Poesias

SENTIDO, PRA QUÊ?

Sentido, qual é o sentido
da vida, da morte,
da guerra e da busca
pela paz?

Cada vez que vejo,
leio ou penso sobre
a guera, e seus motivos fúteis
sobre os seus mortos
concluo que nada faz sentido
nem a vida, nem a morte
nem a guerra, nem a paz
que nunca se alcança.

Depois de chegar a esta conclusão
o que um homem deve fazer?

Lutar pela paz, confortar
com a esperança celeste
os enlutados, vítimas das guerras
inúteis e cruéis ou calar
diante do absurdo diário
ao perceber que ninguém se preocupa
se outros genocídios estão em curso
no oriente, ou se uma guerra nuclear
pode nos exterminar a qualquer momento?

O que estamos fazendo aqui
seres racionais, expectadores passivos
da nossa própria destruição?

As ideologias religiosas nada conseguiram
para educar os homens no caminho
da paz, da ética e da justiça
o que se vê são etnias se matando
cada uma com um deus diferente
mas semelhantes em sua inutilidade.

Ainda é igual a barbárie teológica
entre professos cristãos e muçulmanos
homens de QI elevado pregam a supremacia
das raças, e proclamam o intelecto humano
superior ao instinto animal.

Encontrar o sentido para vida
talvez seja apenas mais uma tentativa em vão
ensinar as crianças que todos os homens são iguais
já que que os homens não dão ouvidos
são instruídos, doutores em arrogância
todos são peritos em pregar a diferencia
entre pobres e ricos, negros e brancos.

Não compactuo com esta humanidade
desumana e intolerante,
quero o raiar da inocência das crianças
quero preservar o mundo perdido
onde o pão pode ser divido em partes iguais,
onde a flor não precisa ser arrancada
para se presentear alguém
como forma de demonstrar afeto.

 

Poemas mil

Fiz milhares de poemas
acredito na boa intenção de quase todos
poucos são anômalos
Alguns são verbos divinos
outros são velhos
muitas mulheres
alguns meninos.
São filhos da inquietação com o ócio
anjos híbridos com demônios
Alguns são desesperos
outros silêncios
apenas um é renúncia.

Arcaica  rima

Poeta, quando te livrares
da ilusão arcaica da rima
saberás compreender
o enigma que Ariadne,
a musa de Apolo
te soprar…

….então serás capaz
de alcançar uma obra-prima…

 

Como Neruda

Quisera eu, ser na poesia,
apenas o carteiro de Neruda.

Todavia, aprendi com os mestres
universais, o valor dos símbolos,
arquétipos e metáforas milenares.

Ecce Homo, um aprendiz de borboletas… de metamorfoses mil
vou editando a minha própria casa de papel.

São rios e florestas, rosas e espinhos
mares e desertos, anjos e demônios
ratros de sangue sobre a margem sombria do paraíso, onde realizo os meus mais sublimes sonhos.

Aos poetas amigos. Cujo o eu lírico veste bem a todos.

A terra dos homens

Eis a nossa pátria,
eis nosso quinhão
eis nosso destino
eis contradição
vivo esperando
a consumação
do eterno gozo
luz e salvação
eis a vida breve
neve na amplidão
eis nosso futuro
muro, mar, prisão

Eis o que te espera
fera e presunção
sonho vão, quimera
louca indagação
eis a terra fértil
forno de assar pão
eis o homem errante
no mundo das sombras
no vale da morte
clama a redenção
eis Deus com sorriso
lhe acenando a mão
eis o paraíso
de Eva e Adão.

Me chamo José

Me chamo José
José daqui, José de lá
José de qualquer canto
José de qualquer mar.

José de minas
José de Drummond
José da Bahia
José do Ceará.

Me chamo José
Por não ser doutor
Sou apenas José
José lavrador.

Mesmo sendo José
Arranjei um amor
Que se chama Maria
Maria fulor.

Meu pai é José
Assim como eu sou
José de arimateia
Carregou o senhor.

Me disse que é santo
Todo homem José
Que veste o manto
O manto da fé.

Aqui nesta terra
De tanto José
Deus nunca se esquece
Do povo que é.

José de Abreu
José Xavier
José das medalhas
Maria José.

O poeta e a esfinge

Como Édipo diante da esfinge
o poeta diante da vida finge
compreender o enigma do amor,
a mulher e os sonhos de quimera
então como fera responde ao encantamento
do mundo que lhe diz:
“Descifra-me ou te devoro”.

O Poeta então chora de desencanto
prevendo a morte em seu negro manto
chegar de súbito pra lhe levar.

Mas por encanto
a vida aceita seu doce pranto
e como prêmio lhe oferece a eternidade como descanso.

 

Nasceu a poesia

Numa manhã fria de maio,
em casa do poeta Evan do Carmo,
nasceu a poesia.

Nasceu à revelia
do poeta e da musa
Ruiva de cor e de olhos negros
deram-lhe o nome de felicidade
contudo, poderia se chamar
Giovanna ou Beatriz
Nasceu com enfado
nasceu com preguiça,
mas nasceu sorrindo
não como outrora
a Ninfa nasceu feliz,
não nasceu chorando
como a poesia de Hamlet,

E por que isto se deu?

É que a loucura humana
em celebre audiência
encontrara-se à noite com a lucidez
firmaram um acordo solene
e tiveram como prova a consciência
doravante viria ao mundo
apenas filhos saudáveis
pois o mundo se rendera tardiamente
à carência da cultura e à indigência.

O canto da ironia

Onde irei encontrar razão ou motivo,
paixão ou dor para fazer poesia?
Não há mais holocausto nem apartheid…

O romantismo perdeu a sua essência
o amor das mulheres não tem preço
e nas crianças nasce morta a inocência.

Nem a guerra se faz mais por causa justa,
as nações se uniram pela paz
não há grito de socorro nas prisões
inocentes somos todos, isto é verás.

Onde irei em busca de acalanto
se meu canto heroico emudeceu
não há luta nos mares nem fronteiras
a poesia da vida esmoreceu.

faço mal poesia

Outrora fiz casas de pedra e pau
hoje faço mal poesia
no mundo já existem muitas casas
muitas pedras e paus
e os homens já se ocupam
em derrubar as casas
em atiras as pedras,
em machucar uns aos outros

 

Um sopro de imortalidade

a função da poesia é:
descomplicar o complicado
explicar o inexplicável,
retratar o irretratável
revelar belezas invisíveis
abrir portas sobre as rochas
dar visão aos cegos incuráveis
conceder raciocínio ao instinto
e sorrir dos amores inrisíveis

entre tantas façanhas nada críveis
deslindar o segredo do universo
desta forma, aquele que primeiro
encontrou uma caneta resolveu
todo o enigma com um verso
“faça se a luz”, em seguida tudo
veio às claras e homem se igualou
a Deus.

 

A idiossincrasia do amor

o amor é inexplicável
assim o acreditam, homens e mulheres
que não conseguiram amar nem serem amados.
Os poetas também se enganaram neste respeito
e até hoje tentam descrever o amor que não conheceram
atribuem aos seu arquétipo de afeto invisível, à musa,
toda sua erudição obtusa, incognoscível, para descrever
um amor impossível, contudo, dela se quer ganharam um beijo.

O amor é inconstante, inconsciente
sem passado e sem presente
o amor não se revela nem se esconde
o amor é um mito, é tudo e nada
é sombra e claridade, às vezes escuridão
por vezes é angústia, cárcere, privação.

O amor pode ser destino, para outros escolha
amores em branco, túmulos de silêncio
porta de engano… o amor é discreto,
não se pronuncia onde não lhe chamam,
pode ser secreto, em seu simples plano
de acorrentar os deuses e de libertar gigantes.

Como Neruda

Quisera eu fazer poesia como Neruda
no entanto, que bandeira ei de erguer
com a minha poesia ativista?

