Contos

UM DIA SEM NOITE – FRAGMENTO DE UM DELÍRIO

Era dia ainda claro, um dia daqueles que o sol se atrasa, para cumprir seu papel natural – ir embora para que a noite possa aparecer, um dia diferente, mais longo que os outros, e sabe Deus, por obra de quem, este milagre.  Deram oito horas, já era noite, todavia, ele, o sol, ainda estava no firmamento. Parecia que a noite não viria mesmo, teria por fim, cumprido seu ciclo milenar, sua eterna viagem, seu tanto ir e vir? Um dia eternamente claro, agora era dia, só dia, a noite não mais existiria, e para quem nascesse a partir desta data, jamais conheceria o que era noite, apenas saberia do dia e do sol.

Não sabendo por que se dava tal fenômeno apocalíptico, as pessoas começaram a gritar umas de júbilo, outras de desespero, pois perceberam que se tratava de algo muito assustador, talvez fosse mesmo o início do fim do mundo. Porém, em um banco de praça, junto a um belo jardim, pois era primavera, embora não fosse setembro, se encontrava um homem calvo, de barbas um pouco grisalhas, de pele parda, um senhor, que nos a parenta, olhando de longe, devia ter em média uns cinquenta anos ou um pouco menos. Um homem que parecia não perceber o que acontecia à sua volta. Este senhor vivia a contemplar as flores que eram diversas e muito belas, e nesse dia especial nada lhe pareceu diferente. Embora os gritos das pessoas fossem ensurdecedores, ele não os escutava. Então, eu que logo observei aquele ser estranho no meio de uma multidão desorientada, desci do meu posto, aproximei-me dele, para indagar, se ele era surdo, talvez fosse um louco, daqueles que não vivem mais entre os homens, que são insensíveis ao mundo que lhes cercam.

Chegando perto do homem passivo ao barulho de gente comum, perguntei:

-Não escuta a balbúrdia que faz este povo em tua volta, por conta da presença constante do sol? Boa tarde, nobre cavalheiro, não sabe por que razão este povo grita?

– É claro que os escuto, só não lhes dou ouvidos. Eu costumo vir aqui para apreciar o pôr-do-sol, esta praça é especialmente deleitosa, porque fica muito perto do mar, e hoje eu fiz uma prece para que o sol se demorasse um pouco mais, pois a vista estava incomparável, será que é isso, será que fui ouvido por Deus, e por isso o sol ainda não se foi? Eu nem percebi que já era tão tarde, mais de oito horas da noite, digo da tarde, uma vez que a noite de fato ainda não chegou.

-Que loucura é esta? É verdade que o sol ainda brilha como se fosse tarde, mas não creio, meu nobre senhor, que tu tenhas algo a ver com este fenômeno, que a ciência explicará daqui algumas décadas, ou milênios, se não fizer, algum religioso fará. Porventura, és tu, um santo ou um profeta?

-Não senhor, meu caro desconhecido, eu não tenho nenhuma afinidade com os livros sagrados nem com os deuses.

-Mas, há pouco me disseste, que havia feito uma prece, para que o sol se demorasse, única e exclusivamente para prolongar o teu deleite, na observância das flores, sobre o efeito mágico do pôr-do-sol, então, como dizes que não és crente? Pelo que me consta, só fazem orações quem acredita em alguma forma divina, em Deus ou em deuses.

-Não se trata de crença ou descrença, meu caro amigo desconhecido, eu falei da prece, mas a prece a que me refiro não é denúncia de que eu creia ou descreia, apenas usei uma forma de expressão comum, que seria aceitável para qualquer pessoa – depois uma prece tem o mesmo efeito que um suspiro de saudade ou de desejo, muito forte por alguma coisa que não temos o dom de realizar, são formas naturais de nossa alma expressar os sentimentos internos; indescritíveis, entendes?

-Acho que sim, é porque estamos habituados a ouvir, geralmente o que as pessoas têm no coração, pessoas simples são transparentes, não guardam segredos, então na primeira conversa fazemos um juízo de valor da sua personalidade, mas vejo, de fato que não és uma pessoa comum, notei por tua passividade ao que nos acontece nesse dia atípico, um dia sem noite – que pensas sobre isso, agora falando sério?

-O que eu penso, talvez não te surpreenda, também percebo que estás muito calmo com toda essa histeria popular e coletiva – e por que só tu vieste a até a mim, para saber o que penso sobre o sol perene e sobre a reação das pessoas?

-É simples, o que é comum não nos diz respeito. Eu sou um viajante do futuro – é assim que deves acreditar. Percebo comportamentos incomuns entre os mortais então procuro descobrir a causa.

-Um viajante do futuro, (risos) – essa é boa – então me conte algo sobre o futuro, para que eu possa acreditar que não estás a troçar de mim.

-Do futuro não posso contar nada, mas do passado sim, eu contarei e mostrarei o que te fez ficar assim, tão indiferente para com as pessoas normais. Vou começar por te fazer lembrar a tua infância, talvez por lá encontremos uma pedra deste imenso quebra-cabeça.

-Não posso acreditar que eu tenha pedido a Deus, apenas que segurasse o sol, e ele tenha me enviado um detetive angelical, um psicólogo das estrelas, para descobrir os crimes que cometi contra a humanidade.

-Não, meu senhor, não estou interessado em regressão mental ou espiritual, não me perturbe, deixe-me em paz.

-Calma, meu senhor, fiz só uma brincadeira, tenha calma, sou alguém interessado em lhe ajudar, só isso, mas não farei nada que não me dê a permissão. Embora tenha poder para fazer qualquer um voltar à sua infância, a qualquer tempo em sua vida vivida, não farei nada que não me concedas o direito a realizar.

-Ah, bom! Pensei que era um daqueles anjos intrometidos nos assuntos alheios. Mas quero lhe avisar outra coisa: não acredito em anjo, muito menos em santo barbado.

