Ensaios

ÉTICA HUMANA
 
“Quando os homens são éticos, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis. ”
 
Para iniciar este ensaio, me apossei deste pensamento de Benjamin Disraeli, apenas troquei a palavra puros, por éticos. Na sociedade humana, hoje regida por boas leis, ainda não compreendemos corretamente a razão da falta de justiça e paz no mundo. As leis, embora feitas por homens bem-intencionados, não raro são baseadas em princípios divinos, inspirados por leis que remontam a antiga Grécia, contudo, não são suficientes, pois os homens não são capazes de se auto governar, a prova é que os vários tipos de governo já experimentados, nenhum deles se mostrou eficaz para corrigir antigas mazelas da sociedade organizada.
 
Há, na obra judaica, no livro de Eclesiastes, livro este elogiado por grandes eruditos como Harold Bloom, tem um pensamento intrigante, onde reza: “Homens têm governado homens para seu próprio prejuízo”, em outra referência da mesma fonte inspirada, diz assim: “Bem sei oh Deus que os homens não são capazes de dirigir os seus passos. ”
 
Jesus Cristo, em seu famoso sermão da montanha, registrado por seus leais seguidores, fala sobre uma regra de ouro capaz de resolver todos os problemas étnicos, sociais e jurídicos da humanidade, diz o Cristo: “Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. ”
 
Este pensamento universal antigo, de boa moral humana, todo em parte, a sua essência pode ser encontrada em várias religiões. No Zoroastrismo, (Cerca de 660 – 583 a.C.) No Budismo, (Cerca de 563 – 483 a.C.), Não importa sua autoria, e sim seu ensinamento, que de fato, se for posto em prática resolverá todos os conflitos armados do mundo.
 
A ideia do bem e do mal sempre foi assunto de preocupação para as grandes almas, que já viveram neste planeta. Desta forma, cada um deixou sua contribuição, como um elo, que se for juntado aos demais, e sobretudo posto em prática poderia melhorar bastante a situação do homem terreno.
 
Aristóteles começa sua Ética com estas palavras:
 
“Toda arte e todo saber, assim como tudo que fazemos e escolhemos, parece visar algum bem. Por isso, foi dito, com razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem, mas há uma diferença entre os fins: alguns são atividades, ao passo que outros são produtos à parte das atividades que os produzem. ”
 
Platão:
 
“O Bem ilumina o ser com verdade, permitindo que seja conhecido, assim como o Sol ilumina os objetos e permite que sejam vistos – nota-se aqui a analogia entre Bem e Sol apresentada no mito da caverna.”
 
A Ética de Epicuro
 
 “A cada desejo é conveniente perguntar: que sucederá se for satisfeito? Que acontecerá se não for satisfeito? Só o cálculo cuidadoso dos prazeres pode conseguir que o homem se baste a si próprio e não se converta em escravo das necessidades e da preocupação pelo amanhã. Mas este cálculo só se pode ficar a dever à virtude da sabedoria, que é mais preciosa que a filosofia, porque por ela nascem todas as outras virtudes e sem ela a vida não tem doçura, nem beleza, nem justiça.
 
Em minha opinião não sei conceber que coisa é o bem se prescindo dos prazeres do gosto, do amor, dos prazeres do ouvido, dos que derivam das belas imagens percebidas pelos olhos e, em geral, todos os prazeres que os homens têm pelos sentidos. Não é verdade que só o gozo da mente é um bem; dado que também a mente se alegra com a esperança dos prazeres sensíveis em cujo desfrute a natureza humana pode livrar-se da dor”.
 
Sempre tentando encontrar uma regra ou uma norma ideal de vida, onde o homem possa ser íntegro, feliz e ao mesmo tempo moralmente bom ou puro, estes sábios indicaram um norte, mas que nunca foi seguido de perto por muitos homens, é fato que alguns poucos souberam aproveitar este conhecimento milenar para regrar suas vidas. Mas, infelizmente, em uma sociedade plural, como modelo de vida ou de governo nunca foram aplicadas tais normas de conduta.
 
As leis existem para tipificar crimes e ilícitos. Nós sempre fomos competentes para criá-las, até mesmo com exacerbado exagero, todavia, nunca fomos capazes de seguir, em sua real inteireza e essência uma única sentença divina, a regra de ouro do Cristo, ou de tantos outros que a proclamaram.
 
“Portanto, tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. ”
 
Por Evan do Carmo

ABORTO: O DIREITO DE VIVER É IMPEDIDO QUANDO O DIREITO DE MATAR É PERMITIDO.

“A vida é dom divino. ” Esta expressão inspirada, por si só não pode ser a causa preponderante, para que uma pessoa possa resolver abortar, matar ou não um ser indefeso, contudo, a decisão sobre este assunto de extrema relevância humana é algo muito mais complexo. A mulher, segundo algumas leis modernas, pelo mundo afora, tem direito sobre seu corpo. Pode decidir o que fazer com ele. Existe, portanto, uma jurisprudência, sobretudo relacionada ao direito de vender o seu corpo, todavia, em muitos países, a prostituição, como o aborto, também é um crime, e em alguns países, crime hediondo.
O aborto é a interrupção de uma gravidez.

“É a expulsão de um embrião ou de um feto antes do final do seu desenvolvimento e viabilidade em condições extrauterinas. O aborto pode ser espontâneo ou induzido. São várias as causas e os motivos que podem levar a que uma gravidez seja interrompida, quer espontaneamente, quer por indução. O aborto pode ser induzido medicamente com o recurso a um agente farmacológico, ou realizado por técnicas cirúrgicas, como a aspiração, dilatação e curetagem. Quando realizado precocemente por médicos experientes e com as condições necessárias, o aborto induzido apresenta elevados índices de segurança. ”

A vida é sagrada para Deus, e ele encara até mesmo um embrião como um ser vivo, distinto. O Rei Davi foi inspirado a escrever o seguinte sobre Deus: “Teus olhos viram até mesmo meu embrião. ” (Salmo 139:16) Deus declarou que a pessoa que causasse dano a um bebê por nascer teria de prestar contas a Ele. Assim, aos seus olhos, matar um bebê ainda no ventre é assassinato. — Êxodo 20:13; 21:22, 23.

