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                                                  Um Dólar por dia – vergonha coletiva

Este é um crime do qual todos nós somos culpados perpétuos: 1,2 mil milhões de pessoas, vitimas da pobreza extrema, vivem com apenas um dólar por dia

“O Comité Nobel norueguês atribuiu o prémio ao pioneiro do microcrédito Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, fundado no Bangladesh, que demonstraram que mesmo os mais pobres dos pobres podem trabalhar para criar o seu próprio desenvolvimento.”

Estudiosos do mundo desenvolvido, que também são vitimas do consumismo exacerbado praticado no ocidente, acreditam que a pobreza está intimamente relacionada com a falta de educação. Estes senhores bem nutridos culpam os pobres pelo descontrole social do planeta, chegam ao extremo absurdo de dizerem que as guerras cessariam, se todos os seres humanos tivessem o que comer e o que vestir. Pensam que a paz global seria conquistada com alguns pedaços de pães e alguns copos de água potável.
No mundo todo, cada pessoa dentro de um grupo de seis sobrevive com um dólar por dia. O que se pode comprar com um dólar? No Brasil, por exemplo, talvez se compre um litro de gasolina, dependendo da variação do câmbio.  Ou quem sabe meio quilo de carne de segunda, ou um litro de leite. Se pararmos para pensar, que gastamos vinte reais em média para tomar um café expresso e uma garrafa de água mineral, em um shopping qualquer de Brasília – nos sentiríamos ricos.

Alimentamos um monstro vorás diariamente com o nosso consumismo. Há um provérbio que diz: “Não usamos dois pares de sapatos ao mesmo tempo”, todavia, gostamos de acumular, saber que em casa há outras dezenas ou centenas de outros pares de sapatos que nos dão uma falsa segurança. Isto ocorre com quase tudo que usamos: camisas, relógios, e até computadores e celulares. Guardamos muitas coisas supérfluas, muitos objetos dos quais certamente nunca faremos uso.

Os governos preferem oferecer ajuda ao invés de oferecer oportunidades, “bolsa pobreza” por aqui tem o famigerado nome de “bolsa família”.  A pobreza é fruto ácido que as políticas públicas produzem inversamente. A corrupção e a má gestão travam o crescimento do país, com isto as empresas cortam gastos e mão de obra, e o resultado está aí, estamos vivendo, sobretudo no Brasil, uma crise que logo se transformará em recessão aguda, com isto os que antes eram pobres, amparados por bolsas e outros benefícios do estado se tornam cada dia mais carentes, miseráveis sem esperança, sem futuro, logo não terão sequer um dólar por dia para alimentar seus filhos.

A pobreza extrema, segundo dados internacionais, é “viver” com menos de um dólar por dia e pobreza moderada com menos de dois dólares (1,60 euros), estimando que 1,2 mil milhões de pessoas se encontram no primeiro caso e 2,7 mil milhões no segundo.

Apenas na África, 314 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. Não temos estudos sérios com respeito ao Brasil, porque aqui tudo é maquiado, até as contas do governo, para vender um país que estaria dando certo, que venceu a pobreza e a falta de condições mínimas de sobrevivência e cidadania. Contudo, existe um país que não conhecemos, ou que ignoramos – um Brasil que sustenta a política imoral e corrupta, que ora está sendo exposta ao mundo. Eis a nossa maior vergonha coletiva, e a causa da nossa miséria social: A política paternalista que não dá dignidade ao cidadão, ao ser humano.

Cidadania Plena – não pela metade

Cidadania: o que quer dizer esta expressão etimológica? No latim, civitas, ou seja, “cidade”. Contudo, cidadania, a priori, mesmo que insuficiente, cria uma concepção social de inclusão de um indivíduo em uma sociedade, num país ou estado. Uma vez incluso, este cidadão passa a usufruiu uma série de direitos, e a se submeter a um conjunto de deveres, obrigações que lhe conferem o status de cidadão civilizadamente correto.