-Tudo bem amigo, eu estou deveras acostumado com pessoas incrédulas, também não lhe disse que era um anjo, disse?

-Não importa! Preciso ir agora.

-Mas o sol ainda não se pôs, não podes ir enquanto for dia, não foi isso que pediste em tua prece?

-Sim! Foi! Mas o que é que tu queres de mim, por acaso queres me converter a alguma crença nova?

-Eu vou lhe contar algo muito sutil, que fará você mudar de opinião a meu respeito, e sobre as minhas intenções contigo. Lembra-te de um dia especial, em tua tenra infância, muito tempo já passou, mas vai te lembrar, falo daquele dia em que você foi à escola pela primeira vez.

-Claro sim, quem é que se esquece de um momento tão singular na existência, o dia em que começamos a descobrir o que há no mundo das letras e dos livros?

Ficou claro, para mim, que aquele senhor, só pelo fato de fazê-lo lembrar algo doce de sua infância, logo abriria sua guarda, e me contaria em pormenores, eventos que lhe aconteceram, eventos que me ajudaria no meu propósito de fazê-lo compreender a razão de sua atual solidão. Seu semblante tornara-se agora suave, os músculos de sua face afrouxaram-se e permitiam-me vislumbrar uma alma delicada. Como que uma lembrança meiga pode trazer uma mudança de atitude tão rápida, inesperada. Ele continuou a me falar:

-Aquele dia me lembra como se fosse hoje; minha mãe me dissera que eu iria conhecer muitas crianças iguais a mim, professores inteligentes que me mostrariam todas as faces do mundo.

-Mas o que de especial, além do fato que já mencionaste, dos colegas, dos professores, o clima de novidade, algum acontecimento inesquecível que te marcou profundamente?

-Sim, claro! Foram muitos acontecimentos, cada um com sua peculiaridade, cada cena com que me deparava, revelava-me um mundo novo. Foi mágico, incomum; mas eu guardei no coração algo que jamais esquecerei. Foi no momento em que fui apresentado à minha professora de língua portuguesa, ela disse para toda turma: “crianças, hoje é um dia muito importante para todos nós; para mim, pois nunca se repetirá dia igual, e para vocês, um dia que marcará para sempre as suas vidas – eu sou a professora que vos ensinará a falar.” Eu fiquei chocado com as suas palavras, então perguntei para ela, à queima roupa. Por que diz que aprenderemos a falar consigo, se já temos em média sete anos? Ela sorriu como uma princesa e rematou: “digo, a falar direito da forma culta, meu… como é seu nome jovem corajoso e atraente? ”  Lhe respondi por cima da bucha, não direi, exceto, quando souber o seu, professora. “Tudo bem, desculpe-me o mau jeito, não tive tempo para me apresentar. Então, para você e para quem mais interessar, eu me chamo Glória. ” Quando ela terminou a apresentação, disse que sairíamos do seu curso, no final do ano letivo, falando corretamente. Eu duvidei, mas fiquei quieto. Havia um menino negro, que se assentava logo à minha esquerda, e todos os dias, a partir daquele primeiro dia inesquecível, sempre que ela entrava na sala, ele cantava um trecho de alguma canção cristã, que tinha o nome dela, e no final arrematava com uma aleluia – que era acompanhado por metade da classe, fazendo troça com minha encantadora mestra. Ela, porém, nunca deu atenção para aquela tolice infantil….

 

 

 

Um poeta da AFRICA– conto, por Evan do carmo

Sou poeta, sou uma pessoa comum, como muitos da minha geração de escritores e jornalistas, tenho como vício escrever, e ora sim ora não escrevo para revistas e jornais do meu país, da minha cidade, que por acaso é a capital do país de que vos falo.

Moro num país tropical, abandonado por Deus, onde não se respeita as crianças nem a natureza. Onde os homens, em sua grande maioria perderam a fé em Deus, a crença na justiça, e por isso fazem de suas vidas um verdadeiro carnaval, aqui não se cumpre as leis, os políticos são quase em sua totalidade corruptos, e os grandes empresários corruptores.

Penso, que por aqui não há mais esperança, em se tratando de futuro para os filhos e netos desta geração. Estamos vivendo uma grande crise, fala-se em profunda recessão, o desemprego subiu drasticamente, e o novo governo, o que assumiu por ocasião do processo de impeachment, não raro se confunde com os números da economia do país. Há quem diga, portanto, que logo a situação real será revelada, a verdadeira situação, que segundo este governo, até hoje interino, talvez amanhã não seja mais, pois o processo de cassação da presidente deve ser concluído em um dia e poucas horas, o país teve sua economia maquiada, uma grande bolha deve ser estourada, para que tudo seja visto claramente, e como diz o governo atual consertada, processo que levará anos para ser executado com sucesso e segurança para a economia do país.

Tudo isto é conversa fiada de políticos – quem entra sempre culpará quem saiu pelos seus atuais e futuros erros.

Contextualizada a situação do Brasil e a nossa crise financeira, agora posso entrar direto na história que lhes desejo contar.

Sofri, assim como outros cidadãos do meu afortunado país, o mesmo revés financeiro, como reflexo da crise nacional, quiçá mundial. Contudo, no meu caso a derrocada foi mais emblemática, porque em questão de meses perdi tudo que tinha conseguido construir no que tange a bens, casa e valores. “Coisa do destino”, diria um tolo, mas eu sei muito bem qual foi a verdadeira causa e razão da minha falência econômica, foi confiar no ser humano, e claro, eu também tenho a minha parcela de culpa no cartório, me envolvi com gente sem valor, pessoa sem fibra moral, pessoa que julguei ser de bom caráter, por conviver entre outros de tão boa moral e índole. Mas é claro que tudo isso foi fruto da circunstância. Aquele provérbio é veraz, o que diz, “é a situação que faz o ladrão.” Então fui roubado, mas tudo já foi superado, se escrevo isso, o faço para registro histórico da minha condição de escritor, e agora também de editor, no futuro será lido este conto, e servirá para esclarecer alguns fatos sobre a minha biografia.

