decidir quem iria remar o barco.

A princípio eu pensei que lá não ia ter namoro, que talvez nem tivesse mulher por lá. Mas tinha, uma garota que eu e meu irmão tivemos que disputar, claro, eu tinha uma vantagem, sabia tocar violão, e a moça aceitou namorar comigo, era feia, mas era o que tinha no momento. O namoro rolou na porta da casa da menina que era filha de alguém lá da fazenda, não me lembro mais nem o nome dela, só sei que foi namora quente. Mas a moça sabia que eu logo iria embora, por isso ficou só no namoro mesmo.

Foi um poema a nossa convivência, muito lazer e pouco serviço, comida era de primeira, muita carne de pouco. Fazíamos arroz com carne, que tempo incrível. Meu irmão é muito querido, até hoje temos uma linda relação fraternal. Ele mora perto de mim, mas não temos nos visto ultimamente, depois vocês saberão porque. Sempre falamos por telefone, outro dia algo muito significativo aconteceu. Ele me disse que nos últimos dez anos eu sou a única pessoa que diz que o ama.

Depois dessa temporada voltei para Juazeiro, mas logo fomos juntos para Barreira, que por coincidência também tem o rio são Francisco. Coisa estranha, este rio sempre estava perto de mim e eu perto dele, em Juazeiro, com 14 anos eu pulava da ponte corri muito perigo de morte juntos com uma molecada sem juíza, às vezes durante enchentes nós íamos fazer farra no rio, pular da ponta no rio durante as suas cheias, houve casos de garotos morrerem ao pularem da ponte, do mesmo lugar de onde eu pulava.

Fomos pra Barreira, meu irmão foi o desbravador, responsável por eu está hoje em Brasília, sua influencia foi muito importante, eu já não me dava muito bem com meu tio. Então fui com ele sem nenhum estrutura, chegamos em Barreiras fomos trabalhar em qualquer coisa que surgisse, onde morar não tínhamos, tempo difícil, pois de cara ficamos numa obra, uma casa em construção, sem telhado, era só paredes, de manhã ficávamos de uma lado, e à tarde do outro para proteger do sol. Era muito complicado, achar trabalho, meu Deus que loucura foi esta aventura em terra estranha, mas logo meu irmão arrumou trabalho, trabalho pesado, mas eu não tinha muita disposição para encarar a mesma labuta, até que entra a banda biriba Boys.

Logo encontrei um jeito de não ter que dar duro em obras como meu irmão fazia. Ele trabalhava enchendo caçamba, trabalho duro, mas eu conheci uma família que tinha uma banda, conjunto de baile que me acolheu. Foi outra escola de vida, na verdade foi um curso intensivo de música, eu conviva diariamente com os músicos. Foi lá que surgiu a chance de me tornar aquilo que eu sempre desejei, músico, artista.

Na banda eu fazia de tudo, assim minha função principal era carregar caixa, montar e desmontar instrumentos. Tinha bastante tempo vago, para explorar a cidade ribeirinha. Em barreiras tem uma ponte sobre um rio imenso, Rio São Francisco, duas cidades uma de cada lado, Barreiras e Barreirinhas. Era uma ponte de madeira, o rio era na época muito limpo e bom barra banhar, eu tomava banho praticamente todos os dias antes do almoço.

Impossível não narrar as minhas aventuras, meu deslumbramento com a beleza do rio, não havia sereias, mas tinha uma menina que tomava banho todo dia no mesmo lugar onde eu tomava, um criatura bem baixinha, mas de face muito bela. Coisa tola, que importa se ela era baixinha, afinal a menina tinha só quinze anos de idade, provavelmente ela tenha crescido mais que aquilo, mas no momento em que a conheci, pensei que ela fosse baixinha demais. Não estou me gabando, namorei esta menina, digo, namorei não é bem o termo, ficamos amigos, colegas de banho, ela era mulher, com apenas quinze anos, depois é que soube que a menina, a criança como eu a tinha em consideração era mulher da vida. Uau, isso foi muito impactante, eu fiquei profundamente abalado, em saber que a minha mais ressente aventura amorosa foi um fiasco, uma decepção imensa.