Nas Américas de hoje não há mais luta
nem disputa, nem suor nem sangue
nem cicuta. Sobretudo na América
onde vivo, se respira um ar putrefato
de hipocrisia ideológica, a América Latina de hoje é uma latrina de corrupção fisiológica.

Então farei poesia de protesto
contra a falta de honra dos poetas
dos homens públicos e privados
este é o meu último desejo

 

Pois sou humano

Não me fales de angústias
nem de medos, pois sou humano
não me fales de equívocos
e desengano, pois sou humano…

Não me fales de dores, de cabeça
ou de consciência, de insônias
ou de sonhos abortados,
pois sou humano.

Não me fales de desejos secretos
ou de esperanças vãs, pois, como tu,
nasci chorando, assustado
com a face tenebrosa da incerteza.

Não me fales da miséria cultural
que nós herdamos, pois
dela me alimento todos os dias
e repito os enganos dos meus pais.

Não me fales do futuro que me espreita,
como uma hiena pronta a estrangular
os sonhos das crianças, pois já fui criança,
reconheço muito bem o meu passado.

Não me fales da estupidez dos homens
que mesmo amando às vezes matam
ou da meiguice virtuosa das mulheres
que por amor fingem tanto e nos maltratam.

Não me fales da poesia da aurora
pois sou humano, quando devia ser poeta.
Não me fales dos enigmas que não queremos decifrar,
do medo da guerra que esquecemos,
se à noite é o dinheiro que nos impede de sonhar.

Não, não me fales destas coisas sem importância,
pois na vida, cedo ou tarde tudo perde a importância,
a convivência com a humanidade me fez indiferente,
insensível às dores do meu semelhante, todavia,
não me julgues, não me queiras mal,
pois afinal, eu sou humano

 

 Alma mediana

Tenho estatura mediana,
mas a minha alma é grande
imensa em confusão,
grande em abismo e desespero
longa em desvantagem
em distância do meu companheiro
que importância tem a minha vida
ou a minha alma, que de tão grande
chega a ser desmilinguida.

Que importância tem o mundo
tudo no mundo é sem importância
que geração passada, presente ou futura
saberá avaliar as angústias do poeta da tabacaria?
Apenas alguém que entra e sai da mesma cena
como um viciado que gasta todo seu dinheiro,
mas que ao partir ninguém se lembra do seu infortúnio
nem do seu nome ou do seu paradeiro
alguém sem teto ou latifúndio,
neste mundo em desespero.

Que importância tem a minha alma
se parece grande ou raquítica
os homens são da mesma espécie e estatura
animais que caminham de olhos no chão
vítimas de um tipo raro de loucura
basta um grito para que se dirijam
para outra direção, para outro destino,
tolos meninos correndo atrás
de borboletas coloridas ou bolas de sabão.

Que importância tenho eu neste contexto
ou a minha poesia medíocre, sem pretexto
que importância tem a minha alma
ou minha estatura mediana
que razão tenho eu para reclamar
da minha vida, este pré-texto
doutra vida extemporânea..

A atriz

A atriz enxuga o rosto, é outro ato
sua vida uma comédia essencial
se na vida sem fingir não é feliz
no teatro do existir nada é real.

Leva a vida com empenho incomum
pela glória de viver a fantasia
se a roupa não lhe cabe ela engorda
ignora o ultraje do papel
e recita a mais bela poesia.

Noutra cena ela é mãe ou filha errante
abre a porta da ilusão ao sonhador
quando chora nos ilude como amante
a sorrir nos liberta de uma dor.

 Assim voam as borboletas

-Qual é o objetivo da vida?
Perguntam os inocentes.
Eu, se vejo uma borboleta voando
Logo encontro a resposta facilmente.

Para onde voam as borboletas?
Para que paraíso acreditam irem?
Mas as borboletas não têm metafísica
As borboletas voam sem inquietação.

Os homens que não sabem para onde vão
São mais vigorosos em seu caminhar
É preciso ter muita coragem
para seguir um rumo incerto.

Para ser feliz é preciso ser uma borboleta
Não ser como as borboletas
Pois só uma borboleta voa impávida
Rumo à mutação do nada.

Ela, a borboleta, se contenta
Em apenas ter sido lagarta
O homem, porém, não suporta
Nunca ter sido outra coisa
Por isso almeja o paraíso
Para ser borboleta

 

 

Vácuo

No vácuo, na falta de som
De luz, de poesia,
No caos da antimatéria
No infinito querer, jaz a ilusão:
Um pensamento morto
Uma discussão, a retórica
A dialética socrático-aristotélica
A coisa em si Kantesca (Kant)
Metafísica antipoética de Pessoa
A natureza viva de Cabral de Melo
O discurso sistemático cartesiano
O enfado amoroso kierkegaardiano
A impossibilidade da “república”
A ineficácia da “política”
O fracasso didático de Foucault
O erro freudiano, o sonho de Jung
O desejo superado de Lacan.
No vácuo, onde outrora estava o saber
Nada habita, sumiu a consciência
Só a falta de ar como indulgência
O temor de perceber que tudo,
Tudo é vácuo, percepção niilista
Representação, angústia Sartreana
Depressão, abismo, Schopenhauer.
O anarquismo, desgoverno, Proudhon
Sem coerção mental, pensamento avulso.
Foge-me a organização de Marx
“As massas” não se unem
Não há revolução… Nem salvação.
Morte à metafísica, lógica sem ação.

Nicotina

Poesia crônica, cigarro cubano
Prosa de Neruda, lascívia de Caetano
Um canto, lugar único no mundo
Um tenor no máximo da sua entonação
Um acorde perfeito, música de Wagner
Encantamento de Isolda e Tristão
Sonoridade efêmera que apetece
Destoa, enlouquece alma em combustão
Meu espírito demente sem ação.
Um perfume cítrico e agreste
Nicotina que impregna o coração.

 

O cais

Caminhei pelo Cais
Cais do mar, cais da vida
Pedra em meu caminho.
De que era feita a pedra
De Drummond?
De desesperança ou de vinho?

 

A sombra

Vesti o hábito para esconder o monge
falei bem alto num calar profundo
verti uma lágrima num sorriso tonto
fugi de mim pra me achar bem longe.

Foi tanto medo de dizer verdade
que a mentira se concretizou
de sonhos vagos fiz um pesadelo
agora o espelho não me diz quem sou.

O poeta e o monstro, uma só essência
já não há disputa, pois ninguém ganhou
a musa que era flor e primavera
sobras vãs, quimera, sombra que passou.

 

 

Conservar o entusiasmo pela vida requer evolução espiritual; o homem que se concentra na prática do bem, fazendo da sua vida uma ferramenta para estimular outros a cré no divino, seja cada um à sua maneira, torna-se um agente produtor de felicidade e de autoestima coletiva!

 

 

Se acaso partires.

Mesmo que os meus olhos não se encontrem nos teus
ainda que a minha dor não se dissolva ao teu afago

Mas aonde eu for levarei comigo a tua imagem
ela será como uma tatuagem espiritual, só eu a verei.

Nos doamos mutuamente, assim nos encontramos
na infinita procura de um amor veraz.

Nos doamos mutuamente, assim formamos o infinito.
Se acaso partires, não importa, ainda seremos

Indo embora, voltarei, sempre que fizeres uma prece
sempre que pedires que o passado volte atrás.

Assim, teu coração se despede, como chora uma criança
e o meu emudece ao te ver partir, mas o que foi nosso permanece

 

Ofício Incomum

Poesia é ofício incomum
é síntese de um todo
pelo verso impresso
de risos e de lágrimas
indivisível amálgama
uma sombra, uma dor!

O salto no escuro
quem pula nunca sabe
o que lhe espera
se é um rio
ou um sabre.

