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introdução do livro 2019 -de evan do carmo

O ano era 2019

Em algum lugar do mundo algo deu errado, talvez um distúrbio da natureza tenha gerado uma anomalia significativa, algo que feriria de morte o ser mais evoluído do planeta.

No Brasil era véspera de carnaval, gente de toda parte entrando para festejar a vida. Enquanto isso lá no oriente, em uma pequena cidade, um vírus gripal, segundo a ciência, havia se espalhado e ceifado algumas vidas. Contudo, o resto do mundo não deu a devida atenção para este evento. Em dois meses o vírus já era encontrado em vários lugares do mundo.

Neste tempo eu vivia sossegadamente, em uma unidade da federação do Brasil, em Brasília, onde seus habitantes não se interessam muito pelo que ocorre no mundo, vivem em sua própria ilha, é de fato um pequeno pedaço do paraíso. Todavia, eu não sou dessa mesma natureza, e logo percebi que o carnaval seria o meio mais veloz de espalhar o vírus, mas as autoridade brasileiras não são crédulas, quando o assunto é prevenir para depois não ter que remediar.

Era só uma gripe, ou apenas um simples resfriado, não traria grandes consequências para o nosso mundo tão evoluído. Logo a ciência apresentaria a solução, uma nova e eficaz vacina, isso caso a praga se espalhasse em todo o mundo. Era o que diziam os mais otimistas, talvez os mais irresponsáveis líderes mundiais.

Veio o carnaval de 2020, e no Brasil o primeiro caso de contaminação pelo vírus foi em fevereiro, e na Europa já havia centenas casos, no Brasil a transmissão comunitária ocorreu em março, é quando o vírus já tem se espalhado em pessoas que não vieram de fora do país.

Eu me isolei em 15 de março de 2020, como moro em lugar razoavelmente centralizado, tudo ficou bem mais fácil, passei a comprar tudo por internet, online, tudo mesmo. Minha esposa e eu não tivemos dificuldades para manter o isolamento por um ano e meio.

Foi justamente em Brasília, no dia 7 de março, onde se registrou o primeiro caso grave de contaminação no país. Uma mulher de 52 anos que havia chegado da Europa.

Não tem como não me lembrar do livro de Jose´ Saramago. OEnsaio sobre a cegueira,” a forma com ele descreve a cegueira em seu magnífico romance, como a cegueira simbólica se espalha, é exatamente igual. Alguém que toca em alguém contaminado, no caso do vírus em questão é muito mais nociva e mais veloz a contaminação, não é necessário tocar em alguém para se infectar, pois em uma distância considerável, alguém que esteja transmitindo pode alcançar a próxima vítima com até dois metros de afastamento, sem contar que se em um lugar fechado tiver um contaminando e no mesmo lugar tiver centenas de outras pessoas sadias, o número de pessoas que podem ser afetadas ainda é desconhecido pela ciência. Existe uma média que serve como parâmetro para determinar o grau da gravidade, uma taxa de transmissão, esta taxa segue a seguinte média, cada 100 infectados podem transmitir para outros 100, quando é essa a média, considera-se baixa a taxa de transmissão, contudo essa taxa tem muitas variáveis, tendo chegado até 100 por 1,10 em alguns lugares do mundo.

O coronavírus é um novo vírus contagioso e ainda há muito a ser descoberto sobre ele. Ao contrário daqueles que causam a gripe comum, não há pré-imunidade conhecida, vacina ou tratamento específico e presume-se que todas as pessoas sejam suscetíveis a ele. Médicos Sem Fronteiras (MSF) está muito preocupada com como a pandemia do Covid-19 afetará a população de países com sistemas de saúde já frágeis. A sobrecarga dos sistemas de saúde vem se mostrando um dos maiores impactos da nova doença, mesmo em países com estruturas médicas robustas. Em países com estruturas fragilizadas por falta de investimento ou conflitos, como as regiões em que MSF atua, o peso sobre as equipes e instalações médicas pode ter resultados ainda mais devastadores.”

Logo começou o caos em todo o mundo, pessoas morrendo, em todos os lugares, e no Brasil especialmente tudo foi agravado pela descrença, despreparo e irresponsabilidade dos governantes, dos estados e municípios, e, sobretudo, da união, na pessoa do presidente do país. O presidente foi o ativista principal da ideologia de morte, da ideia de que não deveria se fazer isolamento, porque segundo essa ideologia a covid-19 não seria tão devastadora como foi, tendo matado no Brasil, em apenas um ano e meio, mais de 500.000 pessoas. O lema da metade do Brasil, isso mais de 100 milhões de pessoas, que no ano de 2020 faziam parte dos seguidores fanáticos do presidente, era a de que, “isso é apenas uma gripezinha e só mata gente fraca,” a ponto de fazerem passeatas pedindo o fim das medidas de proteção à vida. Medidas que eram implantadas com bons resultados em todo o mundo.  