Na minha curta parada em Barreira, na verdade durou apenas um ano como dito antes, foi importante, mas eu ainda continuava imaturo, sobre muitas coisas, sobretudo sobre mulheres. Na banda havia um cantor, João Biriba, que infelizmente soube de sua morte há poucos meses, durante a pandemia. Este amigo, João, era quem me levava depois dos bailes para conhecer seu mundo, seu estilo de vida. João era muito gente fina. Por andar com ele eu, vez por outra me arrumava com alguma moça, gente que ele já conhecia por conta da banda, gente que seguia de perto seu trabalho de cantor. Eu, coitado de mim, uma vez ele me apresentou uma mulher, esta mulher feita, um pouco baixa também, mas não teria mais para onde crescer. Carmelita, ela era uma linda mulher, segundo meu juízo atual, mas o que mais chamavam a atenção eram seus dotes femininos e atributos físicos, muita areia para meu caminhão. Mas como garoto presunçoso eu achava que poderia dar conta daquilo tudo, ficamos como que amigos, e vez por outra ela me chamava pra ir até a sua casa. Sim, ela ainda morava sozinha, trabalhava e tudo, gente normal, não era artista. Um dia ao ir com ela até a sua casa, chegando lá começou chover muito, eu nunca tinha tido nada com ela, pois eu pensava, pela intimidade dos dois, que ela era caso do João, e era mesmo só soube depois. João era gordo, feio, mas era pegador, sim um verdadeiro Don Juan, não um zé ruela como eu. Porque digo isso? É só olhar o desastre que foi minha vida amorosa até aqui, Esta bela mulher resolveu me testar, me deu um pouco de vinho, estava chovendo muito torrencialmente. Um cenário ideal para um breve romance entre amigos, será?

Imaginem a cena, um garoto de 18 anos, no auge da sua força sexual, diante de uma mulher como essa, lógico que seria um paraíso esta noite. Não foi. Não vou descrever detalhes do que aconteceu, afinal não se trata de um romance hot, apenas vou dizer quão grande foi a minha decepção, decepção comigo mesmo, pois aparentemente não havia nada de errado com a mulher em questão, contudo, depois de alguns beijos, fomos para cama, mas eu não dei conta da mulher, fiquei nervoso, desesperado depois, e no final das contas foi um desastre total, não funcionou, eu fiquei no vaco. Hoje penso, será que essa mulher fez alguma magia para que eu ficasse inativo, paralisado? Sei lá. Conto isso dando boas risadas de mim mesmo, como eu era estúpido e presunçoso, ela não era para mim, eu não estava acostumado com este tipo de mulher.

 Fiquei só com a frustração eterna, até hoje não sei o que aconteceu. Será que o vinho que me deu estava batizado, pode ser uma boa e provável hipótese.

Creio que precisava de ajuda para me relacionar com mulheres maduras e, no meio em que eu viva tudo poderia acontecer, especialmente com um cara sem juízo como eu era no momento, talvez destemido demais.

Depois, na mesma época não sei determinar se foi antes ou depois, provavelmente depois desse fato, eu me envolvi pra valer com uma mulher casada, aí o bicho pegou de fato. Era uma jovem senhora de 33 anos, morena e muita bonita, eu tinha uma relação de amizade com o casal, o marido era um cara à toa, claro que isso não justiça minha fraqueza moral, ou sexual, fato é que neste caso eu fui seduzido. Isso mesmo, creio que estou certo ao afirmar, fui seduzido pela minha conduta falha neste contexto, e por se tratar de uma mulher carente. Segundo ela, o marido não lhe dava afeto nem carinho e muito menos a satisfazia em sentido sexual, não posso dizer que isso era verdade, só sei que o homem era de fato complicado. Se embriagava todo dia, e muitas vezes não vinha para casa. Então era nestas noites de solidão que acontecia nosso romance secreto. Durou alguns meses, mas acredito que foi esta mulher quem me ensinou algumas coisas com relação a entender as mulheres, saber o que as fazem felizes. Pode ser, não se trata de julgamento, são fatos que eu acho relevantes na minha formação como homem, digo homem, não no sentido de caráter, pois todas estas ações são humanas, contudo falsos moralistas podem me atirar pedras, ou talvez aqueles que não tiveram que viver, por força de circunstância experiencias tão complexas como as que vivi.