Não é delírio
nem devaneio
habita na ponta
habita no meio
entre o belo
e o feio
há um espanto
há um elo
um bem singelo
um desencanto.

 

Impossível expressão

Já ultrapassei os mil poemas
contudo, ainda procuro
a forma ideal para dizer
aquilo que não consigo
expressar pelos fonemas.

Talvez não consiga em poesia
revelar minha função em voz passiva
há sentimentos impronunciáveis
que na língua dos anjos não se explica
deuses e humanos se distraem e se complicam

Foi com este intuito que se inventou a poesia
a música de Bah e a pintura de Rembrandt
assim me tornei poeta, talvez presunçosamente
para buscar uma expressão correta sobre o amor
todavia me perdi no labirinto sem a musa.

 

Quase há tempo

Do tempo ficou
apenas seu presente
o passar do tempo
desagrada o futuro!

Há um muro
que separa o tempo
da criança que deseja
apanhar seu fruto
já maduro.

Contratempo, imprevisto
uma pedra sobre o tempo
que resta, uma fresta
entre o passado e o presente.

 

Delírio tardio

Ela andava distraída, descia e subia as calçadas
quem lhe via não podia supor que ela era triste
seus passos eram passos de liberdade, não de medo
seu andar descontraído escondia algum segredo.

Era moça, quase criança, alguém que se esquecera da vida
que não nutria nenhuma esperança. Era jovem, era bela
mas seu andar revelava sua história, tão incomum, tão singela.

Estava eu a observar o seu caminhar infantil
era quase noite, era tarde fria, ela continuava a andar
eu a seguia de olhar atento. Seus cabelos negros
vez por outra conversavam com o vento
eu não podia escutar aquele sublime diálogo
até que o sol se pôs, e eu a perdi definitivamente.

Acho que ela se perdeu nas nuvens
ou fora arrebatada ao olimpo, já que ao céu não poderia
mesmo sendo um anjo de beleza e lascividade, era uma deusa daquelas de mármore, uma mistura de demônio com mulher.
era apenas uma prostituta, que andava nas ruas do rio, nos meus devaneios de poeta.

 

Tua falta.

Há uma dor e um suspiro fatigante
advindos de acordar e não te ver
um buscar desesperado no horizonte
tua falta, fogo eterno a me aquecer.

Pela vida se caminha separados
quando juntos não se pode querer bem
somos todos companheiros desgarrados
esquecidos de abraçar a quem se tem.

Pode ser que erremos facilmente
distraídos mensurando os corações
por ser tanta natureza atraente
uma soma infinita de opções.

 

Musa

Hoje eu lembrei de ti… Não sei por que motivo
não ouvia nenhuma música especial,
que pudesse fazer relação com a tua voz e imagem.
Mas lembrei de ti com uma amargura abismal
acho que um demônio passou em minha volta
não posso conceber outro motivo
pelo qual pudesse lembrar de ti.
A paixão que um dia alimentei por tua alma
não por tua carne… o engano que foi pensar em ti
como musa e não como mulher.
São estas lembranças maléficas
para as quais não tenho explicação
que ainda me desperta o prazer pela criação
todavia não respeito o criador deste universo.
Aí a poesia volta, e eu escrevo como um lunático
passo por alto meu desgosto…

Mais uma vez sinto o gosto dos teus lábios, e o cheiro inconfundível de tuas mãos.

 

Assim voam as borboletas

-Qual é o objetivo da vida?
Perguntam os inocentes
Eu se vejo uma borboleta voando
Logo encontro a resposta, facilmente.

Para onde voam as borboletas?
Para que paraíso acreditam irem?
Mas as borboletas não têm metafísica
As borboletas voam sem inquietação.

Os homens que não sabem para onde vão
São mais vigorosos em seu caminhar
É preciso ter muita coragem
para seguir um rumo incerto.

Para ser feliz é preciso ser uma borboleta
Não ser como as borboletas
Pois só uma borboleta voa impávida
Rumo à mutação do nada.

Ela, a borboleta, se contenta
Em apenas ter sido lagarta
O homem, porém, não suporta
Nunca ter sido outra coisa
Por isso almeja o paraíso
Para ser borboleta.

 

 

Enquanto ela dorme

É noite, e perto de mim dorme a minha amada.
Eu, à distância de mil pensamentos tento ouvir se ressonar.
Será que ela sonha?
Será que quando acordar se lembrará que vivo estou?
A minha amada tem os olhos azuis da cor da saudade
Suas mãos são finas, macias como lã de algodão.
Ela tem um corpo esculpido no mármore da perfeição.
Minha amada, quando sorri ilumina a noite da minha solidão.
Mas, a minha amada dorme, minha amada não sabe que morro aqui,
Acordado, tentando dormir também para lhe encontrar.
Oh se ela pudesse me ouvir, oh se ela pudesse vir aqui.
Minha amada não respira o mesmo ar daqui
Onde estou não posso chegar até ela, a não ser em pensamento.
Nossa cama parece um imenso oceano, e eu só tenho as mãos para lhe abraçar.
Tudo que eu queria nessa vida era que ela pudesse ouvir meus pensamentos
Para que ela soubesse o quanto a desejo,
Oh, quem dera que ela um dia desses me acordasse com um beijo.
Mas minha amada dorme, enquanto eu escrevo e a vejo…

 

Não quero a eternidade

Não me fale agora do futuro
Não procuro viver noutro lugar
O presente é maior e pulsa forte
Foi o hoje que nasci para inventar

Não me fale desta tal eternidade
Que para muitos é um sonho verdadeiro
Sou poeta vivo calmo neste instante
Na constante comunhão de um passageiro.

Quem irá alegrar os homens tristes
Que persistem em querer a ilusão?
Somos nós os jograis deste cometa
Que em breve cairá na imensidão

 

O que vi em tua boca

É possível assim beleza tanta
Em teu riso esplêndido e mortal?
Numa boca proibida que espanta
A libélula que do mel colheu o sal.

Vestes o manto da divina harmonia
Simetria ideal tão colossal
Se possível ao poeta quem diria
Descrever a tua boca sem igual.

Suplantei ao desejo vil insano
De querer-te nesta noite longa e fria
De abraçar o teu corpo nu, profano
E acordar abraçando a fantasia

 

A sombra

Vesti o hábito para esconder o monge
falei bem alto num calar profundo
verti uma lágrima num sorriso tonto
fugi de mim pra me achar bem longe.

Foi tanto medo de dizer verdade
que a mentira se concretizou
de sonhos vagos fiz um pesadelo
agora o espelho não me diz quem sou.

O poeta e o monstro, uma só essência
já não há disputa, pois ninguém ganhou
a musa que era flor e primavera
sobras vãs, quimera, sombra que passou.

 

Fomos lançados monte abaixo… um estranho poema

 

Tenho um desejo meio insano, algo que chega a ser quase um desespero, um querer vigoroso, que não consigo esconder por mais de um dia ou uma noite, é uma daquelas aspirações que nos acompanham por toda a vida.

Sempre soube que existia, em algum um lugar, um paraíso à minha espera. Sabia que esta vida natural, a que herdei dos meus pais simples, não seria meu quinhão por muito tempo, eu havia de me superar, embora não soubesse exatamente como, mas lá no fundo da minha outra alma guardava esta certeza meio maligna, como que uma inconformação existencial.

Eu não aceitava aquilo que os outros viam, as suas definições sobre a minha pessoa interior e, quando me olhava no espelho, lá no fundo da minha consciência, eu via outro ser que habitava comigo em secreto, como um monstro sob a pele de um cordeiro, outra alma escondida sob minha própria carne, disfarçada com a minha aparência exterior.