Edito livros há muito anos, mas só agora em 2016 montei uma editora no sentido real da palavra, e as alegrias são inúmeras, temos realizado muitos sonhos, e cada dia nos chegam de perto e de longe pedidos para que publiquemos autores iniciantes, pessoas que têm como realização de vida publicar um livro.

Eu já publiquei dezenas e não tenho ainda meus sonhos todos realizados, até porque se isso ocorresse eu morreria em seguida, não quero realizar todos os meus sonhos em uma só existência, tenho ambição por eternidade, na verdade esta palavra me persegue, basta verificar meus poemas e textos para saber que falo a verdade.

Em apenas quatro messes de atividade, já editamos e publicamos mais de 50 autores, cada um com sua peculiaridade. Todavia destaco um garoto, um poeta da AFRICA, que foi descoberto por Iranete, minha esposa amada, foi ela quem me indicou este garoto de 22 anos, e me encantei com a sua poesia. Ela trata do sofrimento humano, sobretudo dos seus irmãos africanos. Ernesto é muito novo para escrever tão bem, e de forma tão profunda sobre uma dor que não viveu, que não experimentou na carne.

Travei conversa com este poeta por mais de três meses, no início ele me pareceu muito desconfiado, disse que seu sonho era inalcançável, pois não via meios para realizar, ele acreditava que publicar um livro para um garoto de Moçambique era um delírio, devaneio de poeta, mas depois que lhe afirmei peremptoriamente ter os meios para realizar seu desejo, ele enlouqueceu, disse que faria tudo para provar que era honesto, e que iria cumprir com todas as regras de contrato que lhe fossem impostas. Eu disse, a princípio, que lhe cobraria mil reais, como um pagamento simbólico, acreditando que isto lhe fosse possível cumprir, todavia, com o avançar das nossas conversas, percebi que isto era delírio meu, ele não teria como me pagar pela publicação como eu desejava. Resolvi lhe oferecer outra proposta, eu faria seu livro, e publicaria na internet, onde ficaria à venda no mundo inteiro, isso foi recebido por ele como um bálsamo.

O garoto, muito inteligente, uma alma muito perspicaz, havia feito uma campanha na internet para arrecadar fundos para a publicação do seu livro de poesia.

Enquanto negociamos o contrato de 500 reais, pois segundo ele teria este dinheiro para me pagar, e que também faria questão de honrar seu compromisso, sua parte no projeto. Então aceitei sua condição, receberia seus 500 reais, mas isso só depois que a campanha terminasse e isto só ocorreria em agosto.

Livro publicado, cada dia era um encantamento novo com este garoto poeta, ele nos parecia um ser de outro planeta, tamanha era sua honra nos temas tratados, nos assuntos abordados, nas conversas virtuais e por telefone. Tornamo-nos amigos, mais que amigos, na verdade temos hoje, diz minha esposa e com razão, uma relação que se aproxima de uma boa relação entre pais e filho.

O livro à venda, mas ninguém comprava, Ernesto se inquietava cada dia mais, por não ter seu livro em mãos, e nós, do outro lado do mundo vivíamos a mesma ansiedade, por não conseguir por em suas mãos seu livro, como um filho renascido que precisava de cuidados paternos. Mandamos fazer três livros para enviar a Moçambique, seria enfim a conclusão da nossa promessa, fazer chegar até o garoto poeta seu sonho concretizado, seus poemas imortalizados, e assim fizemos, enviamos os livros. Ernesto recebeu a encomenda com toda pompa de um rei, servidores dos correios de Maputo não acreditaram que aquele garoto franzino fosse aquele grande poeta impresso na capa dFe um livro, com o título Liberta-te Mãe AFRICA, livro que eles tinham nas mãos, contudo, só depois de verificar seus documentos deram-lhe as devidas honras, posaram para fotos com Ernesto, como se ele fosse um diplomata a visitar o seu ambiente de trabalho, Ernesto foi honrado publicamente como o garoto poeta da AFRICA.

Mas este não deve ser o desfecho desta história, haja vista que no começo chamei a atenção do leitor para um fato, a falta de honra dos homens atuais, dos ricos e dos políticos brasileiros em geral. Lembram-se do que eu disse um pouco atrás, sobre a campanha que fez o Ernesto para pagar a publicação do livro? Pois bem, ele recebeu 503,25 (Quinhentos e três reais e vinte e cinco centavos) Foi esta a soma da arrecadação de sua bem-sucedida campanha, eu já havia me esquecido desta sua promessa, pois não tive intuito de ganhar dinheiro com a publicação do seu livro. Todavia, hoje, sim hoje no dia 29/08/2016, ele entrou em contato comigo e disse que havia recebido notificação da transferência do dinheiro da campanha, e que queria transferir para a minha conta. Achei que ele não seria capaz de fazer a transferência, pois é um processo complicado, a empresa que recebeu a quantia doada só permite transferência para a conta do titular, ou seja, de uma conta para outra conta com o mesmo CPF, por esta razão achei que este dinheiro nunca viria para as minhas mãos, ou para a minha conta corrente. Enganei-me redondamente, o garoto poeta me surpreendeu mais uma vez, Ernesto havia pedido meus dados, e feito a conta em meu nome, em seguida me passou login e senha para que eu mesmo fizesse a transferência do valor recebido, ou seja, honrou sua palavra embora soubesse que eu não a cobraria… É disto que falo, o texto e o contexto da minha vida de editor, pode ser resumidos aqui, como alguém que conheceu um garoto, magnifico poeta e homem de nobre estirpe.

