Memória Musical

Lá na minha infância, digo lá entre os meus sete a onze anos, as lembranças são fragmentadas, recordo de algumas importantes. Como por exemplo as lembranças musicais, lembro vividamente de ver e ouvir os meus vizinhos, uns rapazes que tinham uma vazante ao lado da nossa, tocando violão. A música que mais me recordo é a canção: Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, música de Robertos Carlos, esta canção foi feita para Caetano Veloso, lógico que eu não tinha ideia do que se tratava, em que contexto fora escrita e com que objetivo, sei apenas que esta canção me causava profunda melancolia; o engraçado é perceber que ainda hoje, depois de saber tudo sobre esta canção, sua melodia ainda me causa a mesma melancolia, não é a letra. É  uma coisa intrigante, a linguagem secreta que contêm as melodias, são as melodias que nos causam profundos sentimentos, hoje entendo, sei porque a nona sinfonia por exemplo, me é tão cara, antes de saber as circunstâncias em que fora composta já sentia sua vibração criativa, escrevo como lunático quando escuto esta obra incomparável.

Como me tornei um admirador de músicas boas, embora minha formação tenha sido totalmente informal, autodidata, isto se deu com muitos gêneros. Na Bahia eu ouvia de tudo, mas antes de ir morar com meu tio, eu tive um encantamento absurdo pelo rádio. Meu tio Sebastião vivia nesta época trabalhando pelo mundo, e eu com nove anos, me lembro dele chegar de Paulo Afonso, segundo sei, também veio fugido, tinha se envolvido numa briga por causa de mulher. Chegou ele com um rádio de marca Moto rádio, era bege, mas a canção que me lembro que rádio tocava foi outra do Roberto Carlos: (Quando as crianças saírem de férias.) Outra vez o que me encantou nessa canção não foi a letra, como na outra, foi a melodia simples que me encantou. Não sabia que seria músico, e que um dia iria compor e produzir melodias iguais àquelas que ouvia. Quando somos crianças temos sonhos, contudo os artistas nascem e crescem e não mudam. Vivemos sonhando, eu posso afirmar que o sonho é minha matéria-prima para criar e impulsionar os sonhos dos outros. Penso que a missão do artista é mostrar para pessoas que não são artistas ainda, a sua capacidade de sonhar e criar sua própria história de vida, como uma obra de arte. Toda vida merece um romance, todo amor merece um poema, uma canção.

Minha memória música é muito rica, na casa do meu tio eu escutava muita MPB, e muito forró, meu tio era apaixonado pelo Trio Nordestino, um grupo que tocava forro, bem famoso na época. Todo suingue de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, eu ia assimilando, ouvindo estes artistas. Neste tempo eu já estava tentando aprendera  tocar violão, quando era possível não ir trabalhar, não raro eu pedia emprestado um violão de uns amigos para aprender sozinho, com a ajuda de revistas de cifras, e desta maneira aprendia a me acompanha ao violão, e a cantar algumas canções do Fagner, Fernando Mendes e outros.

Já com meus amigos da cidade eu aprendia o fino da bossa nova, pois a cidade era muito influenciada pelo João Gilberto, que é filho de Juazeiro, então tinha uma turma de jovens que se reunia para tocar só o melhor da MPB e da bossa nova. eu ia aprendendo, sobretudo por observar meus colegas virtuosos. Nessa época eu aprendi algumas canções do Djavan e Gilberto Gil, Milton Nascimento e, é claro, do Caetano Veloso. Foi de fato uma boa escola, a melhor possível, esta bagagem me deu suporte para quando eu chegasse em Brasília me arriscasse a viver de música, tocando nos bares da capital federal. Além de tudo isso, eu tinha um rádio, e aonde eu fosse o levava comigo, trabalhava nas obras ouvindo rádio o tempo todo, na verdade eu dormia ouvindo música no meu velho rádio de pilhas. Este costume eu carreguei por muito anos. Também tive grande influência do clássico, na casa de uma das namoradas, de uma das que teve um filho meu, eu ficava dias inteiros ouvindo vinil de muitos compositores clássicos, mas o mais importante foi Beethoven, como já disse, sobre meu encanto por Beethoven. Eu sabia de cor a melodia de suas sinfonias mais populares. Não só isso, eu era louco por Janis Joplin, ouvi tudo dela, esta namorada tinha recursos, então tinha uma grande discoteca com muita música boa.

A Mônica era filha de gente rica, ele tinha à disposição um carro, um passat novo, era da família, mas como os pais viviam viajando, ela me dava a chave do carro e nós andávamos por todo a cidade. Eu sem carteira, mas já era muito habilidoso no volante. Mesmo habilidoso, segundo a minha própria concepção, mas um dia bati o carro voltando de uma festa, às 7 horas da manhã.

Meu tio também me deixava dirigir seu carro, algumas vezes. Ele tinha um belo chevette novinho, na verdade este carro não era dele, era de um chinês com quem ele fez uma sociedade em um restaurante, um chinês ladrão que não demorou lhe passou a perna, então este carro ficava com meu tio muitas vezes.

Um dia já era costume, eu pegar o carro pra dar uma volta, quase sempre com a desculpa de ir lavar,  até que um dia, voltando das minhas escapadas com o carro novo do chinês, em uma estrada de chão batido, por trás de uma arvore surgiu uns meninos em minha frente, o que fiz foi puxar o freio de mão e dei várias rodas com o carro, até parar na arvore. Não atropelei as crianças, mas acabei com a lateral do carro. O que fiz? Fugi de casa, fiquei fora por 15 dias, até passar a raiva do meu tio, quando voltei ele não fez nada comigo, só me chamou de descarado, era o adjetivo preferido dele para designar gente atoa como eu era. Para ele eu não tinha muito futuro, especialmente quando comecei a faltar no trabalho para aprender violão. Eu trabalhava quando me dava na telha, neste tempo eu passava dias fora de casa, meu tio de vez em quando me dizia, arrumei um trabalho pra você se ocupar por uma semana, então eu perguntava o que era que tinha pra fazer. Ele dizia.  “Tem dois mil tijolos para assentar, levantar paredes de um apartamento.” Eu ia, conforme ele mandava, só que em dois dias eu fazia o trabalho de uma semana, tudo isso para ficar livre o resto da semana para me dedicar ao violão e às namoradas.

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