Não tenho conhecimento de que entre os meus parentes alguém tenha conseguido migrar da carência para a abastança, ou mesmo da ignorância para a sapiência de um filósofo desapegado de toda sorte de coisas materiais. Eu nasci na miséria, não tive pompas nem presentes simples, nenhum tipo de comemoração para me receber fora organizada, assim como fazem os malditos burgueses deste mundo para anunciar seus rebentos. Entrei neste mundo de loucos como todos entram. Apenas neste quesito devo me comparar igual aos demais. Estreie chorando, mas o choro foi de medo do rosto triste daqueles que me aguardavam sem muita expectativa de sucesso.

Filho de gente pobre muitas vezes é renegado durante a gestação, isto quando não é literalmente abortado, por mães inseguras e por pais omissos e covardes. Nascer sem perspectiva e não nascer seria como que a mesma coisa, isto para um espírito fraco amofinado, para um espermatozoide desistente, todavia uma vez que se nasce, o futuro passa a ser lançado, assim como se lançam os dados em um tabuleiro da sorte.

Se lançarmos uma pedra sobre um alto monte não poderemos nunca acertar o seu paradeiro, depois de algum tempo de sua queda monte abaixo, não saberemos mensurar por quantas cavidades ela passou ou por quantos abismos desconhecidos por aquele que nunca desceu tal monte.

A vida é este lançar de pedras ou de dados, somos jogados monte abaixo por uma força natural, que jamais saberemos quantificar seu poder.

Temos apenas que descer montes e subir outros, pois esta força descomunal nos impulsiona sempre para a mesma direção, morro abaixo. A força nos é desconhecida, experimentamos seu calor apenas ao nascer, este bravo impulso, mas quem poderia retornar ao topo do monte de onde foi lançado e escolher outro destino?

 

As tuas mãos

Impossível não ceder ao teu chamado
seja com os olhos ou com as mãos

Basta um olhar, logo estamos juntos
indivisível, assim é o amor quando é verdade.

Tua alma aquece meu corpo, basta um pensamento
e tuas mãos se estendem ao meu encontro.

Sem culpa e sem segredo, vencemos as barreiras
da distancia e do medo, e o vento nos transporta.

Em tuas mãos encontro a chave do prazer adormecido
tua pele me encobre e me protege do vulto do amor esquecido.

 

Se acaso partires.

Mesmo que os meus olhos não se encontrem nos teus
ainda que a minha dor não se dissolva ao teu afago

Mas aonde eu for levarei comigo a tua imagem
ela será como uma tatuagem espiritual, só eu a verei.

Doamos-nos mutuamente, assim nos encontremos
na infinita procura de um amor veraz.

Doamos-nos mutuamente, assim formamos o infinito
se acaso partires, não importa, ainda seremos

Indo embora, voltarei, sempre que fizeres uma prece
sempre que pedires que o passado volte atrás.

Assim, teu coração se despede como chora uma criança
e o meu emudece ao te ver partir, mas o que foi nosso permanece.

 

Impossível expressão

Já ultrapassei os mil poemas
contudo, ainda procuro
a forma ideal para dizer
aquilo que não consigo
expressar pelos fonemas.

Talvez não consiga em poesia
revelar minha função em voz passiva
há sentimentos impronunciáveis
que na língua dos anjos não se explica
deuses e humanos se distraem e se complicam

Foi com este intuito que se inventou a poesia
a música de Bah e a pintura de Rembrandt
assim me tornei poeta, talvez presunçosamente
para buscar uma expressão correta sobre o amor
todavia me perdi no labirinto sem a musa.

 

Quase há tempo

Do tempo ficou
apenas seu presente
o passar do tempo
desagrada o futuro!

Há um muro
que separa o tempo
da criança que deseja
apanhar seu fruto
já maduro.

Contratempo, imprevisto
uma pedra sobre o tempo
que resta, uma fresta
entre o passado e o presente.

 

A noite cai

E todo ser vivente
se apressa ao descanso
enquanto eu continuo
neste triste dilema
se deito ou me levanto.

A noite cai

Os pensamentos se reúnem
para construir o mundo
enquanto a noite canta embriagada
os homens se divertem
bebem e fazem filhos
outros fazem sexo
mas o animal descansa
enquanto o homem fuma seu cigarro
e a prostituta tira a roupa.

A noite cai

Na minha consciência há conflitos
iguais a todos, assim imagino
que não seja possível dormir
enquanto o mundo berra
enquanto crianças nascem
de parto anônimo
filhos da guerra, da miséria
dos homens poderosos
e dos deuses ausentes.

A metafísica é uma dor

Na vida aprendemos muitas coisas
entre as quais escolhemos a pior
pode ser uma forma de ironia
disfarçar ser o nosso bem maior.

Quem simula uma dor o faz contente
já que a dor neste caso não corrói
bons atores mascarados sem plateia
suportando com coragem o bem que dói.

Todavia não se pode fingir eternamente
ser eterno é frugal, é bem e mal
homem é pedra, só matéria animada
com uma alma indefesa e mortal.

Há um choque abismal, quando nos deparamos com uma verdade vinda de um poema, que nos descontrói irremediavelmente. É esta a sensação que experimento, toda vez que releio este poema.

 

Para quem acredita no amor.

Dizem que o amor é abstrato
e que os sonhos são delírios
que na vida não se encontra
o ser amado, só retrato
dos amantes em seus martírios.

Todo ser que se perde atrás do mito
vive só num eterno desvario
como chuva que escorre para o mar
como pedra que se atira sobre um rio.

Quem se entrega a esta vã filosofia
faz da vida uma quimera sem razão
perde o tempo se agarrando com um fio
labirinto sem a musa do cordão.

 

Um arrepio

Abro os olhos assombrado

Uma brisa que passou não volta mais

Sobre a minha mão, irreprimível

Deixo partir um fôlego irrecuperável.

 

À margem dos homens a vida passa

E um vendaval arrasta sábios e inocentes

O que restará dos sonhos das mulheres

Dos santos e dos bêbados irreverentes?

 

Que a luz do amanhã não venha a lume

E a noite que é fiel sendo inconstante

Com seu manto esqueça um filho errante

Não irei fazer a poesia que se espera

Na quimera de rimar com o vaga-lume.

 

Prometeu

Um deus amarrado à corrente

sobre as rochas, prisioneiro

do amor pelos mortais

se entregou à justiça

de um tirano, que não pôde

dividir-se com os normais.

 

Foi traído pelo zelo dos irmãos

que o prenderam num abismo inumano

seu amor pelo humano fê-lo fraco

e inválido aos pés do soberano.

 

Nem Poder nem a força de Vulcano

pôde dele se valer ou ter piedade

fez do fogo seu prazer, seu dom profano

transformou-se como Zeus num espartano

para Júpiter se firmar na majestade.

 

São os mitos todos falsos, fracassados

no olimpo da razão…  Seja Grego

Babilônio ou Romano

todos eles são fantasmas de Adão

é o homem nosso deus mais criativo

continua a vencer a discussão.

Toma o lado que quiser nesta disputa

na labuta de inventar um ser maior

dia e noite cria deuses e mata homens

pelo fato de não ter a direção

um reflexo assombrado do acaso

que não sabe como andar na escuridão.

 

O cálice profundo

Bebia eu o cálice do conhecimento
que ao primeiro gole pareceu-me doce.
Eu, então, bebi como quem morre de sede
mas o cálice não se esvaziava
e, à medida em que eu que bebia
mas sede sentia…

O espaço em que órbita o pensamento é infinito.

 

Sônia, minha Irmã

É saudade o que sentimos

Quanto à ausência de alguém

Os dias idos, amores vividos

Vazio de um bem.

 

Sentir angústia sem fim

Um rio que levou folha morta

Amores que se foram, longe de mim

Agora saudade, um fechar de porta.

 

Entre o viver e o sentir, a lembrança

Um abismo intransponível

Um querer sem esperança

Um deitar e levantar impossível.