Todavia, há muito mais a ser posto à prova, para se verificar se há de fato um exercício de cidadania plena, ou pelo menos aproximado, daquilo que se encaixa ao modelo proposto pelos gregos, sobretudo nos direitos e deveres relacionados ao estado do qual se faz parte.

A cidadania, como entendemos, pode até ser simplificada demais, pois para o senso comum ela se traduz como o entendimento intelectual, a posse de direitos e deveres do cidadão onde mesmo para ter seus direitos respeitados, precisa, da mesma forma, cumprir seus deveres junto à sociedade da qual está inserido.

A cidadania, por uma ótica social desejada, seria de fato imprescindível para a vida em comunidade. Tendo o homem conhecimento cabal dos seus deveres e direitos, sobretudo de suas responsabilidades para o bem comum, para o aperfeiçoamento da coletividade. Portanto, uma vez que o cidadão seja plenamente esclarecido quanto aos seus deveres, pode ser um agente construtor de uma vida mais justa, e com isto poderá deixar para trás seu comportamento egoísta, que antes dava prioridade ao individualismo.

“Está na Constituição Brasileira, todo o cidadão tem Direitos Civis, Políticos e Sociais assegurados. Os Direitos Civis são aqueles relacionados ao direito de segurança, de dispor do próprio corpo, direito de ir e vir, etc. Os Direitos Políticos estão relacionados ao direito de livre expressão do pensamento, à liberdade da prática política, à liberdade religiosa. Já os Direitos Sociais são os que dizem respeito ao atendimento das necessidades básicas do ser humano, como: direito à alimentação, à saúde, à educação, à moradia. Cidadania é, portanto, o direito à vida em seu sentido pleno.”

Contudo, ainda podemos inferir que cidadania pode ser mais regularmente definida pelos princípios democráticos do que por exigências sociais – de fato as expressões cidadão e cidadania estão ligeiramente ligadas ao exercício e a observância da democracia vigente, sob a égide do estado de direito. Todavia isto ocorre principalmente em época de eleição, é justamente neste período singular, que muito se ouve falar para que o eleitor não abra mão dos seus direitos à cidadania pelo voto, quando na verdade os princípios da democracia deviam, sobretudo facultar ao cidadão as condições legais, para construir espaços sociais e movimentos permanentes, com fim de discutir e aprovar pareceres, e indicar soluções sobre a política de bem estar público. No entanto o que se observa é uma cidadania passiva conferida ao cidadão pelo estado, quando ele apenas exige que se pratique a cidadania em benefício próprio, para que o mesmo funcione politicamente, mas que em contrapartida não permite nem incentiva a cidadania ativa, não há cidadania, por exemplo, quando o estado não oferece bens públicos de forma global, igualitária, não se pode chamar de cidadão, o indivíduo que não tem acesso à educação nem à saúde.

Um levantamento do Instituto Trata Brasil mostra que o país não conseguirá alcançar a universalização do sistema nos próximos 20 anos se o trabalho de implantar serviços de água e esgoto continuar no ritmo observado. A conclusão aponta para uma lentidão nos investimentos no saneamento por parte das três esferas de governo — nacional, estadual e municipal. O projeto de contemplar 100% das localidades brasileiras com saneamento básico nos próximos 20 anos, portanto, já está comprometida.

Não precisamos ir longe nem pesquisar muito sobre o tema, pois em qualquer lugar que formos dentro Brasil, seja no sul ou no norte, constataremos a desigualdade social e suas consequências na qualidade de vida do brasileiro. Contudo, no que tange à democracia, ao direito de votar e ser votado, somos exemplo de cidadania para o mundo, o que nos falta é uma consciência social mais questionadora, pois agindo desta forma como temos feito por décadas de liberdade democrática, não tendo em mente o que de fato significa cidadania plena, seremos apenas cidadãos de terceira classe, como costumam cognominar os brasileiros mundo afora, especialmente quando se trata de exercermos plenamente os nossos direitos, e não apenas os nossos deveres.