E se numa situação de emergência durante o parto o casal tiver de escolher entre a vida da mãe e a do bebê? Nesse caso, cabe ao casal decidir que vida salvar.

As Escrituras deixam claro que dentro da mãe se desenvolve um ser humano individual, ímpar. A vida começa na concepção. O nascimento no mundo apenas revela ao homem a criança que Deus já viu. Ezequiel fala de ‘cada criança que abre a madre’. (Ezequiel 20:26) Jó menciona “as portas do ventre de minha mãe” e se refere a abortos como “crianças que não viram a luz”. — Jó 3:10, 16.

Mais de 50 milhões de abortos são feitos todos os anos. Esse número é maior que a população de vários países.

“As mulheres fazem abortos por vários motivos. Entre eles estão dificuldades financeiras e problemas de relacionamento com o pai da criança. Algumas mulheres também não querem ser mães solteiras ou acham que ter um filho as impediria de ter uma carreira profissional ou de estudar mais. Já outras pessoas acham que o aborto é errado e que uma mulher grávida tem a responsabilidade de cuidar da vida que ela carrega.”

Existem outras maneiras de saber o que Deus pensa sobre a vida de uma criança que ainda não nasceu. Por exemplo, a Lei que ele deu à nação de Israel no passado e a consciência que ele nos deu. A Lei dizia que, se uma pessoa ferisse uma mulher grávida e o bebê morresse, essa pessoa seria julgada e talvez tivesse que pagar com a própria vida. (Êxodo 21:22, 23) Mas, antes de tomar uma decisão, os juízes analisavam as intenções do assassino e as circunstâncias envolvidas. — Números 35:22-24, 31.

Mas estas referências não são leis absolutas, sobretudo para quem não tem temor de Deus, para quem não acredita Nele, ou para quem não tem interesse no ponto de vista de Deus sobre o assunto.
Há ainda, portanto, as complexidades deste tema. Por exemplo, como proceder, quando uma mulher é abusada sexualmente ou quando é uma pessoa incapaz, menor de idade, delinquente, drogada ou vítima de insanidade mental?

UMA ÓTICA JURÍDICA SOBRE ABORTO

Maria Helena Diniz:

“A vida é igual para todos os seres humanos. Como então se poderia falar em aborto? Se a vida humana é um bem indisponível, se dela não pode dispor livremente nem mesmo seu titular pra consentir validamente que outrem o mate, pois esse consenso não terá o poder de afastar a punição, como admitir o aborto, em que a vítima é incapaz de defender-se, não podendo clamar por seus direitos? Como acatar o aborto, que acoberta em si, seu verdadeiro conceito jurídico: assassinato de um ser humano inocente e indefeso? Se a vida ocupa o mais alto lugar na hierarquia de valores, se toda vida humana goza da mesma inviolabilidade constitucional, como seria possível a edição de uma lei contra ela? A descriminalização do aborto não seria uma incoerência do sistema jurídico? Quem admitir o direito ao aborto deveria indicar o princípio jurídico de qual ele derivaria, ou seja, demonstrar cientifica e juridicamente qual princípio seria superior ao da vida humana, que permitiria sua retirada do primeiro lugar da escala de valores? A vida extrauterina teria um valor maior que a intrauterina? Se não se levantasse a voz para defesa da vida de um ser humano inocente, não soaria falso tudo que se dissesse sobre os direitos humanos desrespeitados? Se não houver respeito a vida de um ser humano indefeso e inocente, por que iria alguém respeitar o direito a um lar, a um trabalho, a alimentos, à honra, à imagem etc… Como se poderá falar em direitos humanos se não houver a preocupação com a coerência lógica, espezinhando o direito de nascer? ”

Seguindo a linha de raciocínio da jurista acima, penso que poderemos chegar a um consenso sobre o que é assassinato. Por exemplo, se uma mãe, ao matar uma criança, nascida com alguns dias ou anos de vida, segundo a lei universal dos direitos humanos será punida com a severidade que requer o caso, visto que tirou a vida de um ser humano, e isso pelo fato desta vida se encontrar fora do seu corpo, então por que não seria o mesmo crime matar uma criança que esteja ainda em sua barriga, mas que segundo a ciência já está completamente formada, sendo, portanto, um ser vivo que se alimenta e respira?

Evan do Carmo

 

A fraqueza dos que hoje pensam.

Como pode ser fraca a arma mais poderosa que possuímos? Sendo a defesa maior de que dispõem o ser humano, o pensamento: muitas frases mudaram o mundo…. Entretanto, quantas frases novas têm surgido hoje, neste escuro universo das ideias?  São densas as trevas que cobrem as cabeças racionais!

É uma incoerência a afirmação de que só os mortos tenham razão, e por isso a força do discurso para convencer e conduzir os vivos.

A humanidade vive e revive as frases feitas há milênios como se estas fossem realmente verdades imutáveis. Admito que seja possível reescrever algumas ideias, porém, nunca na essência total para o que foram intencionadas no passado remoto…. Entretanto, é tola a ideia de que os homens em geral avançaram, prosperaram no campo mental filosófico…. Quantos séculos foram necessários para surgir outro gênio do quilate de Heráclito? Seu rio continua a fluir com a mesma calma que há dois mil anos. Digo isto por que, depois dele, a partir dele até Nietzsche não surgiu nenhum homem honesto. Só veio à existência uma nova luz com a sua auto apresentação no cenário sombrio das ideias. Nietzsche, o mais honesto de todos os homens, de todos os gênios, o maior profeta-poeta-filósofo de todos os tempos, o único que até hoje continua extemporâneo, reinará para sempre em seu castelo-caverna, como o mais isolado de todos os eremitas, ainda aguardando o seu meiodia.