 

 

 

 

O que é que mais te atrai, a foto de um paraíso desejado, lugar de calma, deleite e paz no futuro, ou a crônica diária de tua dura realidade, a descrição kafkiana do inferno em que ora habitas? Eis a função da boa e má literatura.

Uma mulher negra, de meia idade, lá pelos seus cinquenta anos, viúva, sem filhos, morava com sua neta de 14 anos, na cidade de águas linda de Goiás, no entorno de Brasília. Todos os dias a mulher recomendava à neta adolescente, muita prudência contra os perigos que teria de enfrentar na ida e vinda para escola. A mulher era diarista, trabalhava em várias casas, um dia da semana para uma família diferente. Em cada casa ela fazia faxina, e cuidava dos cachorros, em outras de crianças, mas em todas era benquista, como alguém de extrema necessidade.

Ninguém que a conhecia pessoalmente poderia negar que esta jovem senhora, de fato era muito importante, tanto para estas famílias, a quem servia uma vez por semana, quanto para sua neta, uma mocinha órfã de pai e de mãe. O pai da adolescente vivia na prisão, e a mãe fora assassinada pelo pai, por causa de ciúme, bebedeira e drogas. Talvez por experimentado tamanha tragédia em sua família, a mulher tinha tanto cuidado com sua neta, para que ela, apesar da herança maldita dos seus genitores, pudesse ter outro fim, e os meios eram oferecidos por sua avó cuidadosa, que tudo faria para que sua netinha tivesse a oportunidade de se tornar uma pessoa feliz, bem sucedida nos estudos e equilibrada emocionalmente para enfrentar os desafios da vida.

A neta e avó moravam numa boa casa, humilde, porem decente, tinham sua dignidade garantida, não grosavam de muito conforto, mas tinham o necessário para viver, pois a avó, além de ser uma trabalhadora formal incansável, ainda fazia bicos, trabalhos informais para os seus vizinhos, lavagem de roupas, para homens que não tinham esposas, ou para senhoras que não tinham família nem empregados para lhes suprir as necessidades, como um remendo numa roupa ou uma breve faxina em seus lares.

A neta, por sua vez, como a maioria dos jovens de sua idade, não tinha preocupação alguma com a vida, não se interessava em saber como era sustentada, nem de onde sua avó tirava tanta energia e vigor moral para tanto trabalho e preocupação com seu bem estar.

Era sempre a mesma rotina, e se era rotina, meu caro leitor, era é sempre repetida as ações e os hábitos das nossas duas personagens. Então logo cedo, muito cedo, a avó acordava a neta para que a mesma se preparasse para ir à escola, sua única e sagrada obrigação na vida. Contudo, isto não era tarefa fácil nem agradável para as duas, não raro havia boa discussão, pois a neta sempre achava que era muito cedo para acordar, ou que naquilo dia não teria problemas em falta à aula, ou inventava que não teria aula por algum motivo escuso, coisa de adolescente. Mas sua avó não cedia, e a derrubava da cama, lhe dava café, e a conduzia para pegar o ônibus escolar.

 

A vida seguia seu curso, a avó dedicada não tinha como saber de tudo que se passava na ida e vinda da escola, ou dentro e fora de sala de aula, todavia, sempre achava um jeito de comparecer às reuniões bimestrais, e lá sabia por alto do comportamento da neta, que segundo os professores e orientadores, era regular, normal para pessoa de sua idade. Isto sempre causa na avó um misto de alegria e emoção passageira, por não poder compartilhar com a filha morta, nem com o genro preso, a sua conquista de criar a neta de forma exemplar.

Meu Pai… Cordel em curso..

No sertão da Paraíba, num tempo não muito distante, viveu um homem distinto de caráter impressionante. Nascido de gente simples, mas de nobre proceder. Aprendeu fazer com as mãos a arte do sobreviver. Não era dono de terras, não tinha gado vacum, não era filho de nobres e não herdara nenhum. Não tocava um instrumento e nem era menestrel, trabalhava com esmero da terra tirava o mel. Desde tenro foi levado para a terra cultivar, os seus pais morreram cedo com uma prole pra criar. Ficando como maior, entre outros irmãozinhos teve que apreender bem cedo a tristeza do caminho.
Lá pra bandas do sertão, a escassez é comum, falta água todo tempo, muitos anos é como um, para trazer desesperança e a descrença do jejum. Perde-se a fé muito cedo, pois do céu não cai fartura, os homens fogem pra longe para viver uma aventura, em busca de uma porção, de um dia de serviço, sendo um vício ser peão; trabalhar de sol a sol, pra ser dono de um quinhão. Ter a honra dos vizinhos, pra família ter razão. Não comer o pão alheio, não usurpar profissão, cada um tem seu destino e o carrega pela mão.

Numa dessas fugas atrozes, em busca de condição, de trabalho e provimento fora longe atrás do pão. Em terra um tanto inóspita, um varão trabalha bem, acordava muito cedo para procurar um bem. Às noites tristes e sombrias um jovem agonizava, sobre a febre da saudade, da perda da sua gente, dos pais que lhe adoravam. Vivendo precariamente as intempéries do fim, distante ficou seu sangue e uma preocupação ruim. A fome grassava os fortes, quem dera os fracos sem mão, sem a proteção diária com zelo de um coração. Um irmão tem que ser pai, o pai tem que ser irmão, uma família nas horas da triste recordação, no âmago de sua alma, o jovem pedia a Deus, que lhe mostrasse uma porta para libertar de uma vez, a vida que persistia em vencer a aridez.
Fora lhe dito que ao longe, em uma cidade boa, havia emprego à vontade para quem vivia à toa. Partiu com raça e com força que lhe dera os genitores. Foi trabalhar nas emergências sob a proteção do estado. Aceitou um prato feito de um destino contrariado.