 

 

Somos todos culpados

Há um princípio democrático no erro. Todos os homens são culpados. A miséria do mundo é resultado de uma desigualdade social que foi criada por homens tiranos, desde Ninrode, o famoso caçador que fundou a primeira hegemonia intelectual e física, a ideia de uma cidade onde as pessoas deviam habitar sobre o comando de um líder cruel, que torturava e matava os que não se dobrassem aos seus mandos e desmandos. “Segundo a Bíblia, o reinado de Ninrode incluía as cidades de Babel, Ereque, Acádia e Calné, todas na terra de Sinear ou Senaar. Foi, provavelmente, sob o seu comando que se iniciou a construção de Babel e da sua torre. Tal conclusão está de acordo com o conceito judaico tradicional”.

Acervo/ Museu de San Petesburgo

Portanto, a meu ver, não há democracia fora da culpa de todos os homens. Se os fracos se dobram frente aos poderosos, o fazem por medo e covardia e agem como um animal doente, o instinto natural deu lugar ao amofinamento, daí, desde muito tempo, quando homem começou a dominar sobre outros homens, surgiu uma raça de homens fracos, e cada vez mais, os fortes se tornaram mais fortes, conseguiram dominar não porque tinham mais força, mas porque conservavam um histórico de supremacia, preservado por meio de lendas escritas e relatos verbais passados de geração em geração.

Ajuntaram assim fama e capital, surgiram as classes, apenas duas de fato, os que mandam e os que obedecem. Hoje, se tenta descriminar os homens por várias classes sociais, mas é tudo uma maneira de camuflar uma verdade vergonhosa. Há um poder que nunca muda de mãos nem de bolso, como água que corre para o mar, quem tem dinheiro atrai mais dinheiro, e este dinheiro só pode vir da exploração da mão-de-obra dos fracos, daqueles que nunca mudaram de classe – a classe dos comandados, dos explorados e oprimidos.

Portanto, não há uma Luta de Classe como queria Karl Marx, aliás, existe uma classe que massacra e outra que aceita, não reage nem se defende. Isto está de acordo com o pensamento de Nietzsche sobre o sistema político, que coloca os homens apenas em duas classes: uma é instrumento e a outra, inimigo.

Todavia, pelo menos para alguns, há ainda uma expectativa esperançosa de que a classe dominante desenvolva uma forma de educação capaz de esclarecer a classe dominada, qual é de fato a sua real condição de miséria social. Mas se perguntássemos ao Paulo Freire sobre esta possibilidade, ele nos diria que isto é uma grande e cruel utopia.

Falta-nos conhecer e praticar a verdadeira democracia, a democracia da culpa, somos todos culpados, malignamente culpados por esta desigualdade entre homens, entre irmãos. O poder muda de mãos, mas o espírito é o mesmo: o espírito da vaidade.

Portanto, se aprendessem a dividir, tanto os seus bens quanto a sua culpa, os homens encontrariam um objetivo comum, seriam mais unidos na busca da felicidader, pelo menos, suportariam melhor uns aos outros.

É cruel a nossa desumanidade, como bem disse Albert Camus sobre a solidariedade: “Os homens deviam ser solidários uns com os outros, pelo simples fato de saberem que todos terão o mesmo fim: a morte”.

Processo Criativo do artista, escritores e poetas.

Muito se perguntam como se dá o processo criativo de escritores, poetas, pintores, músicos e artistas em geral. Há, contudo, um consenso sobre o processo criativo, o de que ele se dá primeiro pela percepção cognitiva, por meio das experiências vividas; sejam elas vividas no mundo real ou nas experiências literárias.

Penso que este processo ocorre de modo distinto para cada artista. Todavia, creio ser impossível se produzir alguma coisa a partir do nada, mesmo as obras ficcionais não fogem à regra, daquilo que conhecemos como Angústia da Influência.

Por exemplo, quem primeiro estudar a obra de Kafka não achará que Saramago seja um gênio. Ou se tivermos familiarizados com a literatura russa, sobretudo com Dostoiévski, não nos surpreenderíamos com as ideias kafkanianas.

Às vezes nos perguntamos, onde Cervantes foi buscar seu cavaleiro da triste figura? Ele nos revela, nos livros que leu, milhares deles, que certamente lhes forneceram o escopo, a ideia mestra para sua magistral criação, ele só inverteu seus arquétipos de grandes guerreiros.