Os que existiram entre os dois, estão mortos e enterrados no meio dos dois extremos. Não há espaço para suas ideias ultrapassadas. Estes pregadores arcaicos do medo, que sussurravam as primeiras sílabas da profética e soberana luz da filosofia. Quando de longe vislumbravam a face dessa ninfa de cristal, quando ensaiavam os primeiros passos nesta estrada infinita do conhecimento superior! Estes, portanto, não reclamam hoje a autoria e a honra eterna de suas obras inacabadas, dos seus rascunhos mentais. Além do mais, com algumas exceções, eram de fato, bonachões, profetas cabeçudos, embriagados com vinho novo, mal fermentado; empanturrados com as iguarias dos teólogos mau-caráter que dominavam súditos e débeis reis! A exemplo de Aristóteles, o mais venerado por teólogos e clérigos cegos que guiavam uma humanidade de aleijados mentais…

Hoje estes não passam de tenores mudos, que distraem crianças com suas mímicas malfeitas, ou nas melhores das hipóteses conseguem conduzir os velhos atrofiados mentais para um poço sem fundo, para um abismo de insalubridade…  Estes são os filósofos da idade da pedra, os bárbaros medievais, que usavam escudos imensos e espadas que não davam conta de carregar; a exemplo de Platão e seus desafetos, que sorrateiramente introduziram suas doutrinas, e suas ideias irresponsáveis; sobretudo, Platão o criador do mundo invisível, o dono da doutrina poeirenta da transmigração da alma. O que na verdade, não é só dele esta bestial ideia, ele apenas organizou a pedido dos clérigos da pré-religião; foi, acima de tudo, um plagiador dos teólogos corruptos que usavam como arma psicológica o medo mórbido do inferno de fogo, para converter os decadentes, e usurpar seus bens em troca de um quinhão melhor no além, no paraíso celestial, nas esferas espirituais da boa aventurança… Ideias essas que os fracos compraram com uma facilidade mordaz, com um apetite voraz, como única e melhor opção de prazer eterno. Com uma atitude irresponsável, desprovida da mínima curiosidade de raciocínio e lucidez moral; e de inteligência racional. Estes são criadores de mitos e de crenças tosca arbitrária, e contraria à justa e inescusável natureza. É, portanto, Platão o mais vil de todos os nazistas, o pregador da morte como descanso da incapacidade, ou como prêmio para o fracasso, e como recompensa pela frustração dos objetivos não alcançados, então nos oferece seu reino de supremacia do espírito, da decadência física, da carne que é deveras a perfeição da natureza…

Nem um homem em sã consciência optará por um mundo inexistente, pela dúvida do além-túmulo…. Somos o todo que há, somos a soma de todos os lados do universo, não existe vida depois do horizonte, depois de baixar o pano do teatro da carne e do sangue, nem matéria no buraco negro que nos espera. Não percamos tempo em conjecturas, e indagações sobrenaturais, ou com algo semelhante, vivamos a vida que está no sangue, que pulsa em nosso corpo vivo; na força do Vir a Ser, do Devir, do existir. Todo labutar físico será em vão, se enveredarmos pelo caminho obscuro da ilusão, da incerteza eterna, da vitória do não ser; contra o ser vivo. Não gaste seu tempo precioso com reflexões sobre metafísica, nem em analisar crenças inócuas, nem tampouco dê ouvidos aos discursos delinquentes da fé do porvir, da ociosidade da alma. Digamos não para estes Filisteus da consciência, da sabedoria irrefutável…   É lamentável para mim e para os meus pares estes rumores de que a humanidade tenha avançado, prosperado mental e culturalmente falando; não concebo esta ideia, de que se estude hoje nas melhores escolas, o arcaico Aristóteles, Platão, Kant, Goethe, Maquiavel, Descartes e seus associados mentais, e isso apresentado como filosofia imutável. E mais, na arte, que se difundam os poetas do medo, (Dante), os pastores da corrupção moral, que foram infectados pelos teólogos das trevas da ignorância, no entanto, embora seja fato que, estes fantasmas vivam na maioria dos corredores intelectuais modernos, nos viciados no ópio que alucina os nômades tribais sem consciência de tempo e de espaço. Graças ao poder da livre leitura, da observação minuciosa dos mestres autodidatas, temos à vista não muito longe, pontos de luz no fim do túnel, neste abismo de incoerência, nesta disputa que tornam muitos homens de potencial em bestas quadradas e obtusas, que por não compreenderem os fatos, por não ouvirem os berros roucos da racionalidade, migram para as tribos dos canibais, que se alimentam com a carne dos seus próprios corpos mentais…

Diria um homem comum, da casta dos decadentes, dos fracos, dos que acham que já chegamos ao fim da linha, do raciocínio, que somos fortes e capazes, que tudo que foi dito, está dito sem contradição lógica…. Engana-te, cabeça oca. Os homens não sabem sequer porque são homens, ou se são homens, não começaram nem a perceber que são racionais…Isto é notório a qualquer criatura, por exemplo: quando surge um enviado, um extraterrestre ou um profeta com novidades, que na verdade nos trazem coisas óbvias a qualquer ser pensante, são apedrejados por difundir o desejo inerente a todos, a liberdade…Lembra Giordano Bruno que foi julgado e condenado a morte pelo tribunal da “santa” inquisição, e Galileu que escapou por pouco da fogueira ardente?

São deveras brutos incapazes de veem além do alcance dos olhos, à luz da consciência…. Eu ataco, portanto, tudo que se define, ou que foi definido por alguém, tudo de concreto, terminado acabado, de imutável, segundo os que lhes deram à luz, à vida…. Contudo, para mim não existe fim da folha em branco, ou escassez de pensamento. “Meu paraíso está sobre a sombra da minha espada” Minha caneta… Não peço, portanto, desculpa se incomodo aos homens fracos, pois suas opiniões não me interessam. Só uma coisa é imutável, eu! Sou dono do meu destino faço meu o meu caminho e trilho nos trilhos fixos do meu universo.

Não quero nem peço que me escutem, nem que me respeitem, só vivo e respiro a rebeldia salutar para o meu existir, hábito nas alturas da inteligência que o resto dos homens ignora, desconhecem…, entretanto, deixo-lhes uma frase do mestre dos mestres: “só existe uma verdade a minha e a tua, meu irmão. ” Vou, além disso, só há uma verdade: o poder e a força para dizer não para todos que anunciaram suas verdades…. Inclusive a sua própria!

Tudo pode migrar de um ponto para outro, tudo pode convergir, se transformar! “A vida não é injusta, o homem sim”!