 

Nem lágrimas fazem sentido

A dor é minha, interior

Se outros soubessem nada mudaria

Pois é só meu, somente meu este amor.

 

Esquecimento

E se um dia perdesses a memória

a ponto de não mais reconhecer-me

e se você não se lembrasse do meu rosto

nem da minha voz?  Nem que fui o único

a quem você amou.?

 

Então como viveria, sem poder recordar

os momentos de infinita alegria que juntos,

vivemos?  Se um dia eu não mais existir

em sua mente, em seu olhar, e, sobretudo em sua pele?

E se um dia você perder a memória, como lembraremos

que nunca estivemos de fato juntos?

 

A sombra do que sou

Não cabe a mim uma exposição perfeita do que sou
Nem a convivência com outros me define
No dia-a-dia me revelo, num espelho escuro,
Há um muro entre o que sou e o que quero ser.
Na comunicação com os meus pares
Irmãos, nem a alma gêmea que me tem
Nos momentos noturnos de prazer e gozo
É capaz de me sondar completamente.
Pois quando penso e falo, não sou quem digo
Na verdade é outra alma que de tanto se esconder
entrou em mim, para fingir que mente.
Como vejo o mundo me revelo, mas a outra que houve
Não percebe, vê em mim aquilo que deseja
Na poesia efêmera desta vida
A imagem do belo que verseja.

 

 

 

 

Vernáculo de deuses

Sem palavra, vernáculo de deuses
Não se pode expressar uma paixão
Dos humanos se sabe que é o sangue
A maior verdade uma ilusão.

Quando pensam que sabem perdem a fala
Sempre calam diante do perdão
A vingança que encanta a tragédia
O desprezo que alimenta um louco amor.

Se palavras servissem como enredo
Só o vento saberia este segredo
Num abismo onde há razão e medo
Esta angústia, este fado, esta prisão.

 

Que motivo tenho para sorrir?

Que motivo tenho eu para sorrir
se os homens não querem mais viver
desistiram da luta pelo medo
e o segredo da paz vi se perder

Tá em baixo da lama despojada
onde a alma enterrou sem perceber
morre hoje o futuro deste mundo
lá fundo do verbo não-querer.

Que motivo teremos todos nós
para buscar nos escombros a razão
para crê que de tudo já se fez
se ainda não sabemos do perdão.

Se sorrindo o mundo se transforma
não queremos outra forma, inversão
é o mundo que gira roda a roda
mas o fim é o mesmo meu irmão.

 

Como Quixote

Como Quixote vivo a delirar
O que falta-me aos olhos
Sobra-me na mente
Penso mais que realizo
Preciso viver, preciso lutar
Montar meu Rocinante
Encontrar um dragão pra derrotar
Sair do mundo das ideias
Mas vivo preso ao passado
Passado que virou presente
Onde vivem as minhas Ducineias

 

 

Se a poesia é dor que dilacera

E o amor indubitável fera

Sofrer não pode ser quimera

E sim virtude do existir

 

A paz lugar na consciência

Na luta infinda de um querer

Sofrendo se perde a esperança

Os dias são elos sem fiança

que separam o querer do conseguir.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sonho de morte

Encontrei-me esta noite com você
Em um sonho sul real
Em um lugar bem conhecido nosso
Era numa praça, onde costumávamos ir
Você estava como sempre bela
Com um vestido amarelo.
Tudo parecia igual, embora irreal
Não podia ser verdade este encontro
Faz anos que nos separamos
E depois de algum tempo
Recebi a noticia triste de sua morte.
Mas era mesmo você… Aquela mesma mulher
Por quem um dia eu já morri de amores.
Ainda lembro com vivida convicção
De que havia flores no jardim,
Era talvez primavera
Mas não se ouvia o canto dos pássaros
Enquanto falávamos, sobre o passado distante
Surgiu um vendaval, tudo ficou de pernas pro ar
Uma tempestade seguiu o vento, que destruiu tudo
Tudo ao nosso redor sumira como encanto
Então acordei e você estava ainda comigo.

 

Venha querida

Venha querida, dê-me a sua mão
Sentemos à beira do rio
Olhemos a vida seguir seu curso

Abraça-me… Só nos teus braços
Eu posso pensar em eternidade

Venha querida, dê-me a sua mão
Sentemos à beira do rio
Deixemos a vida seguir seu curso
Beije-me para que eu possa sonhar
Com a eternidade.

Aperte a minha mão, e sinta o silêncio
Nenhuma palavra será suficiente
Para representar o que sinto agora.
Venha querida, dê-me a sua mão
Sentemos à beira do rio
Esperemos a vida seguir seu curso.

Venha querida… Esqueçamos o tempo
Não importa as pancadas do relógio
Vale mais a beleza do rio.

Aperte minha mão, e sinta o silêncio
Nenhuma palavra será suficiente
Para representar o que sinto agora
Venha querida, dê-me a sua mão
Sentemos à beira do rio
Esperemos a vida seguir seu curso.

Venha querida… Esqueçamos o tempo
Não importa as pancadas do relógio
Vale mais a beleza do rio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A poesia será sempre o teu abrigo
Uma casa segura, um conforto
Preenchendo a tua vida vã, vazia
Na agonia velada do teu rosto.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Angra a Parati!

Sonhos e alucinações me são frequentes
ao me lembrar do que nunca houve entre nós,
como um aceno teu, um sorriso complacente
de ti para mim, nem mesmo em pensamentos
me foram reveladas as tuas intenções
as imagens são curvas, sombras, calafrios
às vezes pesadelos.

Do teu corpo sinuoso nunca senti sequer o perfume
no máximo uma dança, de corpo ausente
e de alma distante… Um aperto de mão
um breve adeus, um até breve,
quem sabe um telefonema.

Assim me encontro, impávido,
com um incerto destino desafortunado
sempre na expectativa enfadonha
de um dia voltar a te encontrar
como quem anda por estradas perigosas
curvas, florestas e praias desertas
de Angra a Parati, de ti para mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulher, quase perfeição

É da natureza da mulher
ser Inconstante
e às vezes imutável
é esta inconstância
que nos fascina
sua imprevisibilidade
nos provoca e nos cativa.

É bom que seja assim
pois que graça teria a vida
se um homem estivesse
sempre seguro do amor
de sua mulher?

Os homens não estão
preparados para este
privilégio, a natureza
preferiu a mulher
para doar
sua quase perfeição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com gestos simples o amor tatua a alma
e em carne viva os amantes choram e gozam
como num crisol, corpos afins se purificam
o que antes não se compreendia cristaliza-se
solidifica-se em luz, em paz, em calma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos verdadeiros amantes
os sentidos se apuram
no calor inevitável dos desejos
na linha irregular que separa a terra e o céu,
no espaço celeste que habita
o sabor adocicado dos teus beijos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A beleza da criação artística reside na limitação de dois mundos: Um, onde tudo se realiza com a perícia das mãos e mente, e outro, onde se imagina concretizar o improvável poético, entre a paixão e o racional, entre o belo utópico e a matéria-prima que se tem em mãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fora do trilho
Longe um do outro
como o olho e o cílio.

Na proa, no tombadilho
assisto o afastar do cais
me sufoca a brisa do desprezo
e a canção da saudade que dedilho
neste pinho afinado dos meus ais.

Infinito sofrer que compartilho
com a solidão do mar profundo
à deriva soltei meus remos n’água
não espero o sossego deste mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A boca busca o beijo

Na boca arde um fogo, que
repousa num eterno verão
Na mão, uma espera por outra mão
para um cumprimento, ou um afago.

Os olhos se encontram na cumplicidade
na esperança frugal de um sonho breve
encantados à pueril contemplação da amizade.

Mas a boca só  se cala com outra boca
num afago supremo de um beijo
duas almas se arrebatam e se prendem
em correntes de caricias e desejo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Freud.