T.S Eliot é defensor ferrenho da ideia das influências de autores antigos sobre os novos. Segundo ele não há nada de novo nem de criativo nas obras modernas, trata-se de imitações necessárias, mas a meu ver é um preconceito débil, anular o esforço criativo de tantos outros escritores que surgiram depois de Goethe, de Shakespeare e Cervantes.

Nas minhas palestras e oficinas literárias, faço bastante uso de imagens para provocar o senso crítico e a criatividade dos meus alunos. Não raro apresento idéias por meio de fotos, para que eles, a partir dessas construam seus textos.

Por exemplo, há um momento em que lhes mostro uma foto, onde tem um poste de luz e uma mariposa fazendo o seu ritual suicida em forma de balé. Então pergunto o que pode ser extraído desta fascinante cena carregada de simbolismo poético e até metafísico.

A mariposa é uma bailarina suicida. Poderíamos partir desta expressão para construir um texto, sobretudo se fosse nossa intenção fazer poesia com a leitura desta magnífica imagem. Mas se formos nos ater apenas à imagem, escreveríamos uma crônica, seria necessário portanto buscar mais informações sobre a nossa imagem, onde fica o poste, em que cidade, que horas são, e assim por diante. Contudo, nossa crônica nada mais seria que uma fotografia em movimento.

Voltemos portanto à imagem da mariposa em seu ritual sagrado. Ela gira em torno da luz, e acredita que este círculo iluminado seja seu mundo, e neste mundo ela se realiza ou realiza sua função natural, que é morrer. Posso escrever no entanto que a mariposa simboliza a insignificante vida do homem, que passa toda sua existência andando em círculo, em volta do mundo que lhe couber conhecer.

Portanto quem escreve, escreve com as substâncias que possui em seu mundo criativo, mas cada um ser percebe e descreve o mundo de modo singular. Desta forma, criamos daquilo que possuímos, pintamos com as tintas que conseguimos produzir.

Vale lembrar, no entanto que esta imagem de que falo, a mariposa em seu estado de luz, não existe, é apenas uma folha em branco onde sugiro aos alunos que imaginem e descrevam o que veem, para criar fantasias em suas tentativas literárias.

Logo, a imagem, mesmo sendo imaginativa pode despertar a criatividade. Há, portanto, milhões de imagens em nosso mundo cognitivo prontas para serem reveladas. Mãos à obra.

Machado de Assis

Machado de Assis é sem sombra de dúvida nosso maior escritor, e que ainda não foi superado, e que talvez nunca seja. Em seus textos, sobretudo em seus contos Fluminenses, Machado retrata como um magistral fotógrafo o Rio de Janeiro dos seus dias. Em seus contos, pioneiro neste estilo no Brasil, Machado nos brinda com um estudo sociológico dos costumes cariocas.

Eu ainda persisto com a tese de que Machado de Assis também é nosso melhor cronista. Não só é possível encontrar em seus livros a sociedade carioca perfeitamente sintetizada, isto como muito mais profundidade do que outros escritores que foram seus contemporâneos, como também achamos em sua obra a psicologia mais fiel da alma humana e não só do brasileiro do século XIX. Por isto o universo ficcional machadiano é tão complexo, a ponto de causar espanto em estudiosos do mundo inteiro.

A obra de Machado de Assis se encontra sob o domínio público, mas nem assim temos percebido aumentar a procura por seus textos, hoje livre para leitura e impressão na internet. Autores como Saramago, talvez por ter sido laureado com um Nobel, é muito mais visitado do que o nosso autêntico escritor de língua portuguesa. Talvez pelo modo rebuscado da escrita clássica, Machado precise ser de fato reescrito para poder despertar interesse nos leitores jovens.

Machado tem um modo singular de ironia, muito me parece com o espírito de Voltaire, gosto sobremodo dos seus textos satíricos daqueles que ele brinca com os arquétipos sagrados e profanos, destaco o conto: “A Igreja do Diabo.”

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada.