Fiquei em Barreiras com meu irmão um ano e voltei para Juazeiro.

A fuga

Aconteceu que do nada me apareceu a Joana Darc, com uma filha nos braços dizendo que era minha, filha que eu não imaginava existir. Eu tinha apenas a lembrança da ultima vez em que nos vimos, em que nos esfregamos, pois aquilo não foi uma relação de fato, jamais pensei que poderia ter a engravidado, mas é fato que não tive até hoje a comprovação cientifica de que Luana seja  minha filha, mas a aceitei como tal. Embora não tenhamos convivido na mesma casa, quando ela completou dez anos, a mãe permitiu que ela viesse para Brasília, para tentarmos uma aproximação, uma convivência como pai e filha. Outra vez foi minha amada Iranete quem deu o norte, além de aceitar a menina em nossa casa, Iranete também sugeriu que eu a registrasse como filha.

Eu fui perguntar para ela se ela queria ser minha filha no papel, ela disse que sim, como poderia negar isso a uma criança que apesar de tudo, da minha ausência, mesmo assim já me amava como pai.

Ah, e a fuga como se deu? Eu realmente acreditava que Joana fosse capaz de me matar, dizem que mulher quando se arreta, sobretudo neste contexto de triângulo amoroso de tudo é capaz. Foi a primeira vez que tive medo de morrer, depois de aprontar tanto com as meninas, depois de destruir alguns noivados, pensei que aquilo era castigo de Deus, então tratei de fugir. Contei para meu tio, que entendia bem dessas coisas de como escapar de mulheres perigosas. Mas ele não quis me ajudar, talvez desejasse que eu me casasse com 19 anos, não. Só sei que ele nada fez para me ajudar a fugir.

Meu irmão sim, liguei para ele que logo me mandou dinheiro para eu ir ao encontro dele.

Eu só lembrava das palavras da Joana, de arma em punho, isso na frente da mãe que apenas dizia: “Para de brincadeira, Joana,”. Mas não mostrava muita preocupação quanto a se ela seria ou não capaz de atirar em mim. Penso que se ela realmente quisesse me matar teria feito naquela hora, mas agi em estado de desespero, não vi outra possibilidade, a não ser fugir, assim fugiria das duas, eu não amava nenhuma nem outra, tudo foi fruto das circunstâncias, a fuga, mesmo que inconscientemente era a solução para todos os meus problemas de cunho amoroso.

Joana esperava que eu me casasse com ela, eu dei a entender que sim, que iria largar a Mônica e me casar com ela, mas em uma noite fria, eu peguei minha trouxa de roupas e vasei, como diria os jovens de hoje.

Fui para rodoviária, e assustado como quem foge da cena de um crime, eu olhava para os lados, para mim ela ia aparecer em minha frente a qualquer momento, claro, dando tiros em mim. Mas felizmente isso não aconteceu, era tudo fruto da minha alucinada imaginação. Peguei um ônibus para Brasília, meu irmão Jadeilson vivia lá. Não me lembro de como cheguei, a viagem toda está apagada em minha mente, só lembro da saída. Importa é que cheguei em Brasília.

Em Brasília

Cheguei em Brasília, meu Irmão me recebeu de braços e coração abertos. Eu pensei, agora eu vou mudar de vida, largar este negócio de me envolver com mulheres em cada esquina, em cada porto. Meu irmão vivia com um casal de amigos, em um quarto de 15 metros quadrados. Eu pensei, onde diabos eu vim parar? Como poderia viver quatro pessoas em cômodo tão pequeno, mas foi o que rolou. Por algum tempo tivemos que nos adaptar, pelo menos tinha comida, um colchão para dormir e um banheiro. A comparar com a vida que tivemos por um tempo em Barreira, morando em construções sem telhados, debaixo de sol e chuva, esta estadia era mil vezes mais segura e confortável. Depois eu tinha mais era que agradecer a bondade do meu irmão e também do casal por me acolher. Meu irmão trabalhava com este amigo que também era pedreiro. Uma história meio complicada, com a permissão dele, vou contar brevemente quem era este casal. Bem, o homem chamava-se Camilo, a mulher Caminha. Carminha hoje é minha cunhada. O casal se separou, o marido voltou para o Maranhão, e eu fiquei morando com o novo casal, que agora era a Caminha e meu irmão. Coisa doida, mas eles estão casados até hoje.