Pobre Freud, em tese, explicou que Deus é criação do homem, pois a miséria cruel do seu destino lhe precipitou em um abismo. A relação com um pai mortal, muitas vezes conturbada e ausente inspirou-o a criar um pai supremo, onipresente e eterno, capaz de lhe restituir a glória existencial em outro plano ou sistema mais ideal ou perfeito. Pobre Freud, nada sabia sobre a expressão “Tu és pó e ao pó voltarás.”

Toda forma de expressão que agregue a metafísica, seja ela capitalista ou filantrópica tem muito que ver com o desespero do espírito humano e mortal, buscando reverter tal sentença cruel, que não poderia ser proferida por um ser inteligente e moralmente generoso.

Freud talvez se esquecera de tomar emprestado de Espinoza, uma ideia mais avançada, para delimitar aquilo que não se limita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Segundo Fernando Pessoa,o homem não poderia jamais ver o seu próprio rosto, apenas poderia ver a sombra da sua figura sob o sol, a simbologia de sua forma, que nunca representaria sua verdadeira imagem, foi portanto o inventor do espelho que envenenou sua alma. Pobre Pessoal, mesmo sendo extemporâneo, tinha apenas o mito de narciso para conceber sua tese sobre a vaidade humana, imaginem se tivesse conhecido a internete e o Facebook.

 

 

 

 

 

O homem é fruto do meio?

O homem é fruto do meio, isto segundo Freud, então ele não tem domínio sobre seu Livre-arbítrio, não consegue vencer as circunstâncias onde vive. Esta ideia pode se lógica para o senso comum, pela sua simplicidade cognitiva, ou para os homens comuns. Todavia, creio que reside aqui a mesma ideia das castas indianas, onde o devoto acredita que não deve busca a superação, mudar o status quo.

Contudo, numa visão mais consciente, e, sobretudo mais de acordo com a nossa capacidade natural de buscar a luz do sol, como se busca o crescimento espiritual, o homem pode sim mudar por meio da livre escolha, as circunstâncias pode influir na maneira de reagir, mas não determinará o futuro, uma vez que o homem é o único ser na natureza que pode decidir para que rumo caminhar.

Pois é esta condição que nos diferencia dos outros animais, somos inteligentes, podemos escolher e até prever as consequências de nossas escolhas. Logo a teoria do respeitável doutor Freud cai por terra, temos os arquétipos que corroboram com esta tese, o homem não é fruto do meio, senão não teríamos os Cristos, os Mandelas, os Lulas, Obamas e outros mais.

 

 

 

O poder de um vício

Um vício pode transformar
a vida de um homem,
de inútil em necessária,
assim como a indiferença
entre duas almas pode virá paixão
e com um pouco de vinho,
o ciúme vira zelo cuidadoso,
e a loucura se transforma fantasia,
e o ócio tediante em poesia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Importa saber quem tu és

“Eu não sou nada, nunca serei nada,
mas tenho todos os sonhos do mundo.”
(Fernando Pessoa.)

“Importa saber quem tu és,
o que os outros pensam
não deve ser
parâmetro para tua
felicidade e autoestima.”

Eu sei que sou poeta,
o resto deixo por conta
dos curiosos e analistas
da vida alheia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amar
Eu te amo, acredite, amo-te
Que amor maior não cabe no meu peito
Do que esse amor, nos versos da poesia
Maior amor também não caberia.

E por te amar demais, e pelo encanto
Do amor que amar me faz, trago esse pranto
Porque eu te amo tanto todo dia
Neste pranto de amor e de alegria.

Amo-te, como um simples trovador
Que dedica seu amor num canto rouco
Esperando da amada o fim da dor

E te amo assim, quase doente, como um louco

Perdido na grandeza desse amor
Na convicta impressão

De que todo este amor ainda é pouco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chegada aos 50 anos

Diante da efêmera condição humana
quase nada nos importa, se estamos no verão
ou no inverno, se no século passado ou no presente,
quisera vivêssemos milênios,
talvez assim nos preocupássemos menos
com esta coisa de completar mais um ano
de vida ou de existência. Do pressuposto lógico
de que alguns homens vivem e outros existem,
pergunto: Que importa nossa idade, se velhos
ou jovens? Devemos nos perguntar diariamente
sobre a nossa vontade de viver, pois esta é a única
força capaz de nos conduzir às nossas realizações,
aos nossos objetivos, entre eles o mais importante
deve ser: “viver, e não apenas existir.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A regra de Ouro

 

Se formos falar do bem, ou do mal… devemos perceber que há muitos outros sentimentos, como pontos cegos ou imaginários entre estes dois universos.

As pessoas são frágeis para delimitar, de forma absoluta o que pode ser bem e mal, e o mais importante nesta confusão de ideias e sentimentos, sobre as nossas fraquezas, o que importa realmente é o quanto de bem ou de mal praticamos para com o nosso semelhante.

Se chegarmos a uma conclusão de bom senso ideal para sermos mais humanos, teremos a preocupação justa de respeitar a regra de ouro, e não precisamos nos aprofundar em tomos de filosofias sobre ética e espiritualidade para entendermos corretamente o que o bem e o mal devem produzir como consequências de nossas ações. Penso que tudo se resume na expressão: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enfraquecimento mórbido

Aquilo que muita vezes nos assalta, e sem explicação nos coloca num estado melancólico imprevisto e improvável; se nos perguntassem do que se trata, diríamos se tratar de uma solidão extrema, na verdade, são reflexos de meditação inconsciente, que às vezes se dá durante um período sonolento do dia ou na simples contemplação do horizonte, meditação esta que nos revela o quanto nos distanciamos das coisas simples, é de fato um tipo de solidão irreparável, pois constatamos, aos sair deste estado de langor, (Enfraquecimento mórbido) que não há mais como voltar ao passado nem ao ponto da nossa lastimável ignorância, quando ainda vivíamos sossegado no meio da multidão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A melhor imagem que conseguimos descrever da liberdade absoluta.

Uma criança segue caminhando em círculo, empurrando um carrinho-de-mão cheio de flores. Ela intenciona alcançar a porta da rua, a porta que dá para a liberdade. Na verdade, ela foge de um jardim, de onde foi deixada por seus pais, de uma prisão florida, um encanto, como um tipo imaginário que os adultos conservam até hoje do paraíso perdido, do paraíso de Adão, não o de Milton.

Ela é uma criança forte, foi bem alimentada durante os anos de exílio longe dos seus pais, e acredita que de fato conseguirá chegar ao portão. Mas o portão está fechado, contudo, a criança, talvez por inocência ou excesso de confiança infantil, acredita que poderá chegar à liberdade imaginada.

Esta imagem, ora descrita, é um lapso de memória coletiva: a criança que busca a liberdade não existe, ela não tem cor nem sexo definidos. É a criança que alimentamos e buscamos com ela a cada dia uma porta ou janela, que nos conduza à liberdade de voar, de sair do lugar comum em que habita toda humanidade, perdida, que durante o dia caminha para um descanso invisível, onde se encontra a paz e a liberdade, pertencentes apenas aos inocentes, que ainda continuam a brincar e a empurrar um carrinho cheio de flores em direção à maioridade.

 

 

 

 

 

 

 

Não me propus ensinar,
com a poesia,
aos homens um novo canto
nem uma nova língua.
Desejo que ao me ouvirem
pelo som que emito
com palavras imperfeitas,
possam prosseguir
acreditando que a vida
sem a melodia que produz
a nossa língua escrita
não teria nenhum sentido
ou razão.

 

 

 

 

A Mosca

A mosca. Não a mosca azul
de Machado de Assis.
Apenas uma mosca.

Uma barata. Não a kafkaniana,
Uma baleia. Não a de Jonas,
Nem a Moby dick de Herman Melville.
Um corvo. Não o de Allan Poe.