Leitura & Crítica – Oficina Cultural

Apresentação

O presente trabalho tem como objetivo oferecer um guia de leitura obrigatória, para quem pretende conhecer o conteúdo e as nuances, curiosidades e as origens criativas de alguns dos mais importantes textos universais. Não será possível, portanto, expor aqui opinião e estudo sobre todos os livros do mundo, nem de todos os tempos, os mais relevantes ou necessários. Contudo, dentro do possível, tentarei trazer a lume aquilo que, do meu ponto de vista, seja realmente construtivo para informar, educar e entreter leitores de várias estirpes, de vários gostos e culturas.

Existem obras importantes, que mesmo eu não tendo por elas algum tipo de simpatia, farei com sinceridade meus comentários, pois este livro não é um cardápio, onde colocarei apenas as minhas iguarias favoritas e regulares, pois como homem de letras, como intelectual honesto, preciso me conter de acender luzes apenas nos meus escritores de cabeceira. Também não poderia enaltecer, de forma parcial e irresponsável, alguma região do planeta, como a Inglaterra, Rússia ou França, por serem os países que mais se destacam na academia sueca, em detrimento de outros países menos laureados.

Somos ainda um povo sem tradição e cultura literária, poucas pessoas têm acesso a uma gama de livros fundamentais, os ditos relevantes para uma educação superior como existem na Europa, aquilo que Goethe chamou de cultura universal, e, no que tange à leitura, nem nas escolas ou faculdades se tem a leitura como hábito, nem mesmo como estudo obrigatório, crianças e jovens brasileiros são, no que diz respeito à literatura clássica, analfabetos funcionais, alguns até sabem citar nomes de livros como Dom Quixote, contudo, sem terem conhecimento do enredo, nem da lição prática de tal compêndio sagrado, isto se dá pelo fato de que entre as crianças do ensino fundamental e médio, ocorre o absurdo de eles, mesmo os de doze, quinze ou dezoito anos não terem lido um livro inteiro sequer. E de onde vem este mau hábito? Dos seus próprios pais e professores, que devido à falta de cultura e incentivo do estado brasileiro, pobre neste contexto por causa dos seus governantes, que não escolhem como prioridade a educação, exceto nos seus discursos, não apreciam nem desenvolvem o gosto pela leitura.

No Brasil há grandes escritores, mas que não são lidos nem estudados, por isso estão sumindo do imaginário popular. Em contra partida nós optamos por consumir a cultura americana e a inglesa, os Best Sellers, por exemplo, entram aqui com grande facilidade, isto acontece porque, especialmente os nossos professores não dão primazia à literatura nacional, com isto estamos ficando cada dia mais miseráveis culturalmente, com respeito à valorização do escritor e do livro nacional. As editoras comerciais, que só visam lucros rápidos, e que não têm nenhuma responsabilidade social, não publicam escritores brasileiros novos nem reeditam os antigos, preferem, portanto a tradução dos textos estrangeiros, que já entram no país com grande glamour e célebres recomendações do New York times, aclamados por críticos bem pagos. No Brasil de hoje, mesmo com toda facilidade tecnológica, que permite a auto publicação, é muito difícil um escritor encontrar apoio entre o público leitor atual, pois aquele que compra livro, não raro o faz para dar presentes, quando compra não se arrisca em um nome desconhecido da grande mídia.

O problema está na formação dos leitores, trabalho que poderia ser feito nas escolas, ainda na educação de base, mas que infelizmente não está sendo feito, professores não têm interesse em indicar livros para seus alunos, poucas escolas, sobretudo as públicas, conservam o gosto pela leitura.

Escritores, assim como editores, precisam dar lugar a isto, devemos produzir mais livros de cunho crítico, que apresente obras literárias para o grande público, com o fim de educar, por meio de discussão cientifica acessível, a importância de tais livros no cabedal de conhecimento dos nossos cidadãos, jovens e adultos.

Portanto esta minha humilde contribuição, tem como fim, trazer de um modo menos rebuscado, ao contrário do que fazem os grandes críticos como Haroldo Blow, pretendo conduzir o livro clássico para mais perto do homem comum.