A cidade de Brasília onde vim morar como meu irmão é Gama, cidade satélite de Brasília. Em 1984, uma boa cidade, morávamos no setor leste, na quadra 34. Ao lado da casa em que nós morávamos havia uma família, o dono da casa era um policial, Joaquim, e a esposa era dona Bárbara, uma senhora mais velha que o marido, com grande diferença de idade, coisa de uns vinte anos, muitos filhos, a maioria mulher, apenas dois garotos.  Eu logo dei conta de que a vizinha tinha uma filha moça, bem nova, apenas 14 anos. Célia Regina, pequena e frágil e eu muito carente, comecei a olhar para menina e ela também logo me notou, não demorou estávamos nós namorando no portão, muitas vezes pelos buracos da parede. Eu ficava muito tempo em casa enquanto meu irmão ia trabalhar junto com a sua mulher. Eu que pensava que não ia me enrolar tão cedo com mulheres, mas a Regina era especial, uma criança praticamente, muito meiga e inocente. Ela logo se apegou muito a mim, jurávamos amor eterno, mas eu não ia ficar ali, parado olhando o tempo passar, sem expectativa de futuro, só trabalhar de pedreiro como meu irmão ou virar policial como o padrasto de Regina.

Em frente à casa em que morávamos havia um músico, guitarrista, o Gilson. Ele aceitou minha amizade, logo estava me levando com ele para ver os bailes no Plano Piloto, Gilson tocava numa banda importante, a Banda do Sol, eu gostava muito de estar com este meu amigo, ele era gente boa, começou a me dar os toques sobre harmonia, de como tocar violão e cantar, isso só veio somar ao que eu já sabia. Não demorou muito eu fui tocar na noite. Então minha vida mudou outra vez.

Nos bares

Fui arrumar emprego como cantor, em um restaurante no setor sul do Gama, no “Esquina,” de propriedade de uma senhora muito gentil, senhora Josina. O filho era o Sérgio, que virou meu amigo. Era ele quem cuidada de tudo. Gostou do meu som e de mim. Então fiquei tocando nesta casa por um longo período. Contudo, durante este tempo em que virei artista da noite, o meu namoro com Regina ficou bem sério, até aparecer outra pessoa. No bar em que eu tocava era muito bem frequentado por jovens e adultos, muitas famílias, a vizinhança toda tinha ali um lugar de entretenimento, então a maioria da clientela era os vizinhos da quadra mesmo.

Numa noite dessas apareceu uma turma por lá, uns três casais, algumas mulheres sozinhas, entre essas, havia uma moça de cabelos preto e longo, olhos grandes e queijo largo. A moça tinha seus 18 anos por aí. Eu não me encantei à primeira vista como era de costume, mas demos umas boas olhadas um para o outro. Quando parei de tocar fui apresentado a todos da mesa, ela na verdade estava com duas irmãs, e uma amiga que namorava com um cabo dos bombeiros. Este era bombeiro-músico, baterista. Foi por isso que logo travamos uma relação de amizade, e junto com isso, mais intimidade com a moça, que se-chamava Leda.

A Leda era mulher bonita, mulher feita com 18 anos, enquanto eu namorava uma menina de 15. A diferença era muito grande, no que diz respeito às liberdades que eu tinha com uma e com a outra. Com Regina era só namoro arrochado, mas era só namoro. Com a Leda, em pouco tempo já tínhamos uma relação mais intima. Ela gostava de festa, não raro enquanto eu tocava ela se mandava nos bares da vida com seus amigos, por isso não me sentia muito confortável na relação, talvez por isso eu continuava namorando a outra.