Os dias áridos de sol que queimavam sua sina, ele sem perder a rota, sem descuidar  da rotina, trabalhou, juntou dinheiro, pra voltar com mais vigor, trazendo aos que ficaram o afago seu amor. Na noite véspera da volta, não dormiu perdeu a calma, sua ansiedade era tanta queria ver muito cedo as flores que a vida planta. No abrigo onde brigava com toda sorte de inseto, viu nas costas uma marca, de uma picada, era certo, fora ofendido por vermes, ou por um barbeiro incerto.

Nesse tempo que ficou, longe dos seus bem queridos, não pensou em coisa alguma só levou ao vento aflito, muitas preces para um santo, que era um dos protegidos. Acreditava na sorte, que teria o bom final, encontraria uma alma que lhe seria igual, poderia dividir as mágoas e um bom tesouro e, semeariam juntos as pérolas da cor do ouro, os filhos que Deus daria para o mundo conduzir, ensinar suas virtudes e a paz distribuir.

Chegando em casa achou, seus irmãos despercebidos, dos perigos desta vida de um quinhão que era perdido. O mais novo enveredou num mau costume aguerrido, passava os dias nos bares, com o pouco adquirido. Heleno não compreendeu a visão que vislumbrou, para quem não tinha posse, pouca coisa de valor, tudo que seus pais deixaram fora a honra e um bom nome, só que isso no nordeste não garante o passar fome. Ele, um tanto contristado, tinha que tomar atento, uma posição de garra para suprir o sustento. Foi então para cidade, em seus bolsos um forte alento, possuía um bem possível para comprar alimento.
Mesmo com idade certa não pensava em casamento. Queria só seu destino coroado de sucesso, criar seus irmãos queridos, suprir como um pai o devido aos desejos inocentes. Na cidade, ainda estranho, pouco sabia dizer, aos que lhe perguntasse sobre um bom proceder. Apenas pesava reto que o pão a que tinha fome ele sim traria certo. Com o pouco que tinha em mãos fez mais do que se esperava de um jovem muito moço que a tragédia criara.

Na feira era o costume das pessoas se encontrar… Todos que morassem longe no sábado iam comprar as provisões necessárias para a vida sustentar. Este moço, Heleno nobre, filho de família pobre, sabia se comportar… Na banca do seu João, um senhor comerciante, ele comprava farinha como fora diamante.  Quem lhe atendia agora era uma moça apaixonante. Era Nanú. Filha esperta, que cedo se libertou da posição feminina… Seu pai lhe dava valor.

Ela sempre ia com o pai a quem devia favor. Nesse dia, embora tarde, ele enfim pode comprar uma carga de alimentos para os seus alimentar. Perguntara à Nanú se ela tinha um tempinho, para lhe falar presente… Não se sabe com que força ele então a perguntou, se ela tinha um pretendente, pois por ela se encantou… Nanú, mal lhe respondeu, corada com seu pudor…  “Não tenho nenhum compromisso, espero que entenda isso, que não será com o senhor…”
Heleno contrariado da moça se desculpou, saiu dali cabisbaixo pensando naquela flor… Era um doce, um encanto, a filha do vendedor. Mas amor é coisa errada pra quem nasce sem o dom da conquista, da fortuna de um sonho vencedor. Ele apenas sabia que, a sorte tardaria para lhe dar algum valor.
Voltara ao seu rancho-casa, onde a prole encontrou. Os pequenos esfomeados e o mais velho embriagado reclamando um protetor… Heleno se desdobrava para ser pai e mãe daqueles que não plantou… Mas o tempo passa rápido. Heleno cresceu, um belo homem se tornou… Apenas em alguns anos seu destino enfim mudou.

 