Penso que, assim como ocorreu com a bíblia, que por séculos ficou sob o domínio do clérigo, sob o manto da divindade, portanto o povo não devia ler nem tampouco compreender, até mesmo a língua em que era produzida, como o latim, era inalcançável ao homem comum. Acredito, portanto, que com trabalhos como este que ora proponho, será possível tornar a leitura dos grandes autores acessível para qualquer pessoa alfabetizada em qualquer língua. E a ideia é tornar simples, aquilo que eruditos persistem em trancar com setes chaves, como tesouros escondidos, oráculos que só as divindades intelectuais saibam e devam interpretar.

Já leu em algum lugar, em algum livro ou revista, a estupidez pseudo cultural: “Os cem livros mais importantes do mundo”  ou “Os cem livros que você deve ler antes de morrer.”?

Aqui você não encontrará indicações presunçosas como estas. Não há, a meu ver justificativa para estes excessos, não existem apenas cem livros importantes no mundo, no Brasil, por exemplo, há milhares que todos os brasileiros deviam ter o prazer de conhecer, mais este privilégio infelizmente é para poucos.

Digamos que você tenha tido condições favoráveis que lhe proporcionaram ler cinco livros por ano, que segundo estudos recentes, é a média do povo francês. Tendo vivido 50 anos, isto depois que aprendera a ler, multiplicando 50 x 5  você terá lido apenas 250 livros em toda sua vida. Desta forma concluímos que não seria possível, para uma pessoa comum, para alguém que não é escritor ou estudioso de literatura, se dar ao luxo de escolher cuidadosamente, entre os milhões de livros do mundo, os cem livros mais importantes.

O que pretendo é, de forma lúcida e coerente, propor um estudo de alguns livros, para que seu interesse e relação com o livro se transforme em uma experiência agradável, que você possa encontrar prazer na leitura dos textos que aqui devo exibir – discutir e estudar.

Texto tirado do Livro Leitura e Crítica, a ser publicado em 2015

Deus, à maneira de Alguns.

Deus, para homens, um modelo moral, uma perfeição, para instituição religiosa um produto, fonte de onde se extrai benção e maldição. Homens estudiosos no campo secular ignoram este símbolo de temor. Deus, para os intelectuais, com algumas raras exceções, nada representa, além de criação psicológica. Há, portanto, poucos espíritos no ramo da ciência que se importaram com este tema, alguns até produziram bons trabalhos, tentando, de certa maneira explicar, sobretudo para seus contemporâneos a razão de se incomodarem com este assunto de difícil domínio. Einstein, por exemplo tentou se expressar, como bom escritor que era, todavia com muitos arrodeios e média eloquência, a sua religiosidade cósmica.

Espinoza, fora antes de Einstein, talvez o mais vigoroso defensor de um projeto divino mais abrangente, defendia que Deus não podia ser um ser frágil e raivoso, à maneira como fora idealizado por seus irmãos hebreus; sendo judeu não cria em um Deus humanizado, assim como até hoje concebe boa parte da cristandade atual. Esta imagem mitológica de um Deus com sentimentos supra-humanos, mesmo depois de milhares de anos, ainda agrada a homens rasos, e a espíritos políticos que usam a religião como força de expressão partidária.

Espinoza, todavia nos ensina de maneira magistral, que o homem vive em busca de um bem supremo, este bem pode variar de espírito para espírito, contudo, o fim é sempre o mesmo, agradar a si próprio, seja pela busca da fama, do prazer ou da riqueza. Para ele, este bem supremo era fazer com que homens singulares como ele percebessem que há um quarto bem, embora não sendo supremo, revelaria ao mundo mais luz e sabedoria – seria o entendimento da natureza, de uma natureza superior e criativa, possibilitando ao homem se tornar parte de uma natureza una, que segundo ele podemos chamar de Deus. Desta forma, este homem idealizado por Espinoza nada mais é do que uma partícula do DEUS-NATUREZA – ou um pequeno deus que por suas limitações físicas e fraquezas psicológicas não pode influenciar a natureza das coisas.