Entre os músculos de Platão, e a loucura consciente de Nietzsche, fico com a minha inquieta lucidez!      Um pouco mais pretensioso que veraz!

 

do livro Presunção d 2006

A intolerância intolerável – Ser humano é ser desigual,

Do pressuposto de que todos os seres humanos se originam de Deus, fato este que pode ser facilmente constatado e compreendido, pelo complexo expediente da razão, comum em todos nós; uma vez que os animais, por serem movidos pelo instinto não odeiam seus semelhantes nem premeditam o mal. Logo, os seres humanos mais evoluídos na complexidade heterogênea da humanidade, devem perceber que as diferenças físicas, culturais e emocionais, são na verdade a nossa maior riqueza espiritual.

Todavia, esta mesma heterogeneidade sempre foi a mola propulsora para o desenvolvimento do preconceito, e de toda sorte de violência, por todos os tempos idos e vividos. Por séculos temos experimentado muitas formas de intolerância: religiosa, cultural, racial e, sobretudo social. A cor da pele, o credo professo, a ideologia política, e, atualmente está em voga o preconceito sexual de forma exacerbada, como nunca se vivenciou.

Ser humano é ser desigual, esta realidade ainda está oculta a muitos espíritos, à maioria dos homens deste planeta subdesenvolvido. O homem rude, aquele que não praticou de forma cabal a sua humanidade, desconhece, portanto, este princípio moral e divino: fomos feitos desiguais para que vivenciássemos várias experiências, e estas são capazes de nos tornar criaturas melhores, mais generosas, humanas.

No entanto, onde reside a causa de nossa estupidez, no que tange a intolerância? Se realmente somos racionais, o que é que nos falta para compreender e praticar a tolerância? Esta pergunta deve ser a premissa para começarmos a mudar o mundo, todavia, este mundo que ainda não conseguimos transformar, é a nossa própria mente arraigada no obscurantismo tribal, onde habita toda sorte de vestígio de desumanidade.

Não precisamos ir muito longe, ou tratar este tema de forma universal, evocando aqui as grandes guerras, os genocídios dos índios americanos, o terror africano do Boko Haram, as cruzadas da idade média, ou mesmo o grande holocausto ariano. Talvez aludindo ao massacre sírio, sob a égide do Estado Islâmico. Nos basta averiguar o que ocorre em nossa volta, o desequilíbrio emocional que afeta toda esta geração de pessoas intolerantes. São intolerantes com os diferentes, em qualquer contexto, seja étnico, social ou religioso. Cometem as piores barbáries, crimes violentos no futebol, na política, no mundo dos negócios, influenciadas pela ganância e pelo desejo de ter mais poder.

Nunca foi tão perigoso expor nossas opiniões, seja sobre qualquer assunto, contudo, pessoas que são intolerantes em qualquer realidade, física ou virtual, mesmo que seja apenas por simpatia a um determinado grupo, ideologia ou crença, revelam uma estupidez sem par, desconhecem, portanto, a natureza humana, sobretudo revelam sua imensa ignorância com respeito á própria essência humana, heterogênea que é a soma de toda nossa vivência com a natureza desigual.

Relembro aqui o pensamento universal de Leon Tolstoi “Se queres mudar o mundo começa pintando tua aldeia” Não será perseguindo, agredindo e matando a minoria que iremos transformar o mundo, ou talvez construí-lo à nossa maneira, pois sempre haverá aqueles que nos serão distintos: na cultura, nos gostos culinário e musical, na opção sexual, na política ideológica, na crença ou na descrença. Somos diferentes por natureza, e devemos ter em mente, de forma constante e consciente, que todos os seres humanos possuem sua própria visão sobre o universo, do qual todos nós querendo ou não, fazemos parte.

Por que o amor vale a pena.

Grandes  poetas e pensadores, sobretudo os que se esquivaram de amar, ou que por desilusão amorosa, como Fernando Pessoa e Nietzsche, se isolaram da convivência com os meros mortais, chegaram a tal conclusão errônea: A de que o amor enfraquece o espírito. Que  só amor destrói.

Bom, lamentável para eles, pois nao chegaram a conhecer o real sentido da existência humana. Todavia, embora filosoficamente tenham alguma razão as suas teses bem escritas, isto ocorre pelo fato de todos nós termos um filósofo que nos atormenta, mas em mim sempre vence o o poeta que nos acalenta. Graças ao amor que vivi, que dei e recebi, é por este amor que estou vivo.
Fraco, talvez, pois o amor tem suas nuances, e suas reciprocidades. Quem amar cuida, cuidar de alguém requer tempo e dedicação diários. Sou frágil por amar, sou tolerante por amar. Sou incapaz por amar. Sou injusto por amar. Sou, sobretudo infeliz por amar apenas de modo parcial quando devia ser perfeito e completo por amar.

Mas, acima de tudo e de todos os entraves que o amor possa criar nas relações humanas, afirmo e confirmo com minha vida prática, que o amor, mesmo imperfeito e falho pode ser, a longo prazo a salvação de nossa humanidade.

Morte, inimigo número um do homem

Nossa alma sofre quando percebe a transitoriedade da vida, a existência, em sua mais alta complexidade nos proporciona reconhecer que somos como uma bruma. Há uma força brutal na expressão: “tu és pó e ao pó voltarás”. Convivemos muito bem com o nosso melhor inimigo, a morte, desde que ele não bata em nossa porta. Sentimo-nos capazes até de consolar alguém enlutado, temos palavras cheias de boa vontade, e expectativa de que nosso próximo possa superar a dor dilacerante da morte de um ente querido. Todavia não cogitamos o fato concreto, nem em hipótese admitimos que a morte exista para todos. É como já disseram alguns filósofos estéreis, a morte é nossa única certeza. Assim como morre o homem, morre o cão. Alguns ainda defendem que a morte seja  uma coisa supra natural, que ao morrer se encontra o descanso eterno e desejado durante toda luta pela vida, pela felicidade.