A prostituta

Capítulo 01…do romance em andamento. comentem obrigado

Luíza veio do sul, em busca de um futuro melhor no norte, na cidade de seus sonhos, Luíza ouvia dizer, que as pessoas que moravam na cidade grande eram mais felizes, mas não desejava sair do seu lugar, que embora simples parecia um pedaço do paraíso, pelo menos enquanto acreditava no amor e na honestidade de um homem, seu  escolhido. Não teria saido nunca, se  os seus sonhos tivessem se realizado, porém  depois de sofrer uma desilusão amorosa, ela resolveu deixar família e todos os seus pesadelos para trás, e nunca mais retornou à sua terra. Soube da morte dos pais por carta, mas nem  mesmo este fato lhe fez mudar de idea, saiu para nunca mais voltar.
Luíza, hoje tem convicções bem definidas com relação ao mundo e às pessoas que aprendeu a desprezar, mundo que acredita ser um grande engano. Luíza não crê no ser humano, as pessoas são todas desprovidas de qualquer parcela de bondade. Ainda criança, percebeu nas atitudes dos seus pais, que o que importa para a sociedade é o que as pessoas aparentam ser, não o que são realmente. Cresceu vendo seus pais miseráveis brigarem como cachorros. Além da miséria com que teve de conviver, teve que  suportar os abusos de um pai alcoólatra, de moral duvidosa, um ser humano desprezível, um filho da puta na verdade. Até a sua mãe, ao contrário da maioria das mulheres provincianas, não lhe fora um bom exemplo, traia seu pai na mesma medida que era traída. Luíza vira, desde de pequena, homens entrando e saindo, à noite, do quarto de sua mãe. Sem ter imãos maiores nem menores, suportou sozinha toda delinquência dos seus genitores.
Não se pode dizer que foi apenas por este motivo, que Luíza tenha caído na vida difícl de prostituta. Ao chegar na cidade dos seus sonhos, foi recebida por uma gente esnobe, a cidade grande não tinha para ela os encantos do seu pacato vilarejo. Aqui tudo era frio, as pessoas não se cumprimentavam, isto para ela era muito complicado, pois no ínicio saía cumprimentando todo mundo, e não obtinha resposta, mas logo entendeu a frieza das pessoas e não mais cumprimentou ninguém. Apesar de jovem e bela, Luíza não conseguiu fazer amizade com alguém de sua classe social. Tentou trabalhar em casa de família, mas logo desistiu. Tinha o sonho de estudar e se tornar médica, mas teve logo de esquecer, pelo menos por algum tempo. Na primeira casa em que arrumou trabalho, sofreu assédio do patrão, e desconfiança da patroa, que preferiu acreditar no marido, mandando-a embora. Humilhada Luíza percebeu que sua tese sobre a humanidade era verdadeira. Tentou trabalhar em bares como garçonete, mas não tinha jeito com os clientes, que não raro lhe tratavam como prostituta.
Depois várias tentativas para levar uma vida honrada, Luíza resolve fazer um estudo sobre si mesma e sobre os homens com quem irá se relacionar,  para se certificar de que a vida não passava de uma mera ilusão, sobre  questões morais, haveria de justificar sua conduta, seu corpo era sua única propriedade e objeto de estudo, ninguém poderia interferir em sua escolha, e o resultado seria  apenas conhecido por ela. Saberia depois como usar toda sua experiência sobre a vida de uma prostituta livre. Luíza reconhecia que tinha o direito sobre sua vida, e que o caminho escolhido deveria ser trilhado sem arrependimentos, só assim poderia dizer que fora livre, que não vivera sob obrigações e convenções sociais.
Depois de tomar um banho quente e bem demorado, Luíza veste seu vestido vermelho, perfuma-se e parte para sua primeira noite de trabalho. Luíza é jovem e bela, e tem atrativos que lhe foram dados por uma natureza muito generosa, Luíza não tem necessidade de  esconder com pintura a sua tristeza nem a sua idade. Luíza não teve filhos ainda, ela sabe que o mundo é cruel, os homens covardes. Luíza tem um sonho impossível – encontrar alguém que não queira alugar seu corpo, mas que saiba conquistar a sua alma.
Mas enquanto este dia não chega, Luíza continua na vida que escolheu, talvez por não ter tido outra opção. As prostitutas de luxo têm seus pontos, cafetinas que lhes agenciam, prestam seus serviços amorosos a políticos importantes, ganham bem, mas Luíza não tem ponto certo. A prostituição não é bem vista, apesar de existir algumas à moda da Grécia, onde existia um grupo de cortesãs, chamadas hetairas, que frequentavam as reuniões dos grandes intelectuais da época. Eram muito ricas, belas, cultas e consideradas como damas finas, e tinham grande poder político. Eram extramente respeitadas. No Brasil a realidade das prostitutas pobres é bem diferente. Luíza precisa trabalhar duramente todas as noites para comer e pagar aluguel de um quarto miserável.
Vamos acompanhar Luíza por alguns anos, para conhecer o seu modo peculiar de vender seu corpo a estranhos. E para onde vai Luíza? Ela desce a rua estreita, rumo à estrada federal que corta a cidade grande. Seu ponto de negócio é a estrada da morte, lugar conhecido por grandes acidentes. É noite, mas não muito tarde, os faróis dos carros lhe dar a sensação de embriaguês, não pensa em outra coisa, só em arrumar logo um pretendente que lhe garanta a comida do dia seguinte.
Há algum mistério no ar, diria algum vizinho atento. As pessoas que conhecem Luíza não sabem que ela vende o corpo na estrada da morte, menos ainda que ela seja uma mulher tão miserável e solitária, pois quando por acaso cumprimenta vizinhos, deixa uma ótima impressão sobre sua pessoa, é sem sombra de dúvida uma pessoa boa, de alma generosa, e sobretudo trabalhadeira, todos pensam que ela trabalha à noite em algum setor noturno, sem todavia desconfiar do seu verdadeiro ofício, sua conduta e postura nobre não desperta qualquer suspeita. Mas ningupém sabe realmente quem é Luíza. Entre e sai de sua casa, geralmente quando não há alma viva por perto. Luíza tem alma discreta, característica de quem sofre calado alguma dor emocional.
Luíza se apronta para parar um carro, que vem em baixa velocidade. Embora bem vestida, uma mulher pode despertar a atenção de quem passa à noite, por uma estrada deserta. Ela acena para o motorista, que lentamente diminue a marcha para estacionar no acostamento escuro. Luíza não treme de medo, mas se emociona por perceber a situação que lhe espera – ter encontro íntimo com um desconhecido, com alguém que pode lhe causar dor, mesmo que não lhe maltrate fisicamente.
Enquanto o carro para, Luíza relembra sua vida no interiou, lembra da falta de sorte, de como foi abandonada por um homem a quem dedicou toda sua vida, a desilusão sofrida justifica a sua atual situação, e como que num filme em preto e branco, ela recebe toda a carga emocional do momento do trauma, do abandono. Mas Luíza tem certeza de que não há outra vida, senão aquela que escolheu viver. Fixa sua mente no propósito que tem que realizar – viver a sua vida miserável, como forma de suicídio consciente, uma vigança para ter sobre seu domínio, homens diversos. Nas suas relações com estranhos, Luíza não se constrange, age como se fosse aquela a sua condição desde de muito tempo, era como se ela estivesse na verdade se relacionando com seu antigo namorado.  Luíza encontrou este modo inconsciente de escapar do vexame moral, que era para uma mulher honesta se prestar a este artifício para ganhar a vida.
A visão, embora seja à noite, é impressionante; uma mulher com porte de princesa caminha à beira da estrada, seus movimentos são  firmes, com passos retos luíza se dirige para seu predador natural, até aqui não lhe sobrevém nenhum remorso, seu desejo é se entregar para um homem estranho, que não lhe cobrará responsabilidades futuras, nem afeição. Seu vestido vermeho brilha sob a luz azulada do automóvel, sua pele branca destaca-se no desenho do vestido, fazendo aparecer sua silhueta inesquecível. O encontro da luz com o dourado dos cabelos  de luíza reluz como se fossem reflexos de uma luz ao encontrar com espelho, uma imagem de sublime perfeição estética. Não seria comum se encontrar uma mulher deste porte, de carne e osso, à beira da estrada da morte, provavelmente o motorista tenha tido calafrios, ao ver se aproximar aquela aparição.
O carro pára. Luíza se  dirige para o estranho solícito.
-Como vai? – Diz Luíza com a voz meiga e calma.
O estranho, com riso fácil, manda ela entrar no carro. Luíza obedece e senta-se ao lado de um homem jovem, até certo ponto simpático. A conversa evolui. O estranho a convida para irem a algum lugar, para se divertir, antes de possuí-la.
Luíza não aceita, diz que não tem hábitos de ir a bares com estranhos ou mesmo a motel com clientes. E que se o homem quiser ter alguma coisa com ela terá de  ser no carro, ali mesmo. Esta atitude deixa o seu novo cliente confuso. Como que uma mulher de beira de estrada pode se revelar tão moralmente firme, quanto a decisão de não se tornar íntima daquele a quem oferece seu corpo por dinheiro? Mas não há desacordo quanto ao preço e lugar… venda  cossumada, ali na estrada da morte, o cliente não reclama do modo nem do serviço prestado, afinal, Luíza é uma bela prostituta, com potencial para ser primeira dama de qualquer estado. Luíza deixa para trás mais um estranho satisfeito e encabulado.
A estrada da morte, como era conhecida ficava um pouco afastada da cidade, para voltar para casa, Luíza precisava pegar um ônibus, por ser já meio tarde não estava lotado como os que circulavam durante o dia. Ao entrar no ônibus, Luíza tem a impressão de que todos os olhares são para sua vergonha, como se todos soubessem de onde ela vinha e o que esteve praticando. Alguns homens da classe operária lhe olham tirando-lhe o vestido vermelho. A viagem é curta, apenas alguns quilômetros. Luíza chega em seu prédio ja depois da meia-noite. Depois que a porta se fecha, Luíza enfim se entrega ao pranto, seu dsencanto não tem tamanho, fora maior que o dia em que fora abandonada pelo seu primeiro e único amante. Luíza rasga o vestido, único vermelho que possuía, corre ao banheiro e liga o chuveiro na temperatura máxima, para ver se consegue lavar as marcas do homem estranho, por todo seu corpo. Durante o banho relembra as palavras do seu cliente, a fúria com que lhe pussuiu, a estravagância a que foi submetida em sua primeira relação em troca de dinheiro. Era como se o seu corpo fosse agora uma entidade à parte, sua alma se afastara da consciência dos seus movimentos físicos. Mas a sua mente prosseguiria com o mesmo propósito? Embora desligada do corpo a que submetera tão horrendo sofrimento, seguiria até  fim, com aquilo que acreditava ser sua razão de vida?