O Brasil que já se encontrava divido por ideologias políticas, agora era mais uma vez afetado severamente pela ideologia do vírus. Uns acreditando na seriedade da crise sanitária, que logo atingiu seu clímax, sendo declarada pela OMS como uma pandemia. Nem assim houve mudanças de pensamentos entre os que eram contrário aos protocolos internacionais de proteção da vida. O discurso era o de que se adotássemos estes protocolos a economia teria uma desastrosa queda, chegando, segundo o governo, a matar grande parte dos brasileiros de fome, e não de covid.

Enquanto isso o pais da Europa mais afetado primariamente foi a Itália, com centenas de mortes, quando se anunciavam 500 mortes em apenas um dia, aqui no Brasil as coisas estavam ainda bem tranquilas, e quase todo mundo acreditava que as primeiras medidas de segurança, como fechamento das cidades por 15 dias, isto em alguns estados como São Paulo, seria suficiente para conter a peste, mas não foi bem assim. Se acirrou ainda mais as discussões políticas em torno da crise sanitária, e, com isso o povo não sabia em quem acreditar, porque tudo era discurso político, quem acreditava e quem não acreditava na doença, em uma pais com a nossa extensão geográfica, quase um continente, tudo ia ficando mais complicado.

Neste mar de confusões de proporção épica, quem não é de discussão política ficou ilhado, não é possível se pronunciar sem o receio de ofender alguém. Eu não me envolvi nessas contendas. Contudo, tive que presenciar algumas discussões acaloradas, de pessoas das duas frentes ideológicas. O mais complicado é ouvir pessoas que perderam parentes e amigos negando a doença.

Estamos no mês de julho, por isso resolvi escrever este livro, pois só agora pude processar melhor tudo que ingeri durante este período crítico da pandemia. No início, nos primeiros meses foi uma enxurrada de notícias desencontradas, nem mesmo a OMS sabia direito como orientar o mundo sobre os efeitos e consequências da COVID-19. No princípio você deve se lembrar, que a ordem mundial vinda da área da saúde era, ninguém deve se preocupar em usar máscaras, as máscaras devem ficar única e exclusivamente para os profissionais da saúde. Hoje já se sabe que, apenas esta medida equivocada fora a causa de milhões de mortes.

Hoje já ultrapassamos mais de 550 mil mortos, o país começa a reagir economicamente, teve um aumento na inflação de 30% especialmente nos gêneros alimentícios. Esta não é marca oficial, pois a inflação real não é divulgada pelo governo, apenas o cidadão comum que precisa alimentar sua família sabe dessa marca.

O governo nada fez de essencial para amenizar a crise econômica provocada pela pandemia, ensaiou um auxilio emergencial que não atingiu de fato quem precisava, mas isso foi apenas durante alguns meses, logo descontinuou, alegando que não havia recurso para tal medida popular. A miséria assolou o Brasil de ponta a ponta, e, enquanto isso o presidente fazia passeatas em prol da ditadura. Movimentos ante democráticos, idealizados por uma ala ideológica que apoia o presidente em suas loucuras. O Brasil virou motivo de chacota internacional, todos os dias saiam nos jornais as piadas do presidente sobre os mortos, sobre a doença, e sobretudo fazendo deboches dos números, negando a gravidade da pandemia e incitando seus apoiadores a fazer o mesmo.

“Mergulhei de máscara também, para não pegar Covid nos peixinhos’, ironiza presidente.

‘Não sou coveiro, tá?’, diz Bolsonaro ao responder sobre mortos por coronavírus.

Foram tantas as asneiras ditas pelo chefe maior da política brasileira que não vale a pena citar, uma grande vergonha histórica, muitos hoje o chamam de genocida, meu ponto de vista vai além disso, ao final do livro saberão corretamente qual foi meu objetivo em narrar estes fatos que vi e ouvi de alma presente.

Fiquei quieto como já dito, para processar tudo isso, como jornalista, como artista de modo geral, tive que engolir calado muito desaforo, pois não era hora de me pronunciar. Como cronista, penso que tenho um dever moral com a história da literatura, não quero cair no mesmo erro que cometeu Machado Assis. O erro de ficar neutro, passivamente como observador sem sequer registrar muitas coisas da sua contemporaneidade social. Embora não tenha nenhum interesse em política, como escritor cai sobre mim a responsabilidade de pelo menos narrar o que vi.