Para sustentar esta tese, alguns estudiosos, sobretudo Freud, defendiam que todos os seres humanos têm um desejo inconsciente de morte, para enfim se livrarem dos imprevistos, que segundo o livro de Eclesiastes sobrevêm a todos. Neste mesmo livro magnifico há uma expressão que coaduna com muitos pensamentos filosóficos, de que a morte nada mais é que um estado de perene letargia, um sono profundo que outros teóricos cognominam de Nirvana.

“(…)Freud referiu-se a isso como o início do Nirvana. Nirvana é um conceito budista normalmente traduzido como “Heaven”, mas o seu significado literal é “soprar drenagem”, como quando uma chama de uma vela extingue-se suavemente pelo sopro. Refere-se a não-existência, nada, vazio, que é o objectivo de toda a vida na filosofia budista.(…)” ¹

Este pensamento, embora não sendo cristão, nos reporta a uma expressão bíblica sobre a criação do primeiro Homem Adão. E Deus passou a formar o homem do pó do solo e a soprar nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem veio a ser uma alma vivente.” (Genêsis 1:7) partindo deste entendimento relativamente consensual, a vida é um sopro, uma energia que se esvai ao morrermos. A morte é, em uma definição vulgar, a ausência de vida, e não um estado de gozo como querem os já citados pensadores.

O Cristo tinha uma ideia intrigante para os místicos e também para os céticos: que a morte pode ser um estado de inexistência, podendo, contudo, ser revertida a qualquer momento por força sobre humana, como o próprio Cristo, segunda a bíblia, fez no caso da ressurreição de seu amigo Lázaro. Quando seus discípulos se apavoraram com a morte de Lázaro, disse Jesus que seu amigo estava apenas dormindo e que ele lá iria para o acordar, e assim o fez. Disse: “Lázaro, nosso amigo, foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono.”  Os discípulos disseram-lhe, portanto: “Senhor, se ele foi descansar, ficará bom.”  Jesus falara, porém, da morte dele. Mas, eles imaginavam que estivesse falando do descanso no sono. Nessa ocasião, portanto, Jesus disse-lhes francamente: “Lázaro morreu, e eu me alegro por causa de vós que não estava lá, a fim de que acrediteis. Mas, vamos ter com ele.” (João 11: 11-15)

Para um cristão de qualquer doutrina, a morte pode ser revertida pela fé no sacrifício do Cristo. Mas a dor não pode ser removida muito rápido, como  num passe de mágica ou mesmo pela imposição da fé.

Portanto, só quando encaramos este inimigo de frente é que nos damos conta do quanto ele é poderoso. Rouba-nos as almas mais queridas, e nos acomete de uma espécie de loucura, que pode nos conduzir ao abismo da descrença. Penso que é aí que reside nosso maior estágio existencial de superação, para nos tornarmos mais que humanos, com um objetivo comum – superar a dor infinda que nos impõe a morte, e para ajudar outros a conviver com a mesma perda.

Soneto do amor improvável

Quando menos se esperava fez-se o riso
do silêncio e da inércia aplauso e canto
e da boca outrora muda em desencanto
um aceno e um convite ao paraíso.

Quem vivia há tempo em desespero
tendo olhos marejados de suplício
castigado com a dor do amor efêmero
incontente, amargurado, entregue ao vício.

Improvável, não mais que improvável
Fez-se alegre e doce, amigo e confidente
de solitário e esquecido, agora amável.

A esperança renasceu sem medo
da insegurança se revelou o segredo
que do amor se espera o improvável.

Evan do Carmo

Este artigo eu dedico à Sonia, minha Irmã

O fator Deus, Saramago.

O problema do “Fator Deus” de Saramago é que ele não discute de fato o fato, se Deus existe ou não. Além do fato de cometer um equívoco amador, quando atribui uma máxima de Dostoiévski a Nietzsche. “Se Deus não existe então tudo é permitido” Eu lamento que um escritor tão renomado como ele não tenha tido cuidado ao citar como embasamento um autor que parece desconhecer. Penso que o escritor que se autodenomina ateu ou cristão quer, a meu ver, chamar a atenção do mundo para sua obra, quando o ideal seria chamar a atenção pela obra e não pela crença ou descrença.

Eu antes citei, em algum lugar, em um livro meu, o livro fraco de Saramago, Caim. Agora que ele morreu, alguns leigos andam lhe atribuindo honras de santo. Acredito que até uma ou outra ala da igreja católica o venera também, afinal, este adorável ateu se tornou o único escritor de língua portuguesa a ganhar o famigerado Prêmio Nobel de literatura. Critico-o, com forte razão, porque não me parece razoável que um indivíduo tão estudado não tenha percebido que existe na alma humana algo divino. Não importa o nome de Deus, se é Javé ou Jeová, fato é que a razão em si aponta uma inteligência superior. Mas nosso querido espírito português talvez tenha sido em grau extremo vitima da miséria e por esta razão nunca desenvolveu nenhum coeficiente de fé.

Sobre os seus argumentos – a desgraça humana, as guerras santas, as ideologias cegas e insanas do oriente ou a quantidade de mortos por questões políticas – nada disso serve como um argumento racional para quem conhece a fundo o outro lado da moeda, para quem sabe das origens das barbáries nos homens. A ignorância dos indianos, a crença em animais, não revela apenas um Fator Ignorância, atraso mental, conseqüência de vidas miseráveis e tribais?

Ainda fica evidente, para mim, que esta descrença dos literatos serve apenas para proteger suas inanes consciências, quanto à miséria dos seus irmãos. Muitos enricam, ganham prêmios milionários, por terem ousado pôr o dedo no olho de Deus, mas pouco ou quase nada fazem pelos miseráveis.

Quando um espírito avança em conhecimento, quando chega ao topo da torre de babel, ele não se contenta mais com algo que não lhe pareça lógico e por algum tempo fica perdido, por que não consegue explicar o “COGITO, ERGO SUM”! Prefiro os sábios que não precisam negar o divino para viver o profano. Cumpre lembrar ainda, que poderíamos usar o Fator Divino em vez do “Fator Deus”, pois o que deve ser entendido e aceitado, para melhoria da humanidade, é a percepção da essência superior da razão espiritual no homem.