Um leviatã. Não o de Thomas Hobbes.
O original, o antes de Jó…
A mosca volta, outra vez,
Sobre meu azul celeste.

Um abutre perfumado
Ronda minhas narinas,
À sombra, um corpo pesado
Não cede ao comando
Do espírito… Não quer lutar,
Já perdeu o combate.

A mosca voa sobre o mau cheiro
Que exalo… A putrefação é final,
Um cérebro que não produz
Riqueza mental deve
Ser devorado…

A mosca é o instinto…
Um monstro do subterrâneo.
Um verme que me rói a razão.

Rio de Janeiro

Que poeta passaria
Sobre ti adormecido?
Em tuas ruas estreitas
Há um mar imenso.

Os meninos da candelária
Não se esqueceriam de ti
Ao descreverem o paraíso.

Teus poetas atingem
Ainda em vida a perfeição
Tom Jobim,
Vinicius de Morais
Som e poesia,
Hermética canção.

Bruxo de Cosme, Emil de Castro
Chico Buarque
Embarque à perdição.

Que estrangeiro não morreria
Para que tu estejas sempre linda?
Todo carioca um dia vai ao morro
Caminho reto, da queda à ascensão.

Qual dos deuses não desceria do Olimpo
Para viver um dia apenas
Em tua copa ou em tuas cabanas?
“Qual será o preço da tua liberdade?… Não queira saber, é muito caro para as tuas posses”.

O que pode ser concebido como liberdade para um homem pode variar de muitas maneiras. Há uma maioria entre eles que não percebe a diferença entre prisão e liberdade.

Contudo, alguém deve dizer, ao ler este texto, que a liberdade é o direito físico de poder ir e vir sem que seja interrompida a caminhada. O fato é que só existe prisão mental, qualquer outra forma de prisão pode ser rompida por qualquer estúpido, carcereiro ou juiz. Já a prisão real, esta de que falo é muito mais difícil de romper com os seus grilhões. Eu não tenho a pretensão de ensinar como se faz a ninguém. Mas acredito que foi pelas minhas próprias mãos, ou melhor, com meus próprios olhos que me livrei das amarras da ignorância herdada, especialmente das superstições religiosas, que representa, a meu ver, a prisão mais nociva e perpétua.
Uma frase genial de Espinosa deve indicar a chave àqueles que despertarem algum interesse por esta minha visão realista do que pode ser chamada de verdadeira prisão, a psicológica!

“O Medo gera as Superstições.”

 

 

 

 

Consciência tribal

Vivemos ainda uma consciência tribal, a mesma que atirava pedras na prostituta, ninguém tem pensamento próprio. Se há um cão morto, todos chutam e seguem em frente com riso sarcástico de quem praticou um ato de justiça.

Os falsos moralistas se aglomeram diante de uma causa que nunca defenderam, sempre foram alienados e manipulados pelo sistema que escraviza a todos, a quem comanda e a quem é comandado.

Meu Ponto de Vista, sobre o que acontece hoje no Brasil, concernente a justiça e a injustiça. Não há nenhuma virtude intelectual em concordar ou discordar com a maioria, em qualquer um dos casos é burrice e conformação decadente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A musa é débil

 

A musa é débil, infantil e pródiga
esbanja beleza, mas se retrai
em conceder ao poeta a glória.

Ele nunca sabe dos seus passos
para que direção se encaminha
o seu balançar de meiguice agreste.

Sabe a cor dos seus olhos
mas não imagina em que terra
anda o seu coração infante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desconstruamos o velho para que o novo se apresente.

Desconstruo tudo que recebi seja por leitura, ensino verbal ou intuição análoga, para inferir, livre de dogmas e teorias preconcebidos, minha própria ideia de mundo, dos homens e de Deus.

Toda as formas de pensar estes universos são hoje heranças de povos tribais, contudo a maioria das pessoas prefere não buscar outra forma de enxergar a vida e o homem atual.

René Descartes, com o seu método incomum, ou Espinosa com a sua Ética quase infalível, Einstein com o seu Deus Cósmico, ou Nietzsche com o seu Eterno Retorno, Cristo com sua Lei Régia de amor ao próximo, ou Hitler com seu ódio racial, todo pensamento existente não me serve como base, exceto como algo a ser superado.

Depois de muita investigação constatei que todos eles foram importantes em seu tempo, e a seu modo, agora não nos servem mais, a não ser como algo a ser definitivamente descartado para se criar uma aurora mais vibrante e realista. Quem pode conceber algo realmente novo sem anula-los por completo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi sem falar em saudade

Foi sem falar em saudade
Que lembrei de você
Dos seus olhos pequenos
A me enlouquecer
Do seu corpo moreno
Do seu beijo veneno
A me adormecer.

Foi sem querer que a tristeza
Chegou com a canção
Que eu fiz pra você
Naquele verão
Onde fiz do teus olhos
minha única razão
De viver, de sorrir, de sonhar
De paixão.

Foi sem falar de saudade
Que me veio a lembrança
Que perdi a esperança
De voltar a te ver.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Há poesia em quase tudo.

Há poesia em quase tudo,
só não há poesia no beijo
nem no corpo da mulher mal-amada
nem no choro da criança
faminta, abandonada.

Há poesia em quase tudo
só não há poesia na falta de carinho
da mãe pelo filho inesperado.

Há poesia em quase tudo
no encontro dos amantes
proibidos, no afago da língua
sobre a rosa, no breve adeus
do poeta desta vida.

Há poesia em quase tudo
menos na falta de amor
do homem pelo homem
e na falta de fé no amanhã.

Há poesia nos lírios dos campos
quando catam, no por do sol
amarelado, há poesia na chuva
de outono, mas falta poesia
na primavera do oriente.

Há poesia em quase tudo
menos na falta de amor
do homem pelo homem
e na falta de fé no amanhã.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João Fazendeiro.

O João era um menino peralta, e desde muito pequeno já sabia que seria fazendeiro. Mas o João nasceu muito pobre, seu pai era um lavrador de terra alheia. João perdeu o pai também muito cedo. Com a orfandade teve que se mudar para a Bahia, pois na Bahia teria trabalho. Morando com um tio, poderia aprender uma profissão, mas João não queria ser pedreiro, assim como os seus outros irmãos.

Então, ser fazendeiro seria algo muito distante das suas reais condições. Mas João, depois de algum tempo na Bahia, se mudou para Brasília, encontrou uma boa mulher que já tinha duas filhas, que trabalhava como costureira.  Então João começou a negociar. João não era religioso, mas tinha um tino de judeu para os negócios. Não demorou muito para que João se tornasse proprietário do seu próprio negócio.

João, antes de se tornar fazendeiro, foi vidraceiro, montador de móveis que ele mesmo vendia, depois comprou um mercado, logo depois comprou umas terras, e começou a plantar tomates para vender no seu próprio mercado.

João já não lembrava mais do que queria ser, já tinha posses, e, depois dos tomates, começou a plantar milho, depois a criar porcos. Hoje João cria gado, cria porco, cria galinhas. João, sem se preocupar demais com o seu verdadeiro sonho, se tornou fazendeiro.

João é meu irmão querido, que merece meu amor e minha consideração, assim como os demais. Mas eu nunca quis ser escritor, mas assim como o João, hoje eu me tornei criador de sonhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais que improvável

Em qualquer lugar, fora do tempo
noutro espaço, longe ou perto daqui
dentro do meu finito querer, ele ainda existe.

Este amor imaginado… Esta ilusão passiva
este pesadelo insone, numa lembrança morta
no futuro desejado, no presente atento
na viagem perdida, em qualquer lugar
atrás da porta.

Em outra dimensão, num sonho impossível
na realidade dolorida, não importa o não ter
o meu querer é quem dita, que este delírio
pode não ser assim tão improvável
quanto acredita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Absurdo

Poderia se quisesse, numa poesia definir o mundo,
talvez num longo romance épico ou numa peça teatral
Shakespeariana, pois o mundo de Homero é encantado,
mesmo Shakespeare nos ilude e nos engana.