Aqui no hemisfério sul, no dito terceiro mundo, especialmente no Brasil, Deus ainda é matéria de disputa, em um país onde se diz praticar uma pseudo democracia, partidos e políticos atrasados usam de um expediente tribal como fé, preferência de credo, ou opção sexual para definir uma eleição de grande magnitude, como é a eleição para presidente da república.  Seguindo um raciocínio lógico não podemos inferir outro resultado, ganhará a ignorância, a massa se movimenta de um lugar para outro, mas não deixará de ser manobrada por estímulos subjetivos, por mão de ferro de inteligência superior e egoísta, se contenta com promessas e não pode perceber as consequências de suas equivocadas escolhas.

Este artigo foi produzido durante as eleições de 2014

 

Não somos livres… Somos humanos.

Para quem deseja um mundo melhor, é imperativo que se esforce para que este seu desejo se torne evidente para quem lhe escuta. Há, portanto um entrave entre o querer e o ser, “o ser e o nada”. Somos aquilo que transparecemos quando não estamos sendo observados por alguém com autoridade e crivo para nos mensurar. Ética, como diz Oscar Wilde é o conjunto das coisas que praticamos em público.

O homem no íntimo, aquele que pensa e não realiza, deseja e não tem coragem de abraçar os desejos mais latentes na alma, este é o que de fato somos e não admitimos. Esta nossa vontade de auto superarão é que nos conduz ao sonho, ao utópico – ser o que queremos e não o que permitimos ser criado pela coerção social. O fruto do meio. O nativo preconceituoso que não permite o diferente.

O existencialismo Sartreano não peca ao cognominar o homem de dono dos seus próprios passos, é a mesma ideia bíblica do livre-arbítrio. Cumpre ainda relembrar aos nossos pares que, além de donos do nosso caminho, ainda somos supra capazes de influenciar o caminho dos nossos semelhantes. Nenhuma ação pode ser praticada isoladamente sem causar danos aos observadores. É neste impasse que reside a felicidade de muitos, desejos que não podem vir à luz, pois causaria prejuízo irreparável aos menos evoluídos.

Alguns teóricos tentaram, com seus pensamentos infundir coragem em muitas gerações passadas, mas nunca encontraremos, nem mesmo em romances ou em tomos filosóficos, um homem totalmente livre para dizer e fazer o que pensa em secreto. Na literatura, por exemplo, não reconheço nenhum super homem, exceto na filosofia insalubre de Nietzsche. Mesmo o cavaleiro cervantesco passa-nos uma ideia de autossuficiente, mas suas boas ações provam-nos que é mais humano que muitos mortais, e o seu regresso para sua vida insignificante e medíocre sem conquistar aquilo que almeja, nem sequer a musa Dulcineia lhe sorri, prova isto, Dom Quixote é um herói fracassado. Contudo, se formos além dos textos humanos, para pesquisar os deuses, também veremos que eles demonstram mais medo da liberdade suprema que suas pseudos criaturas… Não há ser livre que não ame a ponto de se tornar escravo de alguém ou de alguma coisa. Mesmo os mais libertários se tornaram escravos dos seus desejos de ser livre, em nome de sua liberdade muitos escravizam semelhantes. Não é menos escravo aquele que se torna ditador do que aquele que aceita ser guiado por uma doutrina dita libertária.

 

 

O ter inibe o ser.

Há uma preocupação com o ter, enquanto o ser devia ter mais importância, mas vivemos uma época singular, onde as pessoas não querem ser nada. Eu vejo com bastante preocupação o futuro da humanidade, penso que em pouco tempo vai desaparecer o interesse pelo estudo, se é que já não tenha desaparecido.

É verdade que há um fenômeno tecnológico bastante relevante em curso, para justificar o pouco interesse dos jovens e até de uma boa parte dos adultos pelo livro, por uma formação acadêmica. Embora alguns procurem um tipo de formação profissional, não raro se observa que este interesse não é pelo saber em si, é, na verdade, por uma questão financeira, a busca de um emprego público que lhes proporcionem segurança e conforto.