 

Hamlet e Dom Quixote

 

Este ensaio poderia levar bem o nome de Cervantes e Shakespeare, se suas obras não fossem maiores que seus autores. Shakespeare e Cervantes residem no ponto mais alto da literatura ocidental. Qualquer obra ficcional que tenha surgido nos últimos séculos será um misto dos dois espíritos, ou é cervantesco ou shakespeariano. Todavia como encontrar acertadamente um equilíbrio entre a importância dos dois? A meu ver, podemos nos aproximar de um entendimento sobre os dois autores por fazer uma comparação da essência de Hamlet com a essência de Dom Quixote.

Este ensaio pretende com reconhecida humildade, tratar os dois autores como mestres de sabedoria da literatura moderna, comparáveis apenas com o livro de Eclesiastes e ao livro de Jó, a Homero, e, talvez com Platão.

“O príncipe atormentado e o cavaleiro doidivanas.” Ambos se apresentam como heróis, todavia sem objetivos claros, embora seus discursos afirmem o contrário. Qual é, por exemplo, o objetivo da busca ensandecida de dom Quixote? Acredito que não possa ser respondida esta pergunta. Não temos, por mais que nos esforcemos para compreender seus desígnios, competência para arriscar um adjetivo próprio para seu caráter incomum.

Quais são os pretextos legítimos de Hamlet? Poderíamos arriscar em vão, pois seu espírito é confuso. Já a busca magnífica do cavaleiro extremamente viril criado por Cervantes possui ecos de intenções para desvendar as leis do universo, como se tudo lhe fosse possível para alcançar um objetivo que não nos é transparente. Observamos isso na loucura que lhe é parceira por uma interminável viagem. O insucesso de Hamlet é o fato de ele residir entre dois mundos: o dos fantasmas e o da tragédia vingativa. No poema de Shakespeare apenas seu protagonista usufrui uma liberdade ilimitada, também por fazer uso da loucura para justificar seus atos.

Dom Quixote é uma bela efígie, ― a aproximação mais visível de um santo cristão ― ao contrário de Hamlet que é a própria imagem da parcimônia espiritual, um oco horroroso de carência de crença em Deus e em si próprio. Há críticos que afirmam que Dom Quixote seja a bíblia espanhola, como se tivesse fundado uma religião: o Quixotismo.

Hamlet é o embaixador da morte, enquanto Dom Quixote afirma que sua missão maior é derrotar a injustiça. A injustiça final para ele é a servidão extrema. Libertar os cativos é o modo pragmático com que o cavaleiro andante luta contra a morte.

Shakespeare não pode ser achado completamente em sua obra, nem mesmo em seus ensaios poéticos. É esta invisibilidade que faz com que alguns alucinados reclamem dele a autoria de sua obra, especialmente por sua complexidade de estilos. No que tange a direitos autorais, nenhum crítico ou fanático contestou até hoje se foi mesmo Cervantes quem escreveu o maior de todos os romances produzidos no ocidente. Já Cervantes habita em sua obra de modo prolixo e cumpre notar que ela possui três personalidades extremamente particulares: O cavaleiro, Sancho e o próprio Cervantes. Discordo de alguns críticos que dizem que sua presença seja furtiva e sutil. Para refutar esta ideia, basta observar a vida do autor, o quanto sofreu antes e durante a sua criação maior. A crueldade que esbanja em seu poema, revela uma idiossincrasia autoral. Penso que não podia ser diferente, para quem perdeu a mão direita por conta de um ferimento de guerra, ainda aos vinte e quatro anos. Cervantes foi preso e escreveu em ritmo acelerado a primeira parte do seu romance, depois foi acusado de roubo, também lhe roubaram as honras da primeira parte de sua obra e morreu em flagrante miséria.

Cervantes é ilimitadamente nebuloso. Shakespeare é análogo e esclarecedor, mesmo nos momentos mais melancólicos não para de jogar com palavras nem abre mão de um humor doentio. Sem contar com o fato de ser um assassino frio que mata oito pessoas incluindo ele próprio. Hamlet não precisa nem deseja nossa admiração e nosso afeto, mas Dom Quixote, sim, recebe ambos. Cervantes se apega à necessidade de ser humano, de suportar o sofrimento, por isso o cavaleiro conquista nossa admiração.

Hamlet tem em demasia a tragédia. A morte seria para Hamlet uma filosofia de confirmação do caos humano, de que a tragédia é uma boa saída para minimizar a consciência absurda da razão, sobre o fim de todo ser vivo. Ao passo que a loucura serve para que a dor não seja tão dilacerante.

“Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligiram, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos?”

“Ó morte orgulhosa, que festim está sendo preparado em teu eterno antro, para que assim de um golpe hajas derrubado tão ferozmente tantos príncipes?”
“Pois, quanto àquele que está unido a todos os viventes, há confiança, porque melhor está o cão vivo do que o leão morto. Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol.

Vai, come o teu alimento com alegria e bebe o teu vinho com um bom coração, porque o [verdadeiro] Deus já achou prazer nos teus trabalhos. Em toda ocasião, mostrem ser brancas as tuas vestes e não falte óleo sobre a tua cabeça. Vê a vida com a esposa que amas, todos os dias da tua vida vã que Ele te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade, pois este é o teu quinhão na vida e na tua labuta em que trabalhas arduamente debaixo do sol. Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com o próprio poder que tens, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria no Seol, o lugar para onde vais.”
Eis aí a superioridade do livro de Eclesiastes. Aqui não há retórica. O autor é direto, não há mais alegria e prazer para o homem senão nas coisas materiais. Assim como Shakespeare não se restringiu a um estilo especifico e por isso criou muitas obras fracas, Cervantes foi um dramaturgo fracassado em mais de vinte peças que não sobreviveram. No entanto, cumpre lembrar, que Cervantes em sua obra dá vida a muitas de suas almas literárias. Dom Quixote é tragédia e comédia, embora descanse em berço eterno como o maior romance ocidental.