um dia sem noite

Um dia sem noite

Era dia ainda claro, um dia daqueles que o sol se atrasa, para cumprir seu papel natural – ir embora para que a noite possa aparecer um dia diferente, mais longo que os outros, e sabe Deus, por obra de quem, este milagre. Deram oito horas, já era noite, todavia, ele, o sol, ainda estava no firmamento. Parecia que a noite não viria mesmo, teria por fim, cumprido seu circulo milenar, sua eterna viagem, seu tanto ir e vir? Um dia eternamente claro, agora era dia, só dia, a noite não mais existiria, e para quem nascesse a partir desta data, jamais conheceria o que era noite.
Não sabendo por que se dava tal fenômeno, as pessoas começaram a gritar umas de júbilo, outras de desespero, pois perceberam que se tratava de algo muito assustador, talvez fosse mesmo o início do fim do mundo. Porém, em um banco de praça, junto a um belo jardim, pois era primavera, se encontrava um homem calvo, de barbas um pouco grisalhas, de pele parda, um senhor que nos a parenta, olhando de longe de ter em média, uns cinqüenta anos ou um pouco menos. Um homem que parecia não perceber o que acontecia à sua volta. Este senhor vivia a contemplar as flores que eram diversas e muito belas, e nesse dia especial nada lhe pareceu diferente. Embora os gritos das pessoas fossem ensurdecedores, ele não os escutava.
Então, eu que logo observei aquele ser estranho no meio de uma multidão desorientada, desci do meu posto, aproximei-me dele, para indagar, se ele era surdo, talvez fosse um louco, daqueles que não vivem mais entre os homens que são sensíveis ao mundo que lhes cercam. Chegando perto do homem passivo ao barulho de gente comum, perguntei:

-Não escuta a balbúrdia que faz este povo em tua volta, por conta da presença constante do sol?
-Bom tarde nobre cavalheiro, não sabe por que razão este povo grita – é claro que os escuto, só não lhes dou ouvidos. Eu costumo vir aqui para apreciar o pôr-do-sol, esta praça é especialmente deleitosa porque fica muito perto do mar, e hoje, eu fiz uma prece para que o sol se demorasse um pouco mais, pois a vista estava incomparável, será que é isso, será que fui ouvido por Deus, e por isso o sol ainda não se foi? Eu nem percebi que já era tão tarde.
-Que loucura é esta? É verdade que o sol ainda brilha como se fosse tarde, mas não creio nobre senhor, que tenhas algo a ver com este fenômeno, que a ciência explicará daqui algumas décadas, ou milênios. Porventura, és tu, um santo, ou um profeta?
-Não senhor caro desconhecido, eu não tenho nenhuma afinidade com os livros sagrados nem com os deuses.
-Mas, a pouco me disseste, que havia feito uma prece, para que o sol se demorasse, única e exclusivamente para prolongar o teu deleite na observância das flores sobre o efeito mágico do pôr-do-sol, como não és crente? Pelo que me consta, só fazem orações quem acredita de alguma forma em Deus ou em deuses.
-Não se trata de crença ou descrença, meu caro amigo; eu falei da prece, mas a prece a que me refiro, não é denuncia de que eu creia ou descreia,  apenas usei uma forma de expressão comum que seria aceitável para qualquer pessoa – depois uma aprece tem o mesmo efeito que um suspiro de saudade ou de desejo muito forte por alguma coisa que não temos o dom de realizar, são formas naturais de nossa alma expressar os sentimentos internos; entende?
-Acho que sim, é porque estamos habituados a ouvir, geralmente o que as pessoas têm no coração, pessoas simples são transparentes, não guardam segredos,  então na primeira conversa fazemos um juízo de valor da sua personalidade, mas vejo, de fato que não és uma pessoa comum, notei por tua passividade ao que nos acontece nesse dia atípico, um dia sem noite – que pensas sobre isso, agora falando sério!
-O que eu penso, talvez não te surpreenda, também percebo que estás muito calmo com toda essa histeria popular – e por que só tu vieste ate mim, para saber o que penso sobre o sol perene e a reação das pessoas.
-É simples, o que é comum não nos diz respeito. Eu sou um viajante do futuro – é assim que deves acreditar. Percebo comportamentos incomuns entre os mortais então procuro descobrir a causa.
-Um viajante do futuro, ha.,ha.,ha. – essa é boa – então me conte algo sobre o futuro, para que eu possa acreditar que não estás a troçar de mim.
-Do futuro não posso contar nada, mas do passado sim, eu contarei e mostrarei o que te fez ficar assim, tão indiferente para com as pessoas normais. Vou começar por te fazer lembrar a tua infância, talvez por lá encontraremos uma pedra deste imenso quebra-cabeça.
-Não posso acreditar que eu tenha pedido a Deus, apenas que segurasse o sol, e ele tenha me enviado um detetive angelical, um psicólogo das estrelas, para descobrir os crimes que cometi contra a humanidade.
-Não, meu senhor não está interessado em regressão mental ou espiritual, não me perturbe, deixe-me em paz.
-Calma meu senhor, fiz só uma brincadeira, tenha calma, sou alguém interessado em lhe ajudar, só isso, mas não farei nada que não me dê permissão. Embora tenha poder para fazer qualquer um voltar à sua infância, à qualquer tempo em sua vida vivida, não farei nada que não me concedas realizar.
-Ah, bom! Pensei que era um daqueles anjos intrometidos nos assuntos alheios. Mas quero lhe avisar outra coisa: não acredito em anjo, muito menos santo barbado.
-Tudo bem amigo, eu estou deveras acostumado com pessoas incrédulas, também não lhe disse que era um anjo, disse?
-Não importa! Preciso ir agora.
-Mas o sol ainda não se pôs, não podes ir enquanto for dia, não foi isso que pediste em tua prece?
-Sim! Foi! Mas o que é que tu queres de mim, por acaso queres me converter a alguma crença nova?
-Eu vou lhe contar algo muito sutil, que fará você mudar de opinião a meu respeito, e sobre as minhas intenções com sigo. Lembra de um dia especial, em tua tenra infância, muito tempo já passou, mas vai se lembrar, falo daquele dia em que você foi à escola pela primeira vez.
-Claro sim, quem é que se esquece de um momento tão singular na existência, o dia em que começamos a descobrir o que há no mundo das letras e dos livros?
Ficou claro, para mim, que aquele senhor, só pelo fato de fazê-lo lembrar algo doce de sua infância, logo abriria sua guarda, e me contaria em pormenores, eventos que lhe aconteceram, eventos que me ajudaria no meu propósito de fazê-lo compreender a razão de sua atuar solidão. Seu semblante tornara-se agora suave, os músculos de sua face afrouxaram-se e permitiam-me vislumbrar uma alma delicada. Como que uma lembrança meiga pode trazer uma mudança de atitude ta rápida, inesperada. Ele continuou a me falar:
-Aquele dia me lembra como se fosse hoje; minha mãe me dissera que eu iria conhecer muitas crianças iguais a mim, professores inteligentes que me mostrariam todas as faces do mundo.
-Mas o que de especial, além do fato que já mencionaste, dos colegas, do professores, o clima de novidade, algum acontecimento inesquecível que te marcou profundamente?
-Sim, claro! Foram muitos acontecimentos, cada um com sua peculiaridade, cada cena com que me deparava, revelava-me um mundo novo. Foi mágico, incomum; mas eu guardei no coração algo que jamais esquecerei. Foi no momento em que fui apresentado à minha professora de língua portuguesa, ela disse para toda turma: “crianças, hoje é um dia muito importante para todos nós; para mim, pois nunca se repetirá dia igual, e para vocês um dia que marcará para sempre as suas vidas – eu sou a professora que vos ensinará a falar.” – Eu fiquei chocado com as suas palavras, então perguntei para ela, à queima roupa. Por que diz que aprenderemos a falar consigo, se já temos em média sete anos? -Ela sorriu como uma princesa e rematou: “digo, a falar direito da forma culta, meu – como é seu nome jovem corajoso e atraente?” – Lhe respondi por cima da bucha, não direi, exceto, quando souber o seu, professora. “tudo bem, desculpe-me o mau jeito, não tive tempo para me apresentar. Então, para você e para quem mais interessar, eu me chamo Glória.” Quando ela terminou a apresentação, disse que sairíamos do seu curso, no final do ano letivo, falando corretamente. Eu duvidei, mas fiquei quieto. Havia um menino negro, que se assentava logo à minha esquerda, e todos os dias, a partir daquele primeiro dia inesquecível, sempre que ela entrava na sala, ele cantava um trecho de alguma canção cristã, que tinha o nome dela, e no final arrematava com um aleluia, que era acompanhado por metade da classe, fazendo troça com minha encantadora mestra. Ela, porém, nunca  deu  atenção para aquela tolice infantil.

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