A busca desenfreada por prazer tem como causa a falta de objetivo, sobretudo para os jovens que têm por natureza a curiosidade por novos caminhos para auto realização.  Em outros tempos, quando não se tinha tantas possibilidades, nem tantas ferramentas, as pessoas demoravam mais para alcançar seus objetivos profissionais, o mundo caminhava mais lento. Não sou saudosista, mas confesso que preferia a lentidão com que caminhava a humanidade, acredito que erámos mais felizes.

Há um paradoxo, em se tratando deste tema – enquanto temos mais possibilidade de ser qualquer coisa, em qualquer área, observo que os valores se inverteram. Antes o homem se orgulhava da honra, da moral, sobretudo do nome que construía com muito trabalho e zelo; hoje escuto, em qualquer lugar por onde ando, grandes homens se jactando por ter coisas materiais, por ter mulheres novas e belas, não escuto alguém se orgulhar de ser um médico cuidadoso, um professor bem preparado ou um advogado estudioso. Não raro se percebe que suas profissões não são sequer citadas em conversa informal. É veraz a máxima que diz que o ter inibe o ser.

Salve o leão

O que se pode acrescentar ao mundo psicológico do homem culto? Os saberes que temos não estão de todo ultrapassados. Nossos sábios ainda têm muito valor. São tantos livros produzidos que não há quem os possam absorver. Alguns são irrelevantes, outros desnecessários, já outros são obrigatórios.

O papel de um escritor, a meu ver, deve ser não apenas distrair ou confundir o leitor. E quais são os livros que distraem? São aqueles que o leitor não compreende. E os que confundem? São aqueles que o leitor não tem intelecto suficiente para tirar o proveito correto, como os dos grandes pensadores. Os pensamentos dos sábios do passado não podem ser aceitos por uma humanidade que a cada dia perde sua referência moral. Não há prazer em adquirir conhecimento para aqueles que não têm capacidade para aplicá-lo na vida, de modo prático. Por isso, os poucos que dizem gostar de boa leitura leem livros santos ou místicos, no máximo os de autoajuda.

O homem está no cadafalso e o que lhe resta de inteligência foi condenada à morte lenta. O que deve ser feito para resgatar os homens do abismo da ignorância e da automutilação? Tudo já foi dito: buscai o autoconhecimento para auto aceitação. Todavia, a pouco, digo há dois mil anos, os homens tentavam descobrir o que sabiam e o que pensavam seus vizinhos de outro continente. Hoje, porém, não há mais esta curiosidade social natural dos primatas. Agora queremos apenas consumir e usufruir os prazeres dos nossos irmãos de terras longínquas (globalização).  Perdemos o interesse até pelo que se tinha outrora, como o céu, por exemplo, (religião). Os mitos não nos causam mais perplexidade nem reverência. Estão todos mortos e os ídolos não nos influenciam mais. Descobrimos até o que não há em outros planetas. Sabemos o enigma do DNA. Somos capazes de produzir a vida em laboratórios, mas optamos por produzir a morte em tolas guerras. Temos agora um interesse além do incomum pela tragédia, a comédia dos nossos coautores perdeu a graça. Mesmo hoje, depois de tanto estudo e evolução científica, nos embriagamos com orgias naturais, como faziam os governantes romanos há dois milênios. Só as trocamos pelo carnaval.

Os poderosos não buscam a poesia ou a filosofia como fazia Marco Aurélio e outros sábios gregos. O poder não tem poder para se autogovernar. Os grandes homens querem a melancolia do fim da tragédia, o caos para terem do que se lamentar no futuro.

O homem é um animal inconformado com seu instinto, por isso persiste na crença de que possui a caixa de pandora, um poder mágico para criar e destruir com a mesma intensidade, com máxima inteligência. Todavia o instinto natural só pode destruir.

Se fores humano, prove-me o contrário. Digo, não com discurso, precisamos de ação. Salvemos o leão que habita dentro do homem, já que o homem dentro do leão já foi subjugado. Salve, portanto a natureza. Quem sabe ela no futuro não produzirá um ser melhor, mais racional que humano.

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