Nenhuma obra que eu tenha estudado, que me lembre, mostra uma relação tão ambígua entre atos e palavras quanto em Dom Quixote. (Exceto em Hamlet.) O modo de criar é idêntico nos dois autores, embora fique bem evidente em Dom Quixote o preço da realidade, enquanto que em Shakespeare é o fantástico que se ressalta ― porque toda ação é teatral. Mesmo assim consegue‐se ironizar a eloquência que é também característica dos discursos, tanto de Dom Quixote quanto de Hamlet.  À primeira vista, talvez pensemos que Hamlet esteja mais cônscio do peso do seu discurso que o cavaleiro da triste figura, todavia a segunda parte do livro sombrio de Cervantes revela a consciência de Dom Quixote com relação a sua infâmia retórica.

Falemos não de comparações das duas obras, e sim de influências sobre os autores. São idênticas muitas fontes antigas para o texto de Hamlet. A primeira trata-se de Hrólfs saga kraka, uma saga legendária da Escandinávia. Nela, o rei assassinado tem dois filhos—Hroar e Helgi—que passam a maior parte da história disfarçados sob nomes falsos, ao invés de fingirem estar numa condição de loucura—e é nisso que o texto difere-se do Hamlet de Shakespeare, onde o príncipe finge-se louco. O segundo é a lenda romana de Brutus, registrada em dois trabalhos latinos diferentes. O herói, Lúcio (“iluminado, luz”), muda seu nome para Brutus (“estúpido”, “bravo”), mudando também sua personalidade, passando a ser “idiota” para evitar o destino de seu pai e irmãos, acabando por degolar o assassino de sua família, o Rei Tarquinius. Para mim, o que deve ter influenciado Shakespeare com relação à demência de Hamlet foi a personagem bíblica de David. Quanto a Dom Quixote, ficaremos sempre devendo uma comparação. Acredito-o mesmo como estilo único, e, que continuará sendo uma obra eternamente singular.

Fiquemos, pois, satisfeitos. Não importa fazer comparações entre dois grandes nomes da literatura universal, pais da cultura ocidental. Todos nós temos na alma um Hamlet e um cavaleiro frustrado, justiceiro niilista, como Dom Quixote. Se suas obras não são assim tão impecáveis é porque além de magníficas são humanas. Mesmo que já tenhamos feito nossas escolhas, os dois espíritos geniais ficcionistas continuarão nos influenciando de qualquer maneira.

Platão x Homero

Segundo um erudito da mais alta proeminência, arguto crítico das artes literárias, no ocidente temos alguns escritores que nos são importantes seus estudos, para compreender as origens das suas sapiências… Este senhor, que desfruta da mais alta posição entre os intelectuais do século vinte é, para mim, um indivíduo que merece respeito. Estudei sua obra por várias vezes e encontrei de fato bastante inteligência nos seus ensaios. Todavia, descobri um propósito singular na sua prole literária crítica. Em um contraponto entre Platão e Homero, ele, com estilo eloquente, traz à luz um pensamento, que a meu ver, não é veraz.

Depois de várias leituras da obra original do filho ilustre de Sócrates, cheguei a uma conclusão, talvez tardia, que um discípulo instruído oralmente não podia representar com legitimamente o pensamento do seu mestre. Digo isso com base em muito estudo sobre a força moral que exerce um amo sobre seu escravo. Mesmo em um contexto espiritual, dos mais dignos de honra e nota, encontramos esta verdade explícita.  Jesus diz para seus discípulos que eles não estão aptos para saber muitas coisas que os fariam tropeçar. Um mestre generoso, por mais desprendimento que carregue concernente à vaidade, não ensina nada a mais do que seu aluno possa suportar. Portanto, não seria justo atribuir a Platão toda sapiência do seu mestre, uma vez que, para quem estuda com afinco e zelo sua obra fica muito fácil compreender, que há discordância mesmo nos textos mais nanicos que nos apresenta seu astuto aluno.

Não é, portanto, do grego mais ilustre o pensamento de exclusão da poesia, como quer nos impor o mestre Harold Bloom. Platão, depois de empreender grandes viagens, volta com sua República pronta, e nela não se ver, além dos textos realmente de cunho moral, a alma de Sócrates. Oralmente é claro, ele, com muito vigor intelectual e boa memória, organizou e separou aquilo que, segundo ele merecia crédito.

Sócrates, por ser tão desprovido de vaidade e ser um profundo abismo de virtude, não queria ser responsável por um destino fatal que teria os homens ao interpretar sua obra pelo avesso. Qual é a moral do ocidente? Do cristianismo? Que poder exerce Sócrates sobre o capitalismo ou sobre religião?

Estamos sucumbindo a um lamaçal moral, onde a guerra já nos foi vencida. Digo para os partidários da filosofia racional, isenta de carisma ou de ideologias. A Moral sofista contra a burguesia imperialista e contra o neoplatonismo cristão, que tem suas raízes bem fecundas no cristianismo platônico. A presença de um Deus, mesmo ausente nos é necessária e aceitável. É isso que ensina Santo Agostinho, ou, pra ser mais exato, a igreja como um todo.

Na poesia de Hesíodo encontramos muita moral, e na Odisséia ou na Ilíada de Homero, nossos heróis, alguns que nos antecederam ainda valorizam uma nobreza que agregava poder e probidade. Mesmo na fúria insana de Aquiles, vale lembrar, que ele, apesar dos gestos obscenos e animalescos, pôde, por algum tempo expressar empatia pela alma humana, representada no sofrimento, na perda de um amigo na morte. Estaria sem dúvida coerente a analogia: Aquiles está para Pátrocolo como Cristo está para Lázaro.

Portanto, ainda merece nossa atenção, ambas as obras, mesmo a república do discípulo que ficcionou seu mestre, e que foi escopo para todos os sistemas políticos até aqui por nós experimentados. Mas viva, sobretudo a poesia de Homero, que nos remete muito mais à dignidade humana. Pois lá, em seu universo, apesar de mais poético que filosófico, temos a alma humana muito mais próxima da perfeição; ou da imperfeição que nos é peculiar… Platão registrou direito autorais sobre o mundo. Todavia Sócrates é o mundo.”

 

Conceito divino sobre o uso do vinho

No livro dos juízes, a mãe de Sansão foi alertada pelo anjo de Jeová sobre beber vinho; isso em uma lista de coisas impuras que deveriam ser evitadas. Uma vez que aquele filho que ela teria de modo milagroso, por ser estéril, seria um Nazireu, ou alguém apartado para um fim sagrado. Segue o relato: “E agora guarda-te, por favor, e não bebas nem vinho nem bebida inebriante, e não comas nada impuro. Pois, eis que ficarás grávida e certamente darás à luz um filho, e não deve vir navalha sobre a cabeça dele, porque o rapazinho se tornará Nazireu de Deus ao sair do ventre; e será ele quem tomará a dianteira em salvar Israel da mão dos filisteus.” “Mas, ele me disse: ‘Eis que ficarás grávida e certamente darás à luz um filho. E agora, não bebas nem vinho nem bebida inebriante, e não comas nada impuro, porque o rapazinho se tornará Nazireu de Deus desde a saída do ventre até o dia da sua morte. ’”

Provérbio23: 29-35 “Quem tem ais? Quem tem apreensão? Quem tem contendas? Quem tem preocupação? Quem tem ferimentos sem razão alguma? Quem tem embaciamento dos olhos? Os que ficam muito tempo com o vinho, os que entram para descobrir vinho misturado. Não olhes para o vinho quando apresenta uma cor vermelha, quando está cintilando no copo, [quando] escorre suavemente. No seu fim morde igual a uma serpente e segrega veneno igual a uma víbora. Teus próprios olhos verão coisas estranhas e teu próprio coração falará coisas perversas. E hás de tornar-te como quem se deita no coração do mar, sim, como quem se deita no topo de um mastro. “Golpearam-me, mas não adoeci; surraram-me, mas eu não o sabia. Quando é que acordarei? Eu o procurarei ainda mais.”

“E vinho que alegra o coração do homem mortal.” Salmos 104:15

Na cultura judia o vinho era um produto de primeira necessidade e, em seus textos é realçado junto com a idéia de fartura e prosperidade, a alegria de se ter as provisões diárias para a subsistência, como beber e comer. Logo fica entendida esta relação que nada tem a ver com festanças ou mesmo comemorações religiosas. O vinho para os judeus era algo comum, como era o próprio pão, que também é citado como algo que deve ser encarado como símbolo cultural e histórico de um povo antigo que não tinha as guloseimas que há hoje no mundo moderno. Comer pão e beber vinho em suas refeições era o mesmo que é para os ocidentais fazerem um lanche com sanduíches, regado com um suco, café ou refrigerante.

Cumpre ainda lembrar e fazer relação dos textos onde aparece a imagem do vinho com provérbios, que é indiscutivelmente um livro superior a todos os outros livros bíblicos no que tange à sabedoria divina para se aplicar à vida prática. Em provérbios, portanto, aparece mais nitidamente o que pensa ou deve pensar um sábio sobre os riscos e os cuidados sobre o vinho e a embriaguez, e, também, a distinção que se deve fazer do vinho em um contexto moral e cultural.

Provérbios 31:2-7 “Palavras de Lemuel, o rei, a mensagem ponderosa que sua mãe lhe deu em correção: O que é que eu digo, filho meu, e o que, filho de meu ventre, e o que, filhos dos meus votos? Não dês a tua energia vital às mulheres, nem os teus caminhos [àquilo que leva à] extinção de reis. Não é para os reis, ó Lemuel, não é para os reis beber vinho ou para os dignitários dizer: “Onde está a bebida inebriante?”para que não se beba e se esqueça o decretado, e não se perverta a causa de qualquer filho de tribulação. Dai bebida inebriante àquele que está para perecer e vinho aos amargurados de alma. Beba-se e esqueça-se a pobreza, e não haja mais lembrança da própria desgraça.”

Logo se pode perceber a preocupação que tinha o proverbista com relação àquele que devia ocupar um cargo superior e que tem a incumbência ou a prerrogativa de fazer julgamento das causas dos atribulados, pois o vinho teria o poder de perverter o juízo e levar à pratica da injustiça. Depois aponta os que poderiam fazer uso do vinho e para que propósito: com o fim de esconder o que são e disfarçar suas desgraças.

Nas escrituras, porém, encontramos outros textos e outros pontos de vista que podem ser alterados para satisfazer e justificar a conduta daqueles que já se encontram viciados. Este texto também pode ser aplicado como desculpa ou justificativa terapêutica. Segue o relato: “Não bebas mais água, mas usa de um pouco de vinho por causa do teu estômago e dos teus freqüentes casos de doença.” Primeira carta a Timóteo 5:23.

Observe a expressão: “por causa do teu estômago.”

Todavia não posso ser injusto com o apóstolo das nações. Em efésios 5:18 ele esclarece: “Também, não fiqueis embriagados de vinho, em que há devassidão, mas ficai cheios de espírito.” Além de esclarecer o fato ele ainda prova para àqueles de boa índole que nunca aconselhou o uso imoderado ou mesmo moderado do vinho para ninguém. Nas outras referências que tratam do vinho nos textos sagrados, não nos resta dúvida de que Jeová não seja conivente com os beberrões justificáveis.

Vale ainda lembrar outra passagem, apenas de paisagem, que o vinho nunca produziu algo de bom.

Veja este: Genesis 9:20-25. “Então, Noé principiou como lavrador e passou a plantar um vinhedo. E começou a beber do vinho e ficou embriagado, e deste modo se descobriu no meio da sua tenda. Mais tarde, Cã, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e foi contá-lo aos seus dois irmãos lá fora. Sem e Jafé tomaram então uma capa e a puseram sobre ambos os seus ombros, e entraram andando de costas. Assim cobriram a nudez de seu pai, com as faces viradas, e não viram a nudez de seu pai. Por fim, Noé acordou do seu vinho e soube o que lhe havia feito seu filho mais moço. Ele disse então: “Maldito seja Canaã.”

Portanto, fica o alerta: Deus não permite o vicio que mais tem ceifado vida humana, tanto física como moral. Mas, se mesmo assim ainda não está convencido de que o vinho seja algo nocivo à alma humana, continue bebendo e assuma os riscos.             Digo, porém, que o que deve alegrar o coração do homem deve ser o fato de ser feliz ao observar a beleza natural da vida, sem o embaçamento moral que qualquer vício produz.

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