Talvez, como Milton, criaria um paraíso, onde a dor
e lágrima mórbida não existiria
todavia, não seria eu poeta, um artífice vulgar da fantasia.

Mas o mundo que descrevo é real
onde os homens se perderam atrás do ouro
com instinto violam os seus direitos, uns aos outros
se ferem sem razão… Fazem guerras pela falsa liberdade
pela paz se comete atrocidades, no a fã de ser Deus ou ser Jesus.

Este mundo que agora vislumbraste, absurdo de palavras
em confusão, é o cerne de tua alma boa, humana,
discordante em perfeita erudição, não aceitas a alcunha
de animal, mas comprazes com a fama de vilão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No desvão cósmico,
onde habita o nada
há um abismo infinito,
onde cabe quase tudo
a voz lacônica do infortúnio
e o regozijo da musa
as penas da fênix
e a poesia anônima de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A poesia é arte da síntese

Assim como a saudade é a solidão
em desespero, é o resumo do amor
outrora tido…
… é o apego ao passado ressentido.

É a recusa de viver o vil presente
a negação do futuro repetido
é a sombra do destino perseguido
é desejo de comer o pão dormido.

É a seiva da ilusão inconsciente
que ocupa o pensamento incontido
a saudade é a solidão em desespero
é canteiro de um jardim adormecido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Engenho de Deus

Será engenho de Deus esta vida
dolorida demais para aguentar
se a corrida se perde é desatino
se chegamos mais cedo é azar

Será engenho de Deus esta vida
dolorida demais para aguentar
pescadores em barco sem destino
naufragados no abismo do além mar

Será engenho de Deus esta vida
dolorida demais para aguentar
a corrida não é do mais ligeiro
chega cedo aquele que fraudar.

Será engenho de Deus esta vida
dolorida demais para aguentar
Perde-se a força na labuta infinda
sem descanso há peleja noutro mar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Evitemos todo tipo de insanidade religiosa concernente à eternidade, pois a única possível ao homem até agora foi a literatura.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esperemos o futuro

Assim se deve renovar a vida,
a cada perda uma possibilidade
a cada saída uma descoberta
a cada partida um destino novo.

O amanhã um despertar constante
um raio cálido de esperança
que a alma indecisa de hoje
possa ser um rio sereno no futuro
e um homem maduro uma eterna criança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu pai

Em teu rosto posso ver o amanhã
tuas rugas são marcas do tempo
que revela a tua senil bravura
tua luta incomum pelo incerto
neste mar de ilusões e de agrura.

Sei das dores que velas escondido
da candura do teu velho coração
de um desejo por ti já reprimido
a incerteza da vida e do pão.

Há em ti um enigma divino
que explica facilmente a eternidade
neste elo infalível de amor
onde o PAI cumpre o acerto da vontade
de no filho imprimir a sua alma
na perpétua lição de uma verdade

 

 

 

 

 

 

Poesia como pétalas

Lancei-me ao mar sem remo ou âncora
fiz um pacto com vento a um destino
e nas mãos do acaso reprovável
não espero alcançar um porto adino

Como pétalas de rosa perfumada
que o amante atira na janela à sua amada
eu vou colhendo palavras improváveis
que na mente floresceram à madrugada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À inteligência o sumo licor da consciência de que na solidão há um encontro inesperado com a razão, a confirmação do êxito sobre a presunção da estupidez.

Aquele que sabe ser amado tem força para enfrentar o mundo. Já os infelizes se tornam invejosos e despeitados e lutam desesperadamente para que todos se tornem infelizes como eles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia um homem que seguia diuturnamente um sábio e, em silêncio aprendia belas lições. Até que um dia  aconteceu o inesperado. O sábio se encontrou com um fariseu, um daqueles que condenara o Cristo por perdoar uma prostituta e por curar num dia de sábado. Então, por não entender a razão do preconceito do fariseu, o sábio se tornou estúpido e travou uma discussão acalorada com o hipócrita, resultado: o Homem comum, que por algum tempo acreditou numa verdade abstrata, desistiu de seguir o sábio que se tornara estúpido.

 

 

 

 

 

De barro ou de água

É preciso adoecer de sofrimento
para que o espírito da poesia toque o pinho
num assombro encantador angustiante
vem à tona um verso livre em puro linho

Em silêncio a solidão vibrar perene
a buscar a perfeição sem variante
é sentido que a alma sobe ao alto
sem olhar o que se vê de inconstante.

E dor em dor se forma a lágrima
e da face muitas vezes não se enxuga
vendo a morte que se expande como praga
a levar homem-menino sem ter ruga.

 

 

 

 

 

 

 

.

 

Voz doce da poesia.

 

Amputaram-me os pés,
amputaram-me as mãos
depois furaram-me os olhos
em seguida amputaram-me a língua
perguntaram-me se ainda sentia dor.

Eu não podia andar, era fato
nem podia ver, nem apalpar
contudo, meu melhor sentido
ainda permanecia, não se alterara
ainda podia ouvir o som do vento,
e a voz doce da poesia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Azul

Azul é o mar, sob o horizonte
Azul é céu, Azul é o monte
Azul é o vago, Azul é a ponte
Azul é o olho que mira esta fonte.

Azul de beleza, de sonho sem fim
Azul de esperança, pintada por mim
Azul é teu nome, ninfa prateada
Azul teu cabelo, minha selva encantada.

Azul infinito, onde mora o querer
Azul de conflito, entre o ser e o não ser
Azul de desejos, azul de ilusão
Azul, me refiro ao meu coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Universo caos

 

Imagine um turbilhão de partículas flutuando no abismo. É a isto que cognominamos de universo. Partículas de todos os tamanhos e formas, fruto de um caos, desgoverno sem propósito.

E o homem, apenas mais uma partícula atômica empurrada pelas leis naturais, física e gravitacional. A inteligência lutando em vão contra a perversidade do caos, com o fim de organizar, elaborar sistemas, classificar espécies e formas que garantam a sua existência duvidosa. Qual a condição e a possibilidade do homem reverter este fato que é o caos universal?

Mesmo que todos os homens, como partículas integrantes deste sistema sem objetivo se tornassem inteligentes, a ponto de desenvolver instrumentos para se isolar dos demais sistemas caóticos, não seria possível contornar nosso destino abismal, pois as inteligências difeririam e, logo estaria formado outro caos dentro do caos, as ideologias, cada grupo “inteligente” apontado apenas para seu umbigo, e a desunião causaria a destruição da espécie. Eis o mundo atual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ilusão

Fomos nós que inventamos toda esta ilusão,
somos nós os redentores de nossa maldição

Há ilusão no querer, há ilusão no saber
há ilusão no mandar, há ilusão no poder.

Há ilusão nas estrelas, no céu azul a esconder
a ilusão desta vida, a ilusão de morrer

De ilusão somos feitos, por mais real que pareça
há ilusão do amor, que brevemente se esqueça.

Há ilusão de um sonho, de uma alegria sem fim
há ilusão no destino, mesmo que seja ruim

Há ilusão voa alto, que não se pode alcançar
na ilusão nós estamos na terra a caminhar.

A ilusão é fugas, a quem não quer aceitar
que somos bolas de gás, que Deus irá espetar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Saramago escreveu um texto sobre Fernando Pessoa, que a meu ver justificaria o Nobel que recebeu, a imagem poética que ele consegue sintetizar é impossível de ser superada, nem mesmo Pessoa poderia. Esta essência genial do gênio que multiplica os gênios criadores e dão mais vigor ao ofício do gênio imortal. Chorei ao fim da leitura, até hoje apenas dois textos foram capazes de me elevar a tão alto entendimento do que pode ser a poesia.

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