O pai da Leda que era separado da esposa, morava com outra mulher em outro bairro, no setor leste. Houve um tempo em que o seu pai viajou para o Ceará e deixou a chave da casa com ela. Foi neste curto espaço de tempo que fizemos sexo pela primeira vez. Era muito confortável ir para esta casa, ficar lá como se fôssemos marido e mulher. A liberdade que tínhamos era muita, por isso apressamos o passo e o casamento, pois havia uma suspeita de que ela estivesse grávida. Mas não estava. Mas foi passando o tempo, eu fui me acomodando na família dela, pois a casa dela fica bem à frente do bar. A família era acolhedora, antes de um ano de namoro já estávamos pensando em nos casar. Eu ainda namorava a Regina, escondido. Se fazia isso, já era por covardia, era cômodo ter duas namoradas, afinal eu estava mal-acostumado, era quase uma cultura minha, cultura machista. Então quando a Leda suspeitou que poderia estar grávida, aí eu tive que me decidir. E desta vez eu escolheria casar e criar meu filho. Não seria mais como antes, então com 21 anos me casei, tive que largar a Regina. Foi traumático, lembro que teve um noivado, uma festinha na casa de dona Antônia. Neste dia eu tive que contar para Regina, não podíamos mais fingir que não estava com o casamento marcado com a Leda. Foi muito triste nosso final de namoro, mas foi o certo a fazer.

Então agora era planejar tudo, onde morar, estas coisas práticas que eu ainda não sabia por onde começar. A família da Leda, como disse, me acolheu muito bem. Especialmente a mãe dela, a dona Antônia, gente fina. Era viciada em pinga, na época, mais era muito afetuosa, quando eu podia dava pra ela um quilo de carne, ela gostava muita. Ela era muito solidária também, um verdadeiro amparo para mim, jamais esquecerei de sua bondade. Então me ofereceu os fundos de sua casa para que eu construísse um lugar para morar e criar meu filho. Foi rápido, com a ajuda da família, de alguns concunhados que eram pedreiros como eu, fizemos logo três cômodos, uma casinha razoável. Nos casamos apenas no civil. Quando o Heverson nasceu, um ano depois do nosso casamento, já estava tudo arrumadinho. A emoção de ter um filho e ter visto a barriga crescer, acompanhar tudo de perto me deu a verdadeira sensação do que é ser pai de fato.

Quando meu filho nasceu, eu fui vê-lo ainda no hospital, foi uma sensação indescritível. Lembro que, quando entrei para vê-lo era quase noite, consegui entrar com a ajuda de alguém que trabalhava no hospital do Gama. Entrei e pude vê-lo de longe, depois disso só no outro dia, em casa. Quando ele chegou foi uma festa, recebê-lo e por ele no seu berço, olhar pra ele por horas e dias a fio, foram dias especiais. Me tornei outro homem, meu filho era um homenzinho que agora precisava dos meus cuidados. Tenho este instinto paternal natural, não sei bem a razão, logo eu que não tive a presença do meu pai em minha vida, pois perdi o meu aos 11 anos, mesmo assim desenvolvi um afeto que só se ver nas mães amorosas. Não é bonito falar bem de si próprio, mas neste assunto tenho franqueza no falar, quem me conhece pode confirmar isso, além dos meus filhos é claro, a palavra deles é que vale para mim. Eu sou assim, este pai-mãe. Só sei que tê-lo nos meus braços e na minha vida, fez minha vida tomar outro sentido, outro significado. Ser pai, com 22 anos era um desafio muito grande, especialmente para quem não estava acostumado com grandes responsabilidades, mas fui tocando a vida, procurando fazer o meu melhor.

Nossa vida, no começo era calma e simples, eu trabalhava de pedreiro e de cantor para dar conta das minhas obrigações, não dava para sustentar uma família só tocando apenas nos finais de semana.

Heverson foi crescendo, com quatro meses ele já balbuciava frases indescritíveis, eu imaginava ouvir ele me chamar de pai, mas era só meu desejo de ouvir sua voz, vontade de conversar com ele, levar um papo de homem pra homem. Nesta época eu não tinha amigos, não amigos de verdade, apenas colegas, músicos, queria ter um amigo, e esperava ele crescer, ansioso para que nos tornássemos os melhores amigos. E foi isso que aconteceu.

Meu casamento com Leda não resistiu ao modo de vida que tínhamos, eu na noite tocando, e ele na farra, eram brigas e mais brigas. Não deu certo, com a separação aí começou de fato minha luta para ficar com meu filho foram dias difíceis, anos de luta para conseguir trazer ele para ficar comigo, para que fosse criado da melhor maneira possível, para se tornar o homem que ele é